UNESP – Questões de filosofia

1. (Unesp 2012)

ooo

Se me mostrarem um único ser vivo que não tenha ancestral, minha teoria poderá ser enterrada.

(Charles Darwin)

Sobre essa frase, afirmou-se que:

I. Contrapõe-se ao criacionismo religioso.

II. Contrapõe-se ao essencialismo de Platão, segundo o qual todas as espécies têm uma essência fixa e eterna.

III. Sugere uma possibilidade que, se comprovada, poderia refutar a hipótese evolutiva darwiniana.

IV. Propõe que as espécies atuais evoluíram a partir da modificação de espécies ancestrais, não aparentadas entre si.

V. Nega a existência de espécies extintas, que não deixaram descendentes.

É correto o que se afirma em

a) IV, apenas.

b) II e III, apenas.

c) III e IV, apenas.

d) I, II e III, apenas.

e) I, II, III, IV e V.

 

Resposta: D

A teoria evolucionista de Charles Darwin propõe que as espécies evoluíram a partir de modificações de ancestrais aparentados entre si. As espécies extintas deixaram descendentes que formaram as espécies atuais.

Na frase do enunciado, Darwin evoca, de maneira irônica, a possibilidade de sua teoria poder estar errada. Para ele, a ancestralidade é uma característica comum a todas as espécies de seres vivos, que, por isso, são considerados como sendo aparentados entre si, mesmo que através de um ancestral longínquo. Vale ressaltar que sua teoria da Evolução contraria tanto o criacionismo religioso quanto o essencialismo platônico ao desconsiderar a existência de espécies únicas e diferentes entre si em essência.

 

2. (Unesp 2015) Texto 1

Quanto mais as classes exploradas, o “povo”, sucumbem aos poderes existentes, tanto mais a arte se distanciará do “povo”. A arte pode preservar a sua verdade, pode tornar consciente a necessidade de mudança, mas apenas quando obedece à sua própria lei contra a lei da realidade. A arte não pode mudar o mundo, mas pode contribuir para a mudança da consciência e impulsos dos homens e mulheres que poderiam mudar o mundo. A renúncia à forma estética é abdicação da responsabilidade. Priva a arte da verdadeira forma em que pode criar essa outra realidade dentro da realidade estabelecida – o cosmos da esperança. A obra de arte só pode obter relevância política como obra autônoma. A forma estética é essencial à sua função social.

MARCUSE, Herbert. A dimensão estética, s/d. Adaptado.

 

Texto 2

Foi com estranhamento que crítica e público receberam a notícia de que a escritora paulista Patrícia Engel Secco, com a ajuda de uma equipe, simplificou obras de Machado de Assis e de José de Alencar para facilitar sua leitura. O projeto que alterou partes do conto O Alienista e do romance A Pata da Gazela recebeu a aprovação do Ministério da Cultura para captar recursos com a lei de incentivo para imprimir e distribuir, gratuitamente, 600 000 exemplares. Os livros apresentam substituição de palavras e expressões com registro simplificado, como, por exemplo, a troca de “prendas” por “qualidades” em O Alienista. “O público-alvo do projeto é constituído por não leitores, ou leitores novos, jovens e adultos, de todos os níveis de escolaridade e faixa de renda”, afirmou Patrícia. Autora de mais de 250 títulos, em sua maioria infantis, ela diz que encontra diariamente pessoas que não leem, mas que poderiam se interessar pelo universo de Machado e Alencar se tivessem acesso a uma obra facilitada.

KUSUMOTO, Meire. “De Machado de Assis a Shakespeare: quando a adaptação diminui obras clássicas”. http://veja.abril.com.br, 12.05.2014. Adaptado.

Explique o significado da autonomia da obra de arte para o filósofo Marcuse. Considerando esse conceito de autonomia, explique o significado estético do projeto literário de facilitação de algumas obras de Machado de Assis e de José de Alencar.

 

Resposta:

 A teoria estética de Herbert Marcuse baseia-se nos princípios marxistas, realizando, contudo, uma crítica à visão ortodoxa desta teoria. Segundo a teoria estética marxista a obra de arte é um todo que representa a visão de mundo de determinadas classes sociais. Desta forma, a obra de arte possui a função política de criar uma consciência, porém esta criação é direcionada, intencional segundo os marxistas ortodoxos.

Para Marcuse, a obra de arte possui uma função política em si mesmo, ou seja, ela é uma representação de uma visão de mundo que visa comunicar, abrir possibilidades, não necessariamente direcionar a visão daqueles que apreciar a obra. Assim, a obra de arte é autônoma por si e não necessita de direcionamento. Ela rompe com a consciência dominante por meio da experiência individual. Esta experiência é libertadora na medida em que leva o apreciador a sentir e refletir seu significado, comparando o que lhe foi proporcionado com sua própria experiência de mundo.

Com relação ao projeto de facilitação de acesso a obras consagradas, de Machado de Assis e José de Alencar, a estética Marcuseana se posiciona contra, pois isto serve como forma de direcionamento do sentido político da obra de arte. A facilitação ao acesso não produziria uma experiência individual e libertária para o apreciador, mas sim uma doutrinação ao modificar a concepção original da obra, impedindo que ela, por si própria, desempenhasse sua função estética. Em outras palavras, a adaptação da obra literária, através da justificativa de facilitação de acesso, serviria como instrumental de controle e que pode ser utilizado em favor de interesses de classes dominantes.

 

3. (Unesp 2012) Regulamentação publicada nesta segunda-feira, no Diário Oficial do Município do Rio, determina que as crianças e adolescentes apreendidos nas chamadas cracolândias fiquem internados para tratamento médico, mesmo contra a vontade deles ou dos familiares. Os jovens, segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas), só receberão alta quando estiverem livres do vício. A “internação compulsória” vale somente para aqueles que, na avaliação de um especialista, estiverem com dependência química. Ainda de acordo com a resolução, todas as crianças e adolescentes que forem acolhidos à noite, “independente de estarem ou não sob a influência do uso de drogas”, não poderão sair do abrigo até o dia seguinte.

 (www.estadao.com.br, 30.05.2012. Adaptado.)

As justificativas apresentadas neste texto para legitimar a “internação compulsória” de usuários de drogas são norteadas por:

a) princípios filosóficos baseados no livre-arbítrio e na autonomia individual.

b) valores de natureza religiosa fundamentados na preservação da vida.

c) valores éticos associados ao direito absoluto à liberdade da pessoa humana.

d) realização prévia de consultas públicas sobre a internação obrigatória.

e) critérios médicos relacionados à distinção entre saúde e patologia.

 

Resposta: E

 Interessante questão. A tomada de decisão a respeito da “internação compulsória” não é baseada em princípios filosóficos ou valores religiosos. O principal aliado para a tomada dessa decisão política é o saber médico que passa a definir o que é normal e o que é patológico. Esse é um dos principais saberes com o qual o poder está relacionado na sociedade contemporânea.

 

4. (Unesp 2012) Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor, e a buscar a simbiose do melhor de todas as culturas. A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas também segundo o comportamento de uma potência que, como seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emancipação. Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais.

(Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.)

No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin desenvolve

a) reflexões elogiosas acerca das consequências do etnocentrismo ocidental sobre outras culturas.

b) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da Revolução Francesa na história.

c) argumentos que defendem o isolamento como forma de proteção dos valores culturais.

d) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental e outras culturas na história.

e) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da Revolução Francesa.

 

Resposta: D

A alternativa [D] é a única correta. Morin propõe uma análise crítica das culturas contemporâneas. Segundo ele, elas não devem ser analisadas somente por seus valores, mas também por aquilo que produziram e pelas barbáries que permitiram. É a partir dessa análise que cada nação deve buscar integrar aquilo que as outras possuem de melhor.

 

5. (Unesp 2012) Se um governo quer reduzir o índice de abortos e o risco para as mulheres em idade reprodutiva, não deveria proibi-los, nem restringir demais os casos em que é permitido. Um estudo publicado em “The Lancet” revela que o índice de abortos é menor nos países com leis mais permissivas, e é maior onde a intervenção é ilegal ou muito limitada. “Aprovar leis restritivas não reduz o índice de abortos”, afirma Gilda Sedgh (Instituto Guttmacher, Nova York), líder do estudo, “mas sim aumenta a morte de mulheres”. “Condenar, estigmatizar e criminalizar o aborto são estratégias cruéis e falidas”, afirma Richard Horton, diretor de “The Lancet”. “É preciso investir mais em planejamento familiar”, pediu a pesquisadora, que assina o estudo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os seis autores concluem que “as leis restritivas não estão associadas a taxas menores de abortos”. Por exemplo, o sul da África, onde a África do Sul, que o legalizou em 1997, é dominante, tem a taxa mais baixa do continente.

 (http://noticias.uol.com.br, 22.01.2012. Adaptado.)

Na reportagem, o tema do aborto é tratado sob um ponto de vista

a) fundamentalista-religioso, defendendo a validade de sua proibição por motivos morais.

b) político-ideológico, assumindo um viés ateu e materialista sobre essa questão.

c) econômico, considerando as despesas estatais na área da saúde pública em todo o mundo.

d) filosófico-feminista, defendendo a autonomia da mulher na relação com o próprio corpo.

e) estatístico, analisando a ineficácia das restrições legais que proíbem o aborto.

 

Resposta: E

Somente a alternativa [E] está correta. Ainda que todas as outras alternativas apresentem formas plausíveis de se analisar o tema do aborto, nessa reportagem ele é analisado especificamente sob o prisma estatístico.

 

6. (Unesp 2014) Tradição de pensamento ético fundada pelos ingleses Jeremy Bhentam e John Stuart Mill, o utilitarismo almeja muito simplesmente o bem comum, procurando eficiência: servirá aos propósitos morais a decisão que diminuir o sofrimento ou aumentar a felicidade geral da sociedade. No caso da situação dos povos nativos brasileiros, já se destinou às reservas indígenas uma extensão de terra equivalente a 13% do território nacional, quase o dobro do espaço destinado à agricultura, de 7%. Mas a mortalidade infantil entre a população indígena é o dobro da média nacional e, em algumas etnias, 90% dos integrantes dependem de cestas básicas para sobreviver. Este é um ponto em que o cômputo utilitarista de prejuízos e benefícios viria a calhar: a felicidade dos índios não é proporcional à extensão de terra que lhes é dado ocupar.

(Veja, 25.10.2013. Adaptado.)

A aplicação sugerida da ética utilitarista para a população indígena brasileira é baseada em

a) uma ética de fundamentos universalistas que deprecia fatores conjunturais e históricos.

b) critérios pragmáticos fundamentados em uma relação entre custos e benefícios.

c) princípios de natureza teológica que reconhecem o direito inalienável do respeito à vida humana.

d) uma análise dialética das condições econômicas geradoras de desigualdades sociais.

e) critérios antropológicos que enfatizam o respeito absoluto às diferenças de natureza étnica.

 

Resposta:B

A alternativa [B] é a correta, pois a questão central abordada, esta centrada no utilitarismo. Esta corrente de pensamento desconsidera, em sua análise, as consequências “menores”, ou em outras palavras a “menor porção de felicidade” gerada pelas escolhas em comparação com a eficiência daquilo que se propõe. No caso do problema indígena, a justificativa para rever a questão do assentamento destas populações, tendo como base a ética utilitarista, verifica-se que esta ética utiliza um comparativo entre a proporção de terras cedidas aos indígenas, utilizando a agricultura como referencial e a elevação dos casos de mortalidade, havendo ainda assim, a necessidade de mais intervenção do Estado para garantir condições de vida aos índios. As demais alternativas não abordam o tema central do utilitarismo que é o aumento felicidade da população em relação a um menor sofrimento. Desta maneira, pode-se justificar ideologicamente a revisão dos assentamentos, com base de que isto não esta proporcionando melhoria na qualidade de vida dos índios.

 

7. (Unesp 2015) Seja como termo, seja como conceito, a filosofia é considerada pela quase totalidade dos estudiosos como criação própria do gênio dos gregos. Sendo assim, a superioridade dos gregos em relação aos outros povos nesse ponto específico é de caráter não puramente quantitativo, mas qualitativo, porque o que eles criaram, instituindo a filosofia, constitui novidade que, em certo sentido, é absoluta. Com efeito, não é em qualquer cultura que a ciência é possível. Há ideias que tornam estruturalmente impossível o nascimento e o desenvolvimento de determinadas concepções – e, até mesmo, ideias que interditam toda a ciência em seu conjunto, pelo menos a ciência como hoje a conhecemos. Pois bem, em função de suas categorias racionais, foi a filosofia que possibilitou o nascimento da ciência, e, em certo sentido, a gerou. E reconhecer isso significa também reconhecer aos gregos o mérito de terem dado uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização.

(Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia, vol. 1, 1990. Adaptado.)

Baseando-se no texto, explique por que a definição apresentada de “filosofia” pode ser considerada eurocêntrica. Explique também que tipo de ideias apresentaria a característica de impedir o desenvolvimento do conhecimento científico.

Resposta:

 A filosofia enquanto forma de conhecimento é considerada pela quase totalidade de estudiosos como de origem grega devido às condições específicas ocorridas na antiguidade que permitiram seu surgimento. Fatores como: navegações, invenção da moeda, da escrita, das leis e principalmente da “pólis” (cidade), somados a insatisfação intelectual em relação à forma de como compreendiam o mundo, possibilitaram o estabelecimento de um modo mais coerente de pensar a realidade. Com o passar do tempo, esta forma de saber, desenvolveu-se autonomamente, se expandindo por todos os povos que tiveram contato com a cultura grega. A filosofia pode ser considerada eurocêntrica, pois o continente Europeu foi o lugar que herdou dos gregos esta forma de saber. Foi principalmente na Europa onde ocorreu o desenvolvimento, expansão e divulgação da reflexão filosófica e forma sistematizada.

A Filosofia tem como características: o caráter reflexivo, a argumentação racional, a investigação radical, a sistematização do saber e a análise de conjunto.

O desenvolvimento da filosofia possibilitou por sua vez o desenvolvimento do conhecimento científico. Desta forma, as ideologias, as doutrinas dogmáticas, mitologias não refletidas e senso comum vão contra as características do saber filosófico e científico e se constituem como impeditivos para o desenvolvimento do conhecimento científico.

 

8. (Unesp 2015) Do ponto de vista do Iluminismo, a ilusão deixa de ser uma simples deficiência subjetiva, e passa a enraizar-se em contextos de dominação, de onde a ilusão deriva e se incumbe de estabilizar. O preconceito – a opinião falsa, não controlável pela razão e pela experiência – revela seu substrato político. É no interesse do poder que a razão é capturada pelas perturbações emocionais, abstendo-se do esforço necessário para libertar-se das paixões perversas, e para romper o véu das aparências, que impedem uma reflexão emancipatória. Deixando-se arrastar pelas interferências, a razão não pode pensar o sistema social em sua realidade. Prisioneira do dogmatismo, que nem pode ser submetido ao tribunal da experiência nem permite a instauração desse tribunal, a razão está entregue, sem defesa, às imposturas da religião e de todos os outros dogmas legitimadores.

(Sérgio Paulo Rouanet. A razão cativa, 1990. Adaptado.)

Considerando o texto e o título sugestivo do livro de Rouanet, explique as implicações políticas do cativeiro da razão e defina o que significa a reflexão emancipatória referida pelo autor.

 

Resposta:

 O papel das ideologias é dar um sentido legitimador para as contradições sociais, a fim de que pareçam coerentes e até desejáveis. Assim, as ideologias produzidas pela classe dominante, possuem um papel vital no condicionamento da razão humana dentro do espaço social. Esta condição imposta à consciência submete a razão a um domínio, tornando-a impotente e legitimando a dominação de uma classe que lucra, de algum modo, sobre a outra, criando um cativeiro. Sob tal cativeiro, fica impossível traçar vias para consolidar valores democráticos, acessíveis a todos, assim como construir uma sociedade menos desigual e mais equitativa.

A reflexão emancipatória é alcançada quando se percebe que as ideologias não coincidem com a realidade. Para que isto seja possível é necessário deixar de lado os dogmas impostos pela classe dominante, transcender os preconceitos e criar uma consciência de si enquanto ser existente na realidade coletiva. Por meio da emancipação da razão se é possível propor projetos honestos e democráticos para a transformação social.

 

9. (Unesp 2015) A fonte do conceito de autonomia da arte é o pensamento estético de Kant. Praticamente tudo o que fazemos na vida é o oposto da apreciação estética, pois praticamente tudo o que fazemos serve para alguma coisa, ainda que apenas para satisfazer um desejo. Enquanto objeto de apreciação estética, uma coisa não obedece a essa razão instrumental: enquanto tal, ela não serve para nada, ela vale por si. As hierarquias que entram em jogo nas coisas que obedecem à razão instrumental, isto é, nas coisas de que nos servimos, não entram em jogo nas obras de arte tomadas enquanto tais. Sendo assim, a luta contra a autonomia da arte tem por fim submeter também a arte à razão instrumental, isto é, tem por fim recusar também à arte a dimensão em virtude da qual, sem servir para nada, ela vale por si. Trata-se, em suma, da luta pelo empobrecimento do mundo.

(Antônio Cícero. “A autonomia da arte”. Folha de São Paulo, 13.12.2008. Adaptado.)

De acordo com a análise do autor,

a) a racionalidade instrumental, sob o ponto de vista da filosofia de Kant, fornece os fundamentos para a apreciação estética.

b) um mundo empobrecido seria aquele em que ocorre o esvaziamento do campo estético de suas qualidades intrínsecas.

c) a transformação da arte em espetáculo da indústria cultural é um critério adequado para a avaliação de sua condição autônoma.

d) o critério mais adequado para a apreciação estética consiste em sua validação pelo gosto médio do público consumidor.

e) a autonomia dos diversos tipos de obra de arte está prioritariamente subordinada à sua valorização como produto no mercado.

 

Resposta:B

Não pode ser submetida aos mesmos critérios que regem a razão, diferentemente da autonomia libertária na qual o uso da razão conduz o indivíduo para um fim. Este fim é intencional e serve para tornar o homem mais consciente de si e promover sua independência racional, criando assim, condições para agir de forma direcionada e intencional. Já autonomia estética não possui um fim em si, ela serve como forma de fruição, ou seja, sua apreciação não direciona a uma elevação, a uma intenção para algo. Desta forma, quando tornamos a arte racional, desprovemo-la de suas qualidades intrínsecas e a tornamos um instrumento que não promove uma autonomia por si. Quando se direciona a arte por meio da razão instrumental, descaracteriza-se sua fruição. Em outras palavras, para que a arte seja preservada, não submeter à arte ao mercado (razão instrumental), pois se tem aí o empobrecimento de sua capacidade representativa e expressiva.

 

10. (Unesp 2015) Para o teórico Boaventura de Sousa Santos, o direito se submeteu à racionalidade cognitivo-instrumental da ciência moderna e tornou-se ele próprio científico. Existe a necessidade de repensarmos os direitos humanos. Boaventura nos instiga a pensar que eles possuem um caráter racional e regulador da vida humana. Esses direitos não colaboram para eliminar as assimetrias políticas, culturais, sociais e econômicas existentes, especialmente nos países periféricos. Os direitos humanos, num plano universalista e aberto a todos, não modificam as estruturas desiguais, mas ratificam a ordenação normativa para comandar uma sociedade.

(Adriano São João e João Henrique da Silva. “A historicidade dos direitos humanos”. Filosofia, ciência e vida, dezembro de 2014. Adaptado.)

De acordo com o texto, os direitos humanos são passíveis de crítica, porque

a) desempenham um papel meramente formal de proteção da vida.

b) inexistem padrões universalistas aplicáveis à totalidade da humanidade.

c) são incompatíveis com os valores culturais de nações não ocidentais.

d) sua estrutura normativa carece de racionalidade e de cientificidade.

e) são destituídos de uma visão religiosa e espiritualista de mundo.

 

Resposta:A

No texto da questão dois pontos são destacados como referente ao papel dos direitos humanos, sendo eles: o “caráter racional e regulador da vida humana” e “ratificam a ordenação normativa para comandar a sociedade”. Estas afirmações encontram respaldo na filosofia política dos contratualistas que estabelece que os direitos inerentes aos seres humanos, e que não estão sujeitos à discussão, pois surgem devido à conveniência dos homens que abrem mão de sua liberdade para viverem em sociedade. Assim, surge o direito natural como polo regulador dos limites que a sociedade organizada não pode ultrapassar na consolidação de sua estrutura. Contudo, o texto nos coloca que devido ao progresso das ciências atualmente se descaracterizou sua fundamentação passando estes, a serem tratados como conceito obsoleto que pode ser questionado livremente sem que haja qualquer empecilho caso se julgue que eles não atendam mais as concepções vigentes. Portanto, da mesma forma, os direitos humanos não se fazem mais uma garantia absoluta para a proteção a vida, mas constituem-se como meras referências formais na realidade universal.

 

11. (Unesp 2015) IHU On-Line – A medicalização de condutas classificadas como “anormais” se estendeu a praticamente todos os domínios de nossa existência. A quem interessa a medicalização da vida?

Sandra Caponi – A muitas pessoas. Em primeiro lugar ao saber médico, aos psiquiatras, mas também aos médicos gerais e especialistas. Interessa muito especialmente aos laboratórios farmacêuticos que, desse modo, podem vender seus medicamentos e ampliar o mercado de consumidores de psicofármacos de modo quase indefinido. Porém, esse interesse seria irrelevante se não existisse uma demanda social que aceita e até solicita que uma ampla variedade de comportamentos cotidianos ingresse no domínio do patológico. Um exemplo bastante óbvio é a escola. Crianças com problemas de comportamento mais ou menos sérios hoje recebem rapidamente um diagnóstico psiquiátrico. São medicadas, respondem à medicação e atingem o objetivo social procurado. Essas crianças que tomam ritalina ou antipsicóticos ficam mais calmas, mais sossegadas, concentradas e, ao mesmo tempo, mais tristes e isoladas.

http://www.ihuonline.unisinos.br. Adaptado.

Podemos considerar como uma importante implicação filosófica da medicalização da vida

a) a incorporação do conhecimento científico como meio de valorização da autonomia emocional e intelectual.

b) a institucionalização de procedimentos de análise e de cura psiquiátrica absolutamente objetivos e eficientes.

c) a proliferação social de conhecimentos e procedimentos médicos que pressupõem a patologização da vida cotidiana.

d) a contribuição eticamente positiva da psiquiatrização do comportamento infantil e juvenil na esfera pedagógica.

e) o caráter neutro do progresso científico em relação a condicionamentos materiais e a demandas sociais.

 

Resposta:C

O desenvolvimento das ciências médicas e sociais possibilitou de um lado o avanço na compreensão detalhada do funcionamento do corpo/mente e comportamento humano, de outro lado, colaborou para a classificação e criação de um referencial de normalidade. Por meio deste referencial, classifica-se como “anormal”, ou “patológico”, tudo o que não se adéqua ao padrão estabelecido, em outras palavras, reduz-se toda a complexidade da vida humana a um conjunto de fatores normais ou patológicos. Assim, no intuito de poder corrigir esta “distorção” faz-se uso de medicamentos e procedimentos que atingem objetivos definidos. No caso, uma maior eficiência e adequação do comportamento escolar. Condiciona-se assim, o comportamento às necessidades colocadas pela dinâmica social.

 

12. (Unesp 2015) Texto 1

Karl Popper se diferenciou ao introduzir na ciência a ideia de “falibilismo”. Ele disse o seguinte: “O que prova que uma teoria é científica é o fato de ela ser falível e aceitar ser refutada”. Para ele, nenhuma teoria científica pode ser provada para sempre ou resistir para sempre à falseabilidade. Ele desenvolveu um tipo de teoria de seleção das teorias científicas, digamos, análoga à teoria darwiniana da seleção: existem teorias que subsistem, mas, posteriormente, são substituídas por outras que resistem melhor à falseabilidade.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência, 1996. Adaptado.

Texto 2

O paralelismo entre macrocosmos e microcosmos, a simpatia cósmica e a concepção do universo como um ser vivo são os princípios fundamentais do pensamento hermético, relançado por Marcílio Ficino com a tradução do Corpus Hermeticum. Com base no pensamento hermético, não há qualquer dúvida sobre a influência dos acontecimentos celestes sobre os eventos humanos e terrestres. Desse modo, a magia é a ciência da intervenção sobre as coisas, os homens e os acontecimentos, a fim de dominar, dirigir e transformar a realidade segundo a nossa vontade.

REALE, Giovanni. História da filosofia, vol. 2, 1990.

Baseando-se no conceito filosófico de empirismo, descreva o significado do emprego da palavra “ciência” nos dois textos. Explique também o diferente emprego do termo “ciência” em cada um dos textos.

 

Resposta:

 No primeiro texto o emprego da palavra ciência esta no sentido de que o conhecimento, ou seja, as teorias científicas não são absolutas, elas são temporais e podem ser desmentidas, ou “falseadas”. Segundo Karl Popper as explicações fornecidas pelas teorias científicas não podem assumir um caráter infalível, com o desenrolar do tempo, formas de conhecimento, isto é, teorias mais gerais e mais amplas substituirão as teorias antigas assim como na teoria darwiniana da evolução das espécies, nas quais espécies mais adaptadas ao meio superar seus antecessores.

No segundo texto o termo ciência é utilizado como um conhecimento integrado no qual não se pode prever ou determinar com exatidão seu sentido, separado do todo. O hermetismo propõe uma síntese do universo que recebe influências da realidade suprassensível, ou seja, a influência do pensamento de Platão, mas destacadamente de Plotino, marca esta concepção de ideal que não pode ser alcançado plenamente, mas que pode ser apenas contemplado. O conhecimento da ciência seria então uma compreensão divinizada da natureza.

 

13. (Unesp 2015) A ciência é uma atividade na sua essência antidogmática. Pelo menos deveria sê-lo. A ciência, em particular a física, parte de uma visão do mundo que é, de acordo com a terminologia utilizada por Arquimedes, um pedido que se faz. É assim porque pedimos para que se admita, à escala a que pretendemos descrever os fenômenos, que o mundo assuma uma determinada forma. Os outros pedidos e postulados têm de se inserir, tão pacificamente quanto possível, nesse pedido fundacional. Mas nunca perderão o estatuto de pedidos. Transformá-los em dogmas é perturbar a ciência com atitudes que lhe deveriam ser totalmente estranhas.

(Rui Moreira. “Uma nova visão da natureza”. Le Monde Diplomatique, março de 2015. Adaptado.)

Baseando-se no texto, explique qual deve ser a relação entre ciência e verdades absolutas. Explique também a diferença entre uma visão de mundo baseada em “pedidos” e uma visão de mundo dogmática.

Resposta:

 A ciência propõe teorias e hipóteses como forma de se produzir conhecimento a partir do exercício da observação da realidade empírica e da experimentação. Tal forma de produção de conhecimento não se situa nas fórmulas prontas e dogmáticas que interpretam o mundo. Arquimedes foi, de fato, um físico e matemático que desconfiava das verdades dogmáticas e absolutas.

A ciência “pede” que se admita que o mundo assuma uma determinada forma, isso significa que o conhecimento científico tem um caráter hipotético e dinâmico, diferente da visão dogmática que impõe uma interpretação inflexível, não baseada em experimentos dos fenômenos. Um pedido na concepção metodológica da ciência soa como uma “suponhamos”, abrindo assim portas para o levantamento de hipóteses capazes de se aproximar do mundo real.

 

14. (Unesp 2015) Numa decisão para lá de polêmica, o juiz federal Eugênio Rosa de Araújo, da 17.ª Vara Federal do Rio, indeferiu pedido do Ministério Público para que fossem retirados da rede vídeos tidos como ofensivos à umbanda e ao candomblé. No despacho, o magistrado afirmou que esses sistemas de crenças “não contêm os traços necessários de uma religião” por não terem um texto-base, uma estrutura hierárquica nem “um Deus a ser venerado”. Para mim, esse é um belo caso de conclusão certa pelas razões erradas. Creio que o juiz agiu bem ao não censurar os filmes, mas meteu os pés pelas mãos ao justificar a decisão. Ao contrário do Ministério Público, não penso que religiões devam ser imunes à crítica. Se algum evangélico julga que o candomblé está associado ao diabo, deve ter a liberdade de dizê-lo. Como não podemos nem sequer estabelecer se Deus e o demônio existem, o mais lógico é que prevaleça a liberdade de dizer qualquer coisa.

SCHWARTSMAN, Hélio. “O candomblé e o tinhoso”. Folha de S. Paulo, 20.05.2014. Adaptado.

O núcleo filosófico da argumentação do autor do texto é de natureza

a) liberal

b) marxista

c) totalitária.

d) teológica.

e) anarquista

 

Resposta:A

O conceito de liberdade possui como princípio o ato de se expressar sem nenhuma espécie de constrangimento, determinação ou direcionamento da ação. Neste sentido, a liberdade de dizer o que se deseja, direito garantido pela constituição, esta presente na linha argumentativa utilizada pelo autor. Caracterizando assim uma argumentação liberal.

A resposta “teológica” pode levar a uma confusão, pois o pano de fundo do debate é a questão religiosa, porém não se esta discutindo este tema na argumentação, mas sim sua natureza.

 

15. (Unesp 2014) Texto 1

A verdade é esta: a cidade onde os que devem mandar são os menos apressados pela busca do poder é a mais bem governada e menos sujeita a revoltas, e aquela onde os chefes revelam disposições contrárias está ela mesma numa situação contrária. Certamente, no Estado bem governado só mandarão os que são verdadeiramente ricos, não de ouro, mas dessa riqueza de que o homem tem necessidade para ser feliz: uma vida virtuosa e sábia.

(Platão. A República, 2000. Adaptado.)

Texto 2

Um príncipe prudente não pode e nem deve manter a palavra dada quando isso lhe é nocivo e quando aquilo que a determinou não mais exista. Fossem os homens todos bons, esse preceito seria mau. Mas, uma vez que são pérfidos e que não a manteriam a teu respeito, também não te vejas obrigado a cumpri-la para com eles. Nunca, aos príncipes, faltaram motivos para dissimular quebra da fé jurada.

(Maquiavel. O Príncipe, 2000. Adaptado.)

Comente as diferenças entre os dois textos no que se refere à necessidade de virtudes pessoais para o governante de um Estado.

Resposta:

 No texto 1 Platão desenvolve a tese de que cidade seria melhor administrada pelo “Filósofo Rei”, nesta teoria desenvolvida no livro “A República” o filósofo é o melhor administrador por ser aquele que possui conhecimento da “verdade” que se identifica com o Bom, o Bem e o Belo que residem no Mundo das Ideias. Ele (Filósofo Rei) seria o único capaz de guiar os habitantes da cidade na busca do melhor desenvolvimento de cada um segundo suas aptidões naturais, ou seja, o bem que reside dentro de cada indivíduo pode ser alcançado e permitir uma vida feliz a todos. A virtude do governante centra-se na busca da concretização do bem a todos os habitantes da cidade. Não sendo o filósofo guiado por interesses particulares, ele se torna o administrador ideal para a cidade. Já no texto 2, Nicolau Maquiavel, em seu livro “O Príncipe”, desenvolve uma tese que rompe com lógica estabelecida entre ética e poder. Seu pressuposto de que os homens são maus, faz com que o príncipe deve buscar manter o poder mediante estratégias que não possuem ligação com o comportamento virtuoso. Elementos como virtú (entendida como impetuosidade, coragem) e fortuna (entendida como ventura, oportunidade), somado a um conhecimento da moralidade dos homens, são recursos que permitem ao governante agir de modo calculado, não objetivando o desenvolvimento de uma bondade natural nos homens como acredita Platão, mas tendo como foco a condução dos homens rumo a uma melhor condição de vida que não siga necessariamente o caminho da virtude enquanto retidão moral.

 

16. (Unesp 2014)

Texto 1

Um dos elementos centrais do pensamento mítico e de sua forma de explicar a realidade é o apelo ao sobrenatural, ao mistério, ao sagrado, à magia. As causas dos fenômenos naturais, aquilo que acontece aos homens, tudo é governado por uma realidade exterior ao mundo humano e natural, a qual só os sacerdotes, os magos, os iniciados são capazes de interpretar. Os sacerdotes, os rituais religiosos, os oráculos servem como intermediários, pontes entre o mundo humano e o mundo divino. Os cultos e os sacrifícios religiosos encontrados nessas sociedades são, assim, formas de se agradecer esses favores ou de se aplacar a ira dos deuses.

(Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001. Adaptado.)

Texto 2

Ao longo da história, a corrente filosófica do Empirismo foi associada às seguintes características: 1. Negação de qualquer conhecimento ou princípio inato, que deva ser necessariamente reconhecido como válido, sem nenhuma confirmação ou verificação. 2. Negação do ‘suprassensível’, entendido como qualquer realidade não passível de verificação e aferição de qualquer tipo. 3. Ênfase na importância da realidade atual ou imediatamente presente aos órgãos de verificação e comprovação, ou seja, no fato: essa ênfase é consequência do recurso à evidência sensível.

(Nicola Abbagnano. Dicionário de filosofia, 2007. Adaptado.)

Com base nos textos apresentados, comente a oposição entre o pensamento mítico e a corrente filosófica do empirismo.

Resposta:

 O texto 1 coloca que a explicação mítica da realidade foi o recurso disponível aos homens daquela época para poder compreender a realidade que os cercava. Neste período a realidade exterior ao mundo natural somente poderia ser conhecida por meio de explicações que tivessem a magia, o sobrenatural como base fundante. Desta forma, somente aqueles que se dedicavam exclusivamente a esta atividade poderiam, ser aqueles capazes de compreender os desígnios dos deuses. Os sacerdotes representavam os intermediários entre os dois mundos (humano e divino). Assim, a autoridade de sua palavra era por si só critério suficiente para estabelecer “verdades” míticas que serviam como forma de explicação para os fenômenos naturais.

No texto 2, diferente da explicação mítica, o empirismo, tendo como principais teóricos: John Locke, Francis Bacon e David Hume, não recorre à autoridade da mesma maneira que os mitos, para explicar os fenômenos. Esta corrente de pensamento rejeita que o conhecimento seja inato, descarta, não considera como válido aquilo que não pode ser aferido, verificado, aquilo que não for evidente. A verdade reside não mais na autoridade de quem fala, mas na evidência, na constatação, naquilo que pode ser captado pelos sentidos. O suprassensível é negado, pois não é passível de investigação, verificação.

 

17. (Unesp 2014) A China é a segunda maior economia do mundo. Quer garantir a hegemonia no seu quintal, como fizeram os Estados Unidos no Caribe depois da guerra civil. As Filipinas temem por um atol de rochas desabitado que disputam com a China. O Japão está de plantão por umas ilhotas de pedra e vento, que a China diz que lhe pertencem. Mesmo o Vietnã desconfia mais da China do que dos Estados Unidos. As autoridades de Hanói gostam de lembrar que o gigante americano invadiu o México uma vez. O gigante chinês invadiu o Vietnã dezessete.

(André Petry. O Século do Pacífico. Veja, 24.04.2013. Adaptado.)

A persistência histórica dos conflitos geopolíticos descritos na reportagem pode ser filosoficamente compreendida pela teoria

a) iluminista, que preconiza a possibilidade de um estado de emancipação racional da humanidade.

b) maquiavélica, que postula o encontro da virtude com a fortuna como princípios básicos da geopolítica.

c) política de Rousseau, para quem a submissão à vontade geral é condição para experiências de liberdade.

d) teológica de Santo Agostinho, que considera que o processo de iluminação divina afasta os homens do pecado.

e) política de Hobbes, que conceitua a competição e a desconfiança como condições básicas da natureza humana.

Resposta:E

Obviamente, é muito difícil compreender a persistência histórica dos conflitos geopolíticos através dessa teoria política hobbesiana, pois a grande obra do filósofo britânico não se resume à definição do estado de natureza do homem, no qual todos estão em guerra contra todos. Além disso, não faz qualquer sentido confundir tal estado de natureza com a nossa realidade, que ao se chamar geopolítica já impede uma relação direta com a suposta condição primária da civilização. Nem nós, nem a Inglaterra de Hobbes representamos o estado de natureza, pois tal premissa é um postulado da especulação filosófica do autor, e não um fato constatado. Ora, nós vivemos em uma sociedade global, e não estamos em vivendo no caos absoluto de um confronto geral de vida ou morte.

Se fôssemos compreender a persistência história dos conflitos geopolíticos através da teoria política hobbesiana, então deveríamos tomar tais constantes disputas como resultado da incapacidade dos homens de instituírem um governo global forte o suficiente que obrigasse os cidadãos a honrarem o pacto social.

 

18. (Unesp 2014) Governos que se metem na vida dos outros são governos autoritários. Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo. Em nossa época existe uma outra tentação totalitária, aparentemente mais invisível e, por isso mesmo, talvez, mais perigosa: o “totalitarismo do bem”. A saúde sempre foi um dos substantivos preferidos das almas e dos governos autoritários. Quem estudar os governos autoritários verá que a “vida cientificamente saudável” sempre foi uma das suas maiores paixões. E, aqui, o advérbio “cientificamente é quase vago porque o que vem primeiro é mesmo o desejo de higienização de toda forma de vício, sujeira, enfim, de humanidade não correta. Nosso maior pecado contemporâneo é não reconhecer que a humanidade do humano está além do modo “correto” de viver. E vamos pagar caro por isso porque um mundo só de gente “saudável” é um mundo sem Eros.

(Luiz Felipe Pondé. “Gosto que cada um sente na boca não é da conta do governo”. Folha de S.Paulo, 14.03.2012. Adaptado.)

Na concepção do autor, o totalitarismo

a) é um sistema político exclusivamente relacionado com o fascismo e o comunismo.

b) inexiste sob a égide de regimes políticos institucionalmente democráticos e liberais.

c) depende necessariamente de controles de natureza policial e repressiva dos comportamentos.

d) mobiliza a ciência para estabelecer critérios de natureza biopolítica sobre a vida.

e) estabelece regras de comportamento subordinadas à autonomia dos indivíduos.

 

Resposta:D

No texto em questão, o autor se refere ao problema da governança confundir ou até atravessar as esferas pública e privada dominando os cidadãos através de discursos que buscam domesticar e higienizar a ação humana através do “científico”, ou da “saúde pública”.

“O Estado-Cientista, forma privilegiada da autoridade soberana dos países industrializados, organiza-se como estrutura total da sociedade. Pretende ser uma síntese entre os três níveis constitutivos das coletividades: o domínio privado, a atividade econômica e a ordem estatal. A dominação política penetra a realidade até constituí-la. Fortalecida por seu aparelho técnico-científico e industrial, ela impõe seu poder, fabricando o tempo e o espaço, construindo a terra e o céu”. (F. Châtelet. História das ideias políticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, p. 332)

Para lembrarmos a principal referência do texto citado na questão,

“Em sua maravilhosa descrição de um futuro maníaco por saúde e felicidade, Huxley diagnostica a grande e insuspeita vítima do novo totalitarismo do bem: a morte da liberdade em nome da felicidade limpinha do mundo. O governo deveria deixar as pessoas sentirem o gosto que quiserem em suas bocas”. (Luiz Felipe Pondé, “Gosto que cada um sente na boca não é da conta do governo”. Folha de S. Paulo, 14.03.2012)

 

19. (Unesp 2014) A condenação à violência pode ser estendida à ação dos militantes em prol dos direitos animais que depredaram os laboratórios do Instituto Royal, em São Roque. A nota emocional é difícil de contornar: 178 cães da raça beagle, usados em testes de medicamentos, foram retirados do local. De um lado, por mais que seja minimizado e controlado, há o sofrimento dos bichos. Do outro lado, está nosso bem maior: nas atuais condições, não há como dispensar testes com animais para o desenvolvimento de drogas e medicamentos que salvarão vidas humanas.

(Direitos animais. Veja, 25.10.2013.)

Sob o ponto de vista filosófico, os valores éticos envolvidos no fato relatado envolvem problemas essencialmente relacionados

a) à legitimidade do domínio da natureza pelo homem.

b) a diferentes concepções de natureza religiosa.

c) a disputas políticas de natureza partidária.

d) à instituição liberal da propriedade privada.

e) aos interesses econômicos da indústria farmacêutica.

Resposta:A

A questão aborda a discussão da questão ética, mais especificamente da Bioética, relacionando dois pontos principais: a busca de alternativas para possibilitar uma melhor condição de vida aos humanos e o uso dos seres e elementos da natureza para a obtenção de um fim proposto. Aristóteles justifica a ética como a prática da virtude na busca do “Bem Maior”. A realização plena do homem, somente acontece na vida da cidade, sendo necessário submeter àquilo que é exterior ao homem, neste caso, a natureza, a um domínio, a um fim para alcançar uma melhor qualidade de vida a todos. Desta maneira, o domínio da natureza tem de enfrentar situações que geram debates sobre sua validade e viabilidade. Porém deve-se considerar que para aqueles que, no caso, militam em favor dos direitos dos animais, somente puderam tomar esta atitude, devido ao seu enquanto seres humanos. Isto só foi possível devido às intervenções realizadas na natureza. Portanto, se considerarmos o argumento exposto anteriormente aliado à capacidade racional do ser humano, que se revela pela ação de pensar sua própria existência e mudar aquilo que consideram essencial para sua realização, encontramos motivos mais que suficientes para justificar o domínio do meio.

 

20. (Unesp 2014) Texto 1

Foi assim que, com Paracelso (1493-1541), nasceu e se impôs a iatroquímica. E os iatroquímicos, em certos casos, chegaram a alcançar grandes êxitos, muito embora as justificações de suas teorias, vistas com os olhos da ciência moderna, apareçam-nos hoje bastante fantasiosas. Assim, por exemplo, com base na ideia de que o ferro é associado ao planeta vermelho Marte e a Marte, deus da guerra coberto de sangue e de ferro, administraram com sucesso sais de ferro a doentes anêmicos – e hoje conhecemos as razões científicas desse sucesso.

(Giovanni Reale e Dário Antiseri. História da filosofia, vol. 2, 1991. Adaptado.)

Texto 2

A ciência busca compreender a realidade de maneira racional, descobrindo relações universais e necessárias entre os fenômenos, o que permite prever acontecimentos e, consequentemente, também agir sobre a natureza. Para tanto, a ciência utiliza métodos rigorosos e atinge um tipo de conhecimento sistemático, preciso e objetivo.

(Maria Lúcia de A. Aranha e Maria Helena P. Martins. Temas de filosofia, 1992.)

Baseando-se na descrição do método científico do texto 2, explique por que as fundamentações da iatroquímica podem ser caracterizadas como fantasiosas.

Resposta:

Diferentemente da ciência Moderna, os iatroquímicos ao desenvolverem suas teses recorreram ao uso de elementos simbólicos para explicar os fenômenos manifestos na natureza. Este recurso se fez mediante a necessidade de facilitar a compreensão daquilo que poderia ser observado. Contudo tais observações não fizeram uso de métodos objetivos que garantissem a verificabilidade de suas teses. O rigor proposto pelo método científico moderno tem como pressuposto a verificação, aferição, comparação. Somente por meio de uma analise sistemática, que possa ser reproduzida e captada pelos sentidos se é possível estabelecer propriedades pertencentes ao mundo natural e aos fenômenos que fazem parte desta realidade. O texto 1 ainda prescinde de elementos míticos e fantasiosos do mundo. Já o texto 2, destaca que quanto maior a precisão do método e sua aplicação maior a possibilidade de estabelecer as relações universais entre os fenômenos.

 

21. (Unesp 2014) Texto 1

Você quer ter boa saúde e vida longa para você e sua família? Anseia viver num mundo onde a dor, o sofrimento e a morte serão coisas do passado? Um mundo assim não é apenas um sonho. Pelo contrário, um novo mundo de justiça logo será realidade, pois esse é o propósito de Deus. Jeová levará a humanidade à perfeição por meio do sacrifício de resgate de Jesus. Os humanos fiéis viverão como Deus queria: para sempre e com saúde perfeita.

(A Sentinela, dezembro de 2013. Adaptado.)

Texto 2

Assim, tenho de contradizê-lo quando prossegue argumentando que os homens são completamente incapazes de passar sem a consolação da ilusão religiosa, que, sem ela, não poderiam suportar as dificuldades da vida e as crueldades da realidade. Sem a religião, terão de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não podem mais ser o centro da criação, o objeto de terno cuidado por parte de uma Providência beneficente. Mas não há dúvida de que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a “vida hostil”. Podemos chamar isso de “educação para a realidade”.

(Sigmund Freud. O futuro de uma ilusão, 1974. Adaptado.)

Comente as diferenças entre os dois textos no tocante à religião.

Resposta:

 O texto 1 aborda a questão da religião transmitindo tranquilidade ao ser humano ao propor um caminho que os conduzirá rumo à satisfação de todas suas necessidades. A condição necessária para isto é a adesão a Deus, ou seja, a fidelidade a Deus garantirá uma vida feliz para aqueles que resolveram ser submissos a Ele.

No texto 2 o psicanalista Sigmund Freud apresenta uma argumentação que o discurso religioso é um discurso que se fundamenta nos sentimentos, desejos e ilusões do ser humano. Para Freud o discurso religioso apela para a infância, à falta de maturidade, falta de autonomia intelectual e afetiva. Neste sentido, as ilusões em relação ao uma melhor condição de vida repousam sobre uma mística no qual a razão é deixada de lado. O texto 1 coloca que a satisfação dos desejos serão plenamente atendidos caso nos submetamos a uma “providência” maior, onde poderemos ter saúde, justiça e uma vida digna sem termos de nos responsabilizar pelas escolhas que fizermos. Já no texto 2, Freud propõe que o desenvolvimento da maturidade deve ser fruto de uma “educação para a realidade”, ou seja, uma educação que coloque o homem de posse de si, sendo racional para a compreensão de sua condições e que seja integralmente responsável pela satisfação dos seus desejos e aspirações, assumindo as consequências de suas decisões.

 

22. (Unesp 2014) “Religião sempre foi um negócio lucrativo.” Assim começa uma reportagem da revista americana Forbes sobre os milionários bispos fundadores das maiores igrejas evangélicas do Brasil. A revista fez um ranking com os líderes mais ricos. No topo da lista, está o bispo Edir Macedo, que tem uma fortuna estimada em R$ 2 bilhões, segundo a revista. Em seguida, vem Valdemiro Santiago, com R$ 400 milhões; Silas Malafaia, com R$ 300 milhões; R. R. Soares, com R$ 250 milhões, e Estevan Hernandes Filho e a bispa Sônia, com R$ 120 milhões juntos. A Forbes também destaca o crescimento dos evangélicos no Brasil – de 15,4% para 22,2% da população na última década –, em detrimento dos católicos. Hoje, os católicos romanos somam 64,6% da população, ou 123 milhões de brasileiros. Os evangélicos, por sua vez, já somam 42 milhões, em uma população total de 191 milhões de pessoas.

(Forbes lista os seis líderes milionários evangélicos no Brasil.uol.com.br, 19.01.2013. Adaptado.)

Os fatos descritos na reportagem são compatíveis filosoficamente com uma concepção

a) teológico-protestante, baseada na valorização do sacrifício pessoal e da prosperidade material.

b) kantiana, que preconiza a possibilidade de se atingir a maioridade intelectual.

c) cartesiana, que pressupõe a existência de Deus como condição essencial para o conhecimento racional.

d) dialético-materialista, baseada na necessidade de superação do trabalho alienado.

e) teológico-católica, defensora da caridade e idealizadora de virtudes associadas à pobreza.

 

Resposta:A

É tão estranha a classificação de uma teologia-protestante como filosofia que qualquer professor decente se perguntará após ler essa questão qual o significado do advérbio “filosoficamente” utilizado na escrita do texto. Como poderia haver compatibilidade filosófica entre duas coisas que não são de modo algum filosofias? Enfim, afirmemos que considerando os fatos descritos na reportagem nos parece que eles não sejam compatíveis com nenhuma concepção da tradição filosófica; todavia, que eles sejam vagamente compatíveis com o calvinismo citado em “concepção teológico-protestante, baseada na valorização do sacrifício pessoal e da prosperidade material”.

 

23. (Unesp 2013) Do lado oposto da caverna, Platão situa uma fogueira – fonte da luz de onde se projetam as sombras – e alguns homens que carregam objetos por cima de um muro, como num teatro de fantoches, e são desses objetos as sombras que se projetam no fundo da caverna e as vozes desses homens que os prisioneiros atribuem às sombras. Temos um efeito como num cinema em que olhamos para a tela e não prestamos atenção ao projetor nem às caixas de som, mas percebemos o som como proveniente das figuras na tela.

(Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001.)

Explique o significado filosófico da Alegoria da Caverna de Platão, comentando sua importância para a distinção entre aparência e essência.

Resposta:

 A Alegoria da Caverna quer dizer, utilizando uma imagem fictícia, como era a realidade da cidade de Atenas ou de todas as cidades. Tal realidade é que os homens vivem suas vidas encantados com imagens, ou seja, eles vivem suas vidas encantados com aquilo que mantém apenas a aparência da realidade. Não apenas o homem está nessa situação de enfeitiçado, porém ele também está preso impedido de chacoalhar para fora dessa situação. O filósofo é quem consegue se livrar do feitiço e depois quebrar os grilhões que o impedem de sair desse estado. É fundamental, segundo a alegoria, realizar esse movimento para fora da caverna para conceber que a aparência explicitada pelas imagens não revela muito sobre a verdade descoberta sob a luz existente fora da caverna. A aparência é apenas um simulacro produzido na caverna, a essência é uma descoberta feita livre do confinamento neste antro que os homens vivem, chamado “cidade”.

 

24. (Unesp 2013) Texto 1

Para santo Tomás de Aquino, o poder político, por ser uma instituição divina, além dos fins temporais que justificam a ação política, visa outros fins superiores, de natureza espiritual. O Estado deve dar condições para a realização eterna e sobrenatural do homem. Ao discutir a relação Estado-Igreja, admite a supremacia desta sobre aquele. Considera a Monarquia a melhor forma de governo, por ser o governo de um só, escolhido pela sua virtude, desde que seja bloqueado o caminho da tirania.

Texto 2

Maquiavel rejeita a política normativa dos gregos, a qual, ao explicar “como o homem deve agir”, cria sistemas utópicos. A nova política, ao contrário, deve procurar a verdade efetiva, ou seja, “como o homem age de fato”. O método de Maquiavel estipula a observação dos fatos, o que denota uma tendência comum aos pensadores do Renascimento, preocupados em superar, através da experiência, os esquemas meramente dedutivos da Idade Média. Seus estudos levam à constatação de que os homens sempre agiram pelas formas da corrupção e da violência.

(Maria Lúcia Aranha e Maria Helena Martins. Filosofando, 1986. Adaptado.)

Explique as diferentes concepções de política expressadas nos dois textos.

Resposta:

 A primeira concepção é por princípio uma concepção política teológica. O poder político é instituído por Deus e a finalidade da ação política é a salvação. O Estado, por conseguinte, deve se conformar de tal maneira que permita, ou melhor, condicione o homem a viver em função do fim maior, em função da eternidade representada na salvação. São Tomás é evidentemente um católico, considerando a primazia de sua religião sobre quaisquer necessidades mundanas, organizando o poder político e a ação do cidadão de tal maneira que reflita apropriadamente os dogmas da Igreja.

A segunda concepção é por princípio uma concepção política moderna, ou pré-moderna. A primeira superação perpetrada por Maquiavel é a superação do discurso antigo a respeito da necessidade do homem manter um hábito guiado pelas virtudes cardiais: sabedoria, coragem, temperança e magnanimidade. Não que o homem não deva possuir tais características, todavia elas não devem de modo algum impedi-lo de realizar uma ação cruel se assim se demonstrar útil para que ele efetive o seu poder. A segunda superação perpetrada por Maquiavel é a superação do discurso escolástico que predispunha o começo, meio e fim das coisas a partir da certeza da palavra revelada. O mundo da experiência é guiado pela fortuna e não se faz sentido impedir que certas ações se realizem, pois circunstancialmente elas podem ser as melhores.

 

25. (Unesp 2013) Preguiça e covardia são as causas que explicam por que uma grande parte dos seres humanos, mesmo muito após a natureza tê-los declarado livres da orientação alheia, ainda permanecem, com gosto, e por toda a vida, na condição de menoridade. É tão confortável ser menor! Tenho à disposição um livro que entende por mim, um pastor que tem consciência por mim, um médico que prescreve uma dieta etc.: então não preciso me esforçar. A maioria da humanidade vê como muito perigoso, além de bastante difícil, o passo a ser dado rumo à maioridade, uma vez que tutores já tomaram para si de bom grado a sua supervisão. Após terem previamente embrutecido e cuidadosamente protegido seu gado, para que estas pacatas criaturas não ousem dar qualquer passo fora dos trilhos nos quais devem andar, os tutores lhes mostram o perigo que as ameaça caso queiram andar por conta própria. Tal perigo, porém, não é assim tão grande, pois, após algumas quedas, aprenderiam finalmente a andar; basta, entretanto, o perigo de um tombo para intimidá-las e aterrorizá-las por completo para que não façam novas tentativas.

(Immanuel Kant, apud Danilo Marcondes. Textos básicos de ética – de Platão a Foucault, 2009. Adaptado.)

O texto refere-se à resposta dada pelo filósofo Kant à pergunta sobre “O que é o Iluminismo?”. Explique o significado da oposição por ele estabelecida entre “menoridade” e “autonomia intelectual”.

Resposta:

 A oposição entre menoridade e maioridade (ou autonomia) é o recurso alegórico utilizado para falar sobre o estado do homem e o movimento Iluminista que buscava retirar o homem deste estado. O homem, diz Kant, está acomodado. Preguiçoso e covarde, o homem continua, mesmo depois de adquirir plenas capacidades de ser autônomo (de se dar a própria lei), servo da consciência de outros, das prescrições de terceiros. Além da sua própria preguiça e covardia, o ato mesmo de se tornar maior é visto como perigoso, o que faria a libertação da tutoria uma escolha ainda menos provável. Enfim, passar da menoridade para a maioridade é um ato de libertação do homem das relações de tutela que direcionam opressivamente o seu comportamento.

Estas aulas do professor Franklin comentam com primor a ideia de autonomia presente no texto sobre o Iluminismo de Kant:

 

26. (Unesp 2013) Uma obra de arte pode denominar-se revolucionária se, em virtude da transformação estética, representar, no destino exemplar dos indivíduos, a predominante ausência de liberdade, rompendo assim com a realidade social mistificada e petrificada e abrindo os horizontes da libertação. Esta tese implica que a literatura não é revolucionária por ser escrita para a classe trabalhadora ou para a “revolução”. O potencial político da arte baseia-se apenas na sua própria dimensão estética. A sua relação com a práxis (ação política) é inexoravelmente indireta e frustrante. Quanto mais imediatamente política for a obra de arte, mais reduzidos são seus objetivos de transcendência e mudança. Nesse sentido, pode haver mais potencial subversivo na poesia de Baudelaire e Rimbaud que nas peças didáticas de Brecht.

 (Herbert Marcuse. A dimensão estética, s/d.)

Segundo o filósofo, a dimensão estética da obra de arte caracteriza-se por

a) apresentar conteúdos ideológicos de caráter conservador da ordem burguesa.

b) comprometer-se com as necessidades de entretenimento dos consumidores culturais.

c) estabelecer uma relação de independência frente à conjuntura política imediata.

d) subordinar-se aos imperativos políticos e materiais de transformação da sociedade.

e) contemplar as aspirações políticas das populações economicamente excluídas.

 

Resposta:C

A tese de Marcuse revela algo que libera a obra de arte de um engajamento literal do seu sentido estético, quer dizer, a proposição do filósofo expõe que a intenção da obra não é engajada politicamente apenas se ela estiver vinculada propositalmente a uma classe oprimida da sociedade, mas sim sempre que ela revelar, segundo uma exemplaridade que extrapola o contemporâneo, a evidência um futuro decadente. A arte é muito mais subversiva quando está próxima da libertação e quando favorece a liberdade do artista e do homem.

 

27. (Unesp 2013) Por que as pessoas fazem o bem? A bondade está programada no nosso cérebro ou se desenvolve com a experiência? O psicólogo Dacher Keltner, diretor do Laboratório de Interações Sociais da Universidade da Califórnia, em Berkeley, investiga essas questões por vários ângulos e apresenta resultados surpreendentes.

Keltner – O nervo vago é um feixe neural que se origina no topo da espinha dorsal. Quando ativo, produz uma sensação de expansão confortável no tórax, como quando estamos emocionados com a bondade de alguém ou ouvimos uma bela música. Pessoas com alta ativação dessa região cerebral são mais propensas a desenvolver compaixão, gratidão, amor e felicidade.

Mente & Cérebro – O que esse tipo de ciência o faz pensar?

Keltner – Ela me traz esperanças para o futuro. Que nossa cultura se torne menos materialista e privilegie satisfações sociais como diversão, toque, felicidade que, do ponto de vista evolucionário, são as fontes mais antigas de prazer. Vejo essa nova ciência em quase todas as áreas da vida. Ensina-se meditação em prisões e em centros de detenção de menores. Executivos aprendem que inteligência emocional e bom relacionamento podem fazer uma empresa prosperar mais do que se ela for focada apenas em lucros.

(www.mentecerebro.com.br. Adaptado.)

De acordo com a abordagem do cientista entrevistado, as virtudes morais e sentimentos agradáveis

a) dependem de uma integração holística com o universo.

b) dependem de processos emocionais inconscientes.

c) são adquiridos por meio de uma educação religiosa.

d) são qualidades inatas passíveis de estímulo social.

e) estão associados a uma educação filosófica racionalista.

 

Resposta:

 [D]

A questão é problemática, pois o que nos é inato é a capacidade de reagir bem perante situações de certo tipo. No caso, o nervo vago ao ser ativado produz uma sensação agradável quando nos emocionamos diante de algum evento estético, isto é, diante de algum evento sensível. Não se pode confundir a condição de possibilidade (por exemplo, a existência do nervo vago e sua capacidade de realizar certa função), com a própria qualidade moral e os sentimentos bons; quer dizer, a materialização dessa função em algo bom necessita, como diz a resposta do cientista à segunda pergunta, de um estímulo específico contínuo. É, por isso, que deveríamos privilegiar “satisfações sociais como diversão, toque…”. Portanto, as qualidades e os sentimentos são construídos justamente através do incentivo social, ou seja, não são inatas. O homem seria, pela perspectiva exposta na questão, programado pela evolução para poder ser bom, e não para ser a priori bom; o homem é programado para a possibilidade. Poderíamos dizer que o homem é programado com livre-arbítrio.

 

28. (Unesp 2013)

O hormônio testosterona está ligado ao egoísmo, segundo uma pesquisa inglesa. Em testes feitos por cientistas da University College London, na Grã-Bretanha, mulheres que tomaram doses do hormônio masculino mostraram comportamento egocêntrico quando tinham de lidar com problemas em pares. Quando os pesquisadores ministraram placebo às voluntárias antes dos testes, elas cooperaram entre si. O estudo ajuda a explicar como os hormônios moldam o comportamento humano.

(Testosterona pode induzir comportamento egoísta. Veja, 01.02.2012.)

O pressuposto fundamental assumido pela pesquisa citada para explicar o comportamento humano pode ser identificado com

a) as diferenças sociais de gênero.

b) o determinismo biológico.

c) os fatores de natureza histórica.

d) os determinismos materiais da sociedade.

e) a autonomia ética do indivíduo.

 

Resposta: B

O determinismo biológico mencionado quer dizer algo bastante simples, a saber: fatores orgânicos presentes no ser humano ou devido seu nascimento (genéticos), ou devido alguma composição química do seu organismo (hormonais) alteram necessariamente o seu comportamento em geral. A pesquisa citada expressa exatamente isso, ela expressa exatamente que a alteração hormonal em mulheres (tomar testosterona) determina seu comportamento de tal maneira que ela passa a agir menos cooperativamente.

 

29. (Unesp 2013) Texto 1

Sobre o estupro coletivo de uma estudante de 23 anos em Nova Déli, o advogado que defende os suspeitos declarou: “Até o momento eu não vi um único exemplo de estupro de uma mulher respeitável”. Sobre esta declaração, o advogado garantiu que não tentou difamar a vítima. “Eu só disse que as mulheres são respeitadas na Índia, sejam mães, irmãs, amigas, mas diga-me que país respeita uma prostituta?!”

(Advogado de acusados de estupro na Índia denuncia confissão forçada.

http://noticias.uol.com.br. Adaptado.)

Texto 2

Na Índia, a violência contra as mulheres tomou uma nova e mais perversa forma, a partir do cruzamento de duas linhas: as estruturas patriarcais tradicionais e as estruturas capitalistas emergentes. Precisamos pensar nas relações entre a violência do sistema econômico e a violência contra as mulheres.

(Vandana Shiva, filósofa indiana. No continuum da violência. O Estado de S.Paulo, 12.01.2013. Adaptado.)

Os textos referem-se ao fato ocorrido na Índia em dezembro de 2012. Pela leitura atenta dos textos, podemos afirmar que:

a) segundo a filósofa, fatos como esse explicam-se pela confluência de fatores históricos e econômicos de exclusão social.

b) para a filósofa, a violência contra as mulheres na Índia deve- se exclusivamente ao neoliberalismo econômico.

c) as duas interpretações sugerem que a prevenção de tais atos violentos depende do resgate de valores religiosos.

d) sob a ótica do advogado, esse fato ocorreu em virtude do desrespeito aos direitos humanos.

e) as duas interpretações limitam-se a reproduzir preconceitos de gênero socialmente hegemônicos naquele país.

 

Resposta:A

A questão trabalha um problema complicado, a saber, o preconceito. O preconceito do argumento moralista do advogado, citado no Texto 1, que ilustra o preconceito sistemático desenvolvido a partir de uma estrutura, apontado pela filósofa no Texto 2. O advogado busca amenizar um ato abominável através de uma opinião completamente preconceituosa sobre as mulheres, o comportamento delas, e sobre as prostitutas; uma opinião originada na estrutura patriarcal da sociedade indiana que busca dominar a liberdade das mulheres subjugando-a.

Sobre o preconceito em geral segue este texto:

“Segundo Heller (1989), o preconceito é categoria do pensamento e do comportamento cotidiano. Contudo, a autora afirma que não é por fazer parte da vida cotidiana que os preconceitos devem ser naturalizados e aceitos. Em suas palavras, “quem não se liberta de seus preconceitos artísticos, científicos e políticos acaba fracassando, inclusive pessoalmente” (Agnes Heller).

Entretanto, problematizar as situações que envolvem preconceitos, desmistificar suas origens não é tarefa fácil, justamente porque as pessoas imersas na vida cotidiana precisam de certa praticidade, de “pragmatismo” para que a vida flua. Para tanto, uma das características da vida cotidiana é a ultrageneralização. Segundo Heller, chegamos à ultrageneralização de nosso pensamento e comportamento cotidiano de duas maneiras: “por um lado, assumimos estereótipos, analogias e esquemas já elaborados; por outro, eles nos são ‘impingidos’ pelo meio em que crescemos”. Devido a essas condições, muitas pessoas demoram a adotar uma “atitude crítica” em relação aos esquemas recebidos, e outras nunca chegam a fazê-lo. Pode-se dizer, então, que as ultrageneralizações são “juízos provisórios” ou “regra provisória de comportamento”, que nos permitem transitar pelas várias atividades que temos que realizar, parafraseando Heller: “provisória porque se antecipa à atividade possível e, nem sempre, muito pelo contrário, encontra confirmação no infinito processo da prática”. Mas, quando esses juízos provisórios são refutados pela ciência e por uma experiência cuidadosamente analisada e, mesmo assim, conservam-se inabalados contra todos os argumentos da razão, estamos diante de um preconceito.

(Heller”. (A. F. M. Cordeiro & J. F. Buendgens – Preconceitos na escola: sentidos e significados atribuídos pelos adolescentes no ensino médio. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, Sp. Volume 16, Número 1, Janeiro/Junho de 2012)

 

 

30. (Unesp 2013)

Em um documento rubricado pela Rede Global de Academias de Ciência (IAP), um grupo de pensadores da comunidade científica com sede em Trieste (Itália) que engloba 105 academias de todo o mundo alerta pela primeira vez sobre os riscos do consumo nos países do Primeiro Mundo e a falta de controle demográfico, principalmente nas nações em desenvolvimento. Na declaração da comunidade científica se indica que as pautas de consumo exacerbado do Primeiro Mundo estão se deslocando perigosamente para os países em desenvolvimento: os milhões de telefones celulares e toneladas de “junk food” que invadem os lares pobres são claros indicadores dessa problemática. A ausência nos países pobres de políticas de planejamento familiar ou de prevenção de gravidezes precoces acaba de configurar um sombrio cenário de superpopulação. “Trata-se de dois problemas convergentes que pela primeira vez analisamos de forma conjunta”, afirma García Novo.

(Francho Barón. El País, 16.06.2012. Adaptado.)

Um dos problemas relatados no texto está relacionado com

a) a supremacia de tendências estatais de controle sobre a economia liberal.

b) o aumento do nível de pobreza nos países subdesenvolvidos.

c) a hegemonia do planejamento familiar nos países do Terceiro Mundo.

d) o declínio dos valores morais e religiosos na era contemporânea.

e) o irracionalismo das relações de consumo no mundo atual.

 

Resposta:E

É evidente que um dos problemas relatados no texto citado refere-se ao consumo desgovernado. Não apenas o consumo dos cidadãos é impulsivo nos países desenvolvidos, porém nos países em crescimento também a irracionalidade é presente no momento da compra e da utilização dos produtos industriais. A liberdade do cidadão para consumir e satisfazer suas vontades de modo desmoderado faz-se a partir do momento que o desenvolvimento dos países pobres garante a certa classe uma quantidade monetária suficiente para participar do mercado e comprar mercadorias e serviços. A ausência de programas educacionais coesos e coerentes nesses países em desenvolvimento acaba criando problemas, dois deles mencionados no texto, a saber: 1) o consumo sem planejamento baseado unicamente na satisfação de desejos supérfluos; e 2) uma economia familiar organizada de acordo com essa satisfação dos desejos supérfluos.

 

31. (Unesp 2013) A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito refletido faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos.

(Christopher Lasch. O mínimo eu, 1987. Adaptado.)

Sob o ponto de vista ético e filosófico, na sociedade de consumo, o indivíduo

a) estabelece com os produtos ligações que são definidas pela separação entre razão e emoção.

b) representa a realidade mediante processos mentais essencialmente objetivos e conscientes.

c) relaciona-se com as mercadorias considerando prioritariamente os seus aspectos utilitários.

d) relaciona-se com objetos que refletem ilusoriamente seus processos emocionais inconscientes.

e) comporta-se de maneira autônoma frente aos mecanismos publicitários de persuasão.

 

Resposta:D

A centralidade da mercadoria na nossa sociedade faz com que os processos de construção da subjetividade individual sejam enviesados. O valor da mercadoria, sendo a marca e não a utilidade do produto, implica o esfacelamento material da relação entre o indivíduo e a coisa e torna a formação da subjetividade algo dependente da fantasia representada pelo objeto de consumo. Assim, “o consumidor vive rodeado… por fantasias… que [parecem] existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos”.

 

32. (Unesp 2013) Texto 1

O ser humano é a flor do céu que desabrochou na Terra. Sua semente foi plantada por Deus, sua bela imagem foi projetada por Deus e seu perfume agradável foi também presenteado por Deus. Não devemos perder essa bela imagem nem o agradável perfume. Nosso belo desabrochar é a manifestação da glória de Deus.

(Seicho-no-ie do Brasil. Palavras de luz, 2013.)

Texto 2

Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza, congelou-se o astro e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido.

(Friedrich Nietzsche. Sobre verdade e mentira no sentido extramoral. Adaptado.)

Os textos citados apresentam concepções filosóficas distintas sobre o lugar do ser humano no universo. Discorra brevemente sobre essas diferenças, considerando o teor antropocêntrico dos textos.

Resposta:

 A principal distinção entre as concepções (uma religiosa e a outra filosófica) é a antropologia que cada uma propõe. A primeira oferece uma noção de homem gloriosa: “nosso belo desabrochar é a manifestação da glória de Deus”; a segunda oferece uma noção de homem niilista: “houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido”. A primeira é totalmente antropocêntrica, já a segunda nega tal centralidade. A primeira é problemática, pois exalta o homem com uma euforia viciante e possibilita em contrapartida um egoísmo nocivo capaz de ofuscar questões importantes. A segunda é problemática, pois nega totalmente um sentido para a existência e priva o sujeito de motivação. Todavia, ambas abrem possibilidades; a primeira oferece a construção de uma vida em harmonia com a glória de Deus, e a segunda oferece a possibilidade de fortalecimento do homem enquanto quem constrói conscientemente o mundo a partir da sua liberdade inexplicável natural.

 

33. (Unesp 2013) Ninguém pode deixar de reconhecer a influência da teoria do bom selvagem na consciência contemporânea. Ela é vista no presente respeito por tudo o que é natural (alimentos naturais, remédios naturais, parto natural) e na desconfiança diante do que é feito pelo homem, no desuso dos estilos autoritários de criação de filhos e na concepção dos problemas sociais como defeitos reparáveis em nossas instituições, e não como tragédias inerentes à condição humana.

(Steven Pinker. Tábula rasa – a negação contemporânea da natureza humana, 2004. Adaptado.)

Explique a origem e o conteúdo da “teoria do bom selvagem” na história da Filosofia e comente sua implicação na análise dos problemas sociais.

Resposta:

 Filosoficamente, a “teoria do bom selvagem” não existe. O que existe é a teoria do estado natural que Locke, Rousseau e outros filósofos engendraram. Nessas teorias o homem é considerado ser, diferentemente de Hobbes, simplesmente animal, ou melhor, é considerado estar definido apenas por seu instinto animal. Desse modo, definido apenas pelo seu instinto animal, o homem não é nem bom, nem mau, ou seja, ele não possui nenhum conjunto de valores que serviriam de referência para um julgamento moral do seu caráter. É posteriormente quando o homem deixa de ser selvagem e passa a ser sociável que os valores transformam o juízo, permitindo a afirmação da bondade e da maldade. Então, de certa maneira a ideia mesma de “bom selvagem” pode ser vista como contraditória. Porém, o romantismo se apropriou dessa imagem do selvagem para falar de um homem livre das características deploráveis do homem civilizado, como a ganância, a inveja, a desonestidade, etc.

 

34. (Unesp 2013)

 Desde o início da semana, alunos da rede municipal de Vitória da Conquista, na Bahia, não vão mais poder cabular aulas. Um “uniforme inteligente” vai contar aos pais se os alunos chegaram à escola – ou “dedurar” se eles não passaram do portão. O sistema, baseado em rádio-frequência, funciona por meio de um minichip instalado na camiseta do novo uniforme, que começou a ser distribuído para 20 mil estudantes na segunda-feira. Funciona assim: no momento em que os alunos entram na escola, um sensor instalado na portaria detecta o chip e envia um SMS aos pais avisando sobre a entrada na instituição.

(Natália Cancian. Uniforme inteligente entrega aluno que cabula aula na Bahia. Folha de S.Paulo, 22.03.2012.)

A leitura do fato relatado na reportagem permite repercussões filosóficas relacionadas à esfera da ética, pois o “uniforme inteligente”

a) está inserido em um processo de resistência ao poder disciplinar na escola.

b) é fruto de uma ação do Estado para incrementar o grau de liberdade nas escolas.

c) indica a consolidação de mecanismos de consulta democrática na escola pública.

d) introduz novas formas institucionais de controle sobre a liberdade individual.

e) proporciona uma indiscutível contribuição científica para a autonomia individual.

 

Resposta:D

Especificamente, a questão se refere mais a uma questão Política, pois a Ética tem a ver com uma reflexão teórica sobre a maneira segundo a qual um homem estabelece os seus hábitos. Sendo a liberdade um dado constitucional presente no texto fundador da sociedade democrática, o problema de restringir a ação de um cidadão livre através de um controle do Estado, isto é, através do uso de poder, passa a ser um problema especialmente político. Isso quer dizer que a questão deve primordialmente se referir aos princípios e modos de organização da cidade e não a uma especulação sobre o dever ser. Resumindo, a questão é: o Estado pode controlar desta maneira a ação de um cidadão livre? O Estado possui esse poder, se o cidadão não comete nenhuma ação criminosa?

 

35. (Unesp 2013)

A modernidade não pertence a cultura nenhuma, mas surge sempre CONTRA uma cultura particular, como uma fenda, uma fissura no tecido desta. Assim, na Europa, a modernidade não surge como um desenvolvimento da cultura cristã, mas como uma crítica a esta, feita por indivíduos como Copérnico, Montaigne, Bruno, Descartes, indivíduos que, na medida em que a criticavam, já dela se separavam, já dela se desenraizavam. A crítica faz parte da razão que, não pertencendo a cultura particular nenhuma, está em princípio disponível a todos os seres humanos e culturas. Entendida desse modo, a modernidade não consiste numa etapa da história da Europa ou do mundo, mas numa postura crítica ante a cultura, postura que é capaz de surgir em diferentes momentos e regiões do mundo, como na Atenas de Péricles, na Índia do imperador Ashoka ou no Brasil de hoje.

(Antonio Cícero. Resenha sobre o livro “O Roubo da História”. Folha de S.Paulo, 01.11.2008. Adaptado.)

Com a leitura do texto, a modernidade pode ser entendida como

a) uma tendência filosófica especificamente europeia e ocidental de crítica cultural e religiosa.

b) uma tendência oposta a diversas formas de desenvolvimento da autonomia individual.

c) um conjunto de princípios morais absolutos, dotados de fundamentação teológica e cristã.

d) um movimento amplo de propagação da crítica racional a diversas formas de preconceito.

e) um movimento filosófico desconectado dos princípios racionais do iluminismo europeu.

 

Resposta:D

De acordo com o texto, a modernidade pode ser entendida como um movimento crítico de oposição a certa cultura. Não é exatamente um movimento amplo de propagação de crítica racional a diversas formas de preconceito, pois o autor não determina que tipo de crítica a modernidade defende e nem contra o quê a modernidade se põe. A modernidade é caracterizada simplesmente como uma posição contrária ao estado de coisas que permite uma abertura através da qual se supera uma tradição. Afinal, o autor está dizendo que a modernidade não é limitada à história da Europa, então é um tanto complicado tentar entender a modernidade a partir de uma definição baseada no movimento Iluminista (séc. XVIII). A modernidade é entendida através de uma análise histórica pela qual se observa os movimentos de crítica às realidades reificadas e o desmanche daquelas coisas supostamente consolidadas.

 

36. (Unesp 2013)

Encontrar explicações convincentes para a origem e a evolução da vida sempre foi uma obsessão para os cientistas. A competição constante, embora muitas vezes silenciosa, entre os indivíduos, teria preservado as melhores linhagens, afirmava Charles Darwin. Assim, um ser vivo com uma mutação favorável para a sobrevivência da espécie teria mais chances de sobreviver e espalhar essa característica para as futuras gerações. Ao fim, sobreviveriam os mais fortes, como interpretou o filósofo Herbert Spencer. Um século e meio depois, um biólogo americano agita a comunidade científica internacional ao ousar complementar a teoria da seleção darwinista. Segundo Edward Wilson, da Universidade de Harvard, o processo evolutivo é mais bem-sucedido em sociedades nas quais os indivíduos colaboram uns com os outros para um objetivo comum. Assim, grupos de pessoas, empresas e até países que agem pensando em benefício dos outros e de forma coletiva alcançam mais sucesso, segundo o americano.

(Rachel Costa. O poder da generosidade. IstoÉ, 11.05.2012. Adaptado.)

Embora divergentes no que se refere aos fatores que explicam a evolução da espécie humana, ambas as teorias, de Darwin e de Wilson, apresentam como ponto comum a concepção de que

a) influências religiosas e metafísicas são o principal veículo no processo evolutivo humano ao longo do tempo.

b) são os condicionamentos psicológicos que influenciam de maneira decisiva o progresso na história.

c) a sobrevivência da espécie humana ao longo da história é explicada pela primazia de fatores de natureza evolutiva.

d) os fatores econômicos e materiais são os principais responsáveis pelas transformações históricas.

e) os fatores intelectuais são os principais responsáveis pelo sucesso dos homens em dominar a natureza.

Resposta:C

Como diz o texto, a diferença entre a teoria evolutiva de Darwin e de Wilson está no caráter competitivo ou cooperativo dos indivíduos da espécie. Para um, em um ambiente de competição silenciosa, para assegurar a manutenção das suas características em detrimento das outras de outros indivíduos, evoluirá mais rapidamente aquele individualmente melhor adaptado às regras do jogo. Para outro, em um ambiente de cooperação, para garantir que todos os indivíduos atinjam um objetivo que lhes é comum, evoluirá mais rapidamente aquele que colabore para favorecer o coletivo, isto é, o alcance da meta que é comum.

 

37. (Unesp 2013)

O marketing religioso objetiva identificar as necessidades de espírito e de conhecimento dos adeptos de uma determinada religião, oferecendo uma linha de produtos e serviços específicos para determinado segmento religioso e linguagem inerente ao tipo de pregação veiculada. A pessoa que se sente vazia num mundo capitalista e individualista busca refúgio através de uma religião. Identificar o público que mais frequenta o templo e o bairro onde o mesmo está situado, o nível de escolaridade, renda, hábitos, demais dados dos perfis demográficos e psicográficos são considerados num planejamento de marketing de uma linha de produtos religiosos.

(Fernando Rebouças. Marketing religioso. http://www.infoescola.com, 04.01.2010. Adaptado.)

O fenômeno descrito pode ser explicado por tendências de

a) instrumentalização e mercantilização da fé religiosa.

b) crítica religiosa à massificação de produtos de consumo.

c) recuperação das práticas religiosas tradicionais.

d) indiferença das igrejas e religiões frente às demandas de mercado.

e) rejeição de ferramentas administrativas no âmbito religioso.

Resposta:A

O fenômeno descrito como a diminuição da importância da religião em si mesma. No caso, a religião é um recurso utilizável de acordo com as necessidades do sujeito vazio e perdido num mundo capitalista e individualista. Paradoxalmente, a religião é tanto parte do mundo capitalista quanto não é para essas pessoas que fazem uso da religião, quer dizer, a religião é um refúgio do capitalismo cujo funcionamento é exatamente igual ao do próprio capitalismo. O que faz nós entendermos a falta de importância da religião em si mesma, e a relevância da produção de certos relacionamentos e crenças para a constituição do sujeito. Não interessa o fato de a religião ser organizada de maneira capitalista, o que interessa para os consumidores de religião é o relacionamento estabelecido dentro da comunidade religiosa e as crenças que são assumidas em comum – mesmo que isso tudo seja alienante, mesmo que isso tudo seja falso.

 

38. (Unesp 2012) A ciência moderna tem maior poder explicativo, permite previsões mais seguras e assegura tecnologias e aplicações mais eficazes. Não há dúvida de que a explicação científica sobre a natureza da chuva comporta usos que a explicação indígena não comporta, como facilitar prognósticos meteorológicos ou a instalação de sistemas de irrigação. Para a ciência moderna, a Lua é um satélite que descreve uma órbita elíptica em torno da Terra, cuja distância mínima do nosso planeta é cerca de 360 mil quilômetros, e que tem raio de 1 736 quilômetros. Para os gregos, era Selene, filha de Hyprion, irmã de Hélios, amante de Endymion e Pan, e percorria o céu numa carruagem de prata. Tenho mais simpatia pela explicação dos gregos, mas devo reconhecer que a teoria moderna permite prever os eclipses da Lua e até desembarcar na Lua, façanha dificilmente concebível para uma cultura que continuasse aceitando a explicação mitológica. Os astronautas da NASA encontraram na superfície do nosso satélite as montanhas observadas por Galileu, mas não encontraram nem Selene nem sua carruagem de prata. Para o bem ou para o mal as teorias científicas modernas são válidas, o que não ocorre com as teorias alternativas.

(Sérgio Paulo Rouanet, filósofo brasileiro, 1993. Adaptado.)

Cite o nome dos dois diferentes tipos de conhecimento comentados no texto e explique duas diferenças entre eles.

Resposta:

 Os dois tipos de conhecimento contrastados no texto são o conhecimento científico e o conhecimento mitológico. O primeiro é caracterizado pelo rigor metodológico e pela sua racionalidade. Ou seja, é produzido mediante um método de experimentação racional que permite ao cientista criar leis gerais que podem servir de base para o desenvolvimento científico. O segundo conhecimento é fantasioso e pouco rigoroso: sua força está na narrativa que produz, na forma como é capaz de explicar todos os fenômenos e na sua relação com a simbologia religiosa.

 

39. (Unesp 2012) Aedo e adivinho têm em comum um mesmo dom de “vidência”, privilégio que tiveram de pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles veem o invisível. O deus que os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as realidades que escapam ao olhar humano. Sua visão particular age sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas mortais: o que aconteceu outrora, o que ainda não é.

 (Jean-Pierre Vernant. Mito e pensamento entre os gregos, 1990. Adaptado.)

O texto refere-se à cultura grega antiga e menciona, entre outros aspectos,

a) o papel exercido pelos poetas, responsáveis pela transmissão oral das tradições, dos mitos e da memória.

b) a prática da feitiçaria, estimulada especialmente nos períodos de seca ou de infertilidade da terra.

c) o caráter monoteísta da sociedade, que impedia a difusão dos cultos aos deuses da tradição clássica.

d) a forma como a história era escrita e lida entre os povos da península balcânica.

e) o esforço de diferenciar as cidades-estados e reforçar o isolamento e a autonomia em que viviam.

Resposta:A

A questão diz respeito ao papel dos poetas na cultura grega clássica. Sendo eles inspirados pelos deuses, são responsáveis pela transmissão dos mitos e da memória aos homens. Todas as alternativas, com exceção da [A], fazem referência a características que não são próprias da atividade dos poetas gregos.

 

40. (Unesp 2012) Leia os textos.

Texto 1

Segundo Descartes, a realidade é dividida em duas vertentes claramente distintas e irredutíveis uma à outra: a res cogitans (substância pensante) no que se refere ao mundo espiritual e a res extensa (substância material) no que concerne ao mundo material. Não existem realidades intermediárias. A força dessa proposição é devastadora, sobretudo em relação às concepções de matriz animista, segundo as quais tudo era permeado de espírito e vida e com as quais eram explicadas as conexões entre os fenômenos e sua natureza mais recôndita. Não há graus intermediários entre a res cogitans e a res extensa. A exemplo do mundo físico em geral, tanto o corpo humano como o reino animal devem encontrar explicação suficiente no mundo da mecânica, fora e contra qualquer doutrina mágico-ocultista.

(Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia, 1990. Adaptado.)

Texto 2

 Se você, do nada, começar a sentir enjoo, mal-estar, queda de pressão, sensação de desmaio ou dores pelo corpo, pode ter se conectado a energias ruins. Caso decida procurar um médico, ele possivelmente terá dificuldade para achar a origem do mal e pode até fazer um diagnóstico errado. Nessa hora, você pode rezar e pedir ajuda espiritual. Se não conseguir, procure um centro espírita e faça a sua renovação energética. Pode ser que encontre dificuldades para chegar lá, pois, no primeiro momento, seu mal-estar poderá até se intensificar. No entanto, se ficar firme e persistir, tudo desaparecerá como em um passe de mágica e você voltará ao normal.

(Zibia Gasparetto. http://mdemulher.abril.com.br. Adaptado.)

A recomendação apresentada por Zibia Gasparetto sobre a cura espiritual é compatível com as concepções cartesianas descritas no primeiro texto? Explique a compatibilidade ou a incompatibilidade entre ambas as concepções, tendo em vista o mecanicismo cartesiano e a diferença entre substância espiritual e substância material.

Resposta:

 A recomendação de Zibia Gasparetto é incompatível com as concepções cartesianas. Gasparetto considera que existem espíritos que interferem na vida material humana. Já a concepção cartesiana não admite nem a existência de espíritos como forma explicativa dos fenômenos e da natureza, nem a existência de graus intermediários entre a res cogitans e a res exetensa. Vale ressaltar que o espírito, para o filósofo, corresponde a uma “substância pensante” e somente nesse sentido é considerado como existente.

 

41. (Unesp 2012) “O homem é o lobo do homem” é uma das frases mais repetidas por aqueles que se referem a Hobbes. Essa máxima aparece coroada por uma outra, menos citada, mas igualmente importante: “guerra de todos contra todos”. Ambas são fundamentais como síntese do que Hobbes pensa a respeito do estado natural em que vivem os homens. O estado de natureza é o modo de ser que caracterizaria o homem antes de seu ingresso no estado social. O altruísmo não seria, portanto, natural. No estado de natureza o recurso à violência generaliza-se, cada qual elaborando novos meios de destruição do próximo, com o que a vida se torna “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta, na qual cada um é lobo para o outro, em guerra de todos contra todos”. Os homens não vivem em cooperação natural, como fazem as abelhas e as formigas. O acordo entre elas é natural; entre os homens, só pode ser artificial. Nesse sentido, os homens são levados a estabelecer contratos entre si. Para o autor do Leviatã, o contrato é estabelecido unicamente entre os membros do grupo, que, entre si, concordam em renunciar a seu direito a tudo para entregá-lo a um soberano capaz de promover a paz. Não submetido a nenhuma lei, o soberano absoluto é a própria fonte legisladora. A obediência a ele deve ser total.

(João Paulo Monteiro. Os Pensadores, 2000.)

Caracterize a diferença entre estado de natureza e vida social, segundo o texto, e explique por que a é atribuída a Hobbes a concepção política de um “absolutismo sem teologia”.

Resposta:

 O estado de natureza pode ser considerado como um estado de natural insegurança, na medida em que impera a “guerra de todos contra todos” na luta pela sobrevivência. Em oposição, o estado de vida social é caracterizado pela segurança. Na medida em que todos transferem ao soberano, mediante o contrato social, o direito do uso legítimo e exclusivo da força, o soberano se torna a fonte da segurança civil. Dado que os homens não podem quebrar o contrato social para não caírem em contradição, Hobbes afirma que ninguém pode questionar o poder do soberano. É nesse sentido que Hobbes é considerado como idealizador de um absolutismo sem teologia, por considerar que o poder do soberano é advindo do contrato social, sem fazer qualquer referência a uma fonte divina.

 

42. (Unesp 2012) O clima do “politicamente correto” em que nos mergulharam impede o raciocínio. Este novo senso comum diz que todos os preconceitos são errados. Ao que um amigo observou: “Então vocês têm preconceito contra os preconceitos”. Ele demonstrava que é impossível não ter preconceitos, que vivemos com eles, e que grande quantidade deles nos é útil. Mas, afinal, quais preconceitos são pré-julgamentos danosos? São aqueles que carregam um juízo de valor depreciativo e hostil. Lembre-se do seu tempo de colégio. Quem era alvo dos bullies? Os diferentes. As crianças parecem repetir a história da humanidade: nascem trogloditas, violentas, cruéis com quem não é da tribo, e vão se civilizando aos poucos. Alguns, nem tanto. Serão os que vão conservar esses rótulos pétreos, imutáveis, muitas vezes carregados de ódio contra os “diferentes”, e difíceis (se não impossíveis) de mudar.

 (Francisco Daudt. Folha de S.Paulo, 07.02.2012. Adaptado.)

O artigo citado aborda a relação entre as tendências culturais politicamente corretas e os preconceitos. Com base no texto, pode-se afirmar que a superação dos preconceitos que induzem comportamentos agressivos depende

a) da capacidade racional de discriminar entre pré-julgamentos socialmente úteis e preconceitos disseminadores de hostilidade.

b) de uma assimilação integral dos critérios “politicamente corretos” para representar e julgar objetivamente a realidade.

c) da construção de valores coletivos que permitam que cada pessoa diferencie os amigos e os inimigos de sua comunidade.

d) de medidas de natureza jurídica que criminalizem a expressão oral de juízos preconceituosos contra integrantes de minorias.

e) do fortalecimento de valores de natureza religiosa e espiritual, garantidores do amor ao próximo e da convivência pacífica.

Resposta:A

De acordo com o texto, somente a alternativa [A] pode ser considerada correta. Os preconceitos podem ser tanto socialmente úteis quanto danosos. É pela razão e pela “educação civilizadora” que as crianças aprendem a conviver com o diferente.

 

43. (Unesp 2012) Leia o trecho da entrevista com um médico epidemiologista.

Folha – Não é contraditório um epidemiologista questionar o conceito de risco?

Luis David Castiel – Tem também um lado opressivo que me incomoda. Uma dimensão moralista, que rotula as pessoas que se expõem ao risco como displicentes e que, portanto, merecem ser punidas [pela doença], se acontecer o evento ao qual estão se expondo. Estamos à mercê dessa prescrição constante que a gente tem que seguir. Na hora em que você traz para perto a ameaça, tem que fazer uma gestão cotidiana dela. Não há como, você teria que controlar todos os riscos possíveis e os impossíveis de se imaginar. É a riscofobia.

Folha – Há um meio do caminho entre a fobia e o autocuidado?

Luis David Castiel – A pessoa tem que puxar o freio de emergência quando achar necessário, decidir até que ponto vai conseguir acompanhar todos os ditames da saúde. (…) Na saúde, a vigilância constante, o excesso de exames criou uma nova categoria: a pessoa não está doente, mas não é saudável. Está sob risco.

(Folha de S.Paulo, 11.04.2011. Adaptado.)

Assinale a alternativa que contempla adequadamente a opinião do médico, sob o ponto de vista filosófico.

a) Para o médico Luis Castiel, os imperativos da ciência, se adotados como norma absoluta na avaliação dos comportamentos individuais, podem causar sofrimento emocional.

b) Para o médico, os comportamentos individuais devem ser submetidos a padrões científicos de controle.

c) A riscofobia abordada na entrevista decorre da displicência dos indivíduos em atenderem aos ditames da saúde e da boa forma.

d) Na entrevista, o médico defende a autonomia individual como padrão absoluto para a avaliação de comportamentos de risco.

e) Para o médico, a gestão cotidiana dos riscos depende diretamente da vigilância constante no campo da saúde.

Resposta: A

O médico aponta para a dificuldade do indivíduo em administrar todos os riscos da saúde ao qual é exposto. Essa exigência imposta ao sujeito foi chamada pelo médico de “riscofobia”, uma forma de sofrimento emocional e opressivo, resultado de uma concepção moralista a respeito da saúde.

 

44. (Unesp 2012) Vigora entre educadores e intelectuais brasileiros uma correta e justificável ojeriza às ditaduras de direita. Infelizmente, o mesmo vigor não é encontrado quando se trata de ditaduras de esquerda. As notícias de perseguições, prisões, greves de fome, fuzilamentos e fugas envolvendo opositores às duras ditaduras esquerdistas são ignoradas. Quando fica impossível deixar de falar a respeito, são comuns alegações de que há exagero da imprensa ou, pior, sugestões de que os dissidentes são egoístas que, em nome do individualismo, ameaçam um regime que deveria servir de exemplo. São as velhas táticas de questionar a liberdade de imprensa quando as notícias são desfavoráveis e de desmerecer o opositor, em vez de enfrentar as opiniões contrárias com argumentos.

(Janaína Conceição Paschoal. Cuba é uma grande Guantánamo. Folha de S.Paulo, 14.02.2012.)

O texto descreve um conflito de natureza ideológica. Apresente uma definição que seja adequada para o conceito de “ideologia”, tal como ele é empregado pela autora, e comente uma diferença básica entre uma “ideologia de direita” e uma “ideologia de esquerda”.

Resposta:

 Ideologia é uma espécie de planificação do discurso. É uma ignorância a respeito dos excessos e faltas da razão que imobiliza o posicionamento do sujeito de modo que ele se torna incapaz de reavaliar e criticar suas afirmações.

Ideologia, de acordo com o Houaiss:

  1. Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: sociologia.

sistema de ideias (crenças, tradições, princípios e mitos) interdependentes, sustentadas por um grupo social de qualquer natureza ou dimensão, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos.

Existem ideologias mais para direita e mais para esquerda, isto é, existem ideologias que são mais extremas e outras mais brandas. Entre liberais e socialistas existe um espaço muito menor que entre fascistas e comunistas, por exemplo. Se tomarmos duas ideologias que recaíram em ditaduras e regimes totalitários – o fascismo e o comunismo –, podemos perceber uma grande diferença na concepção de Estado. Para a primeira o Estado existe e o indivíduo o serve, para a segunda o Estado serve as necessidades individuais de acordo com as capacidades destes. Porém, para simplificar podemos generalizar uma seguinte diferenciação: ideologias de direita geralmente buscam ser ou conservadoras ou reacionárias, e ideologias de esquerda ou progressistas ou revolucionárias.

 

45. (Unesp 2012) De certo modo, a primeira fonte de ruptura com o antropocentrismo se encontra na teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico, a assim chamada revolução copernicana. A segunda grande ruptura é provocada pelo que se poderia chamar, em analogia com a primeira, de revolução darwiniana, resultado da obra de Charles Darwin, A origem das espécies pela seleção natural, onde este formula sua famosa teoria da evolução das espécies.

(Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001. Adaptado.)

A partir do texto, explique o significado do termo “antropocentrismo” e descreva por que as obras de Copérnico e de Darwin são apresentadas como momentos de ruptura com essa centralidade.

Resposta:

 Antropocentrismo é a concepção na qual o mundo existe em função do homem. É uma concepção que se vinculou muito ao cristianismo e a ideia de que a criação divina se fez para o homem e o próprio é especialmente divino por ter sido feito à imagem e semelhança do Criador. Evidentemente, quando Copérnico revoluciona a teoria sobre o movimento dos corpos celestes, fazendo o espectador se mover e o astro se manter em repouso, o antropocentrismo sofre um ataque contundente, afinal a Terra criada para o homem não seria o centro de tudo, mas apenas um planeta como qualquer outro. Do mesmo modo, Darwin ao teorizar sobre a evolução das espécies faz algo similar e retira a qualidade divina do homem ao afirmá-lo como uma derivação do macaco. Também, Darwin retira do mundo qualquer finalidade especial e diz que a origem das espécies não aponta para nada além da sua mera sobrevivência, isto é, podemos imaginar disto que Darwin afirma sobre as espécies que não há finalidade especial para o planeta Terra e seus seres vivos e eles vagam pelo universo sem qualquer finalidade específica.

 

46. (Unesp 2012) As freiras da Congregação das Pequenas Irmãs da Sagrada Família, de Cascavel (PR) e, em particular, a Irmã Kelly Favareto, poderão aparecer com os véus que cobrem cotidianamente suas cabeças na foto da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A decisão é da Justiça Federal, que aceitou recurso da Irmã contra a Resolução do Conselho Nacional de Trânsito que proíbe, por razões de segurança, que na foto da CNH o condutor apareça usando óculos, bonés, gorros, chapéus ou qualquer outro item que cubra parte do rosto ou cabeça, dificultando sua identificação. “Eu só ando de véu, que é um sinal de consagração a Deus, não é um acessório que posso tirar quando quiser”, alegou a Irmã.

 (Evandro Fadel. Freira ganha direito de usar hábito na foto da CNH. O Estado de S.Paulo, 10.02.2012. Adaptado.)

Comente o significado filosófico do fato noticiado, abordando a relação entre indivíduo e Estado, e explique a relação entre esse fato e o movimento filosófico iluminista do século XVIII.

Resposta:

 É um tanto estranho pedir simplesmente, sem qualquer definição anterior, que se comente o significado filosófico de um fato noticiado. A filosofia não é algo tão coeso para possuir um significado tão preciso, tão simples de se fazer referência e, sendo assim, são possíveis várias abordagens distintas. Porém, aparentemente, deseja-se ressaltar nesta pergunta de vestibular a questão referente à liberdade do cidadão, ou seja, sua relação com o Estado e com as Leis. No caso brasileiro, nossa Constituição permite o culto e sua manifestação livre, todavia devemos nos perguntar sempre sobre a laicidade dos poderes, isto é, sobre a indiferença do Estado e suas Leis a respeito da religião de cada indivíduo. Enfim, o Estado poderia beneficiar um cidadão ao tomar uma decisão que o favoreça simplesmente devido sua religião? Apesar de a argumentação da freira criar uma relação de necessidade entre o véu e seus hábitos, ou seja, que ela deveria habitualmente usá-lo e não pode, simplesmente, tirá-lo para uma fotografia, o poder poderia favorecê-la baseando-se neste argumento religioso? Essas ideias sobre a liberdade dos cidadãos e a laicidade do Estado se desenvolveram e foram propagandeadas na modernidade durante o período do movimento Iluminista. John Locke (1632-1704) e Montesquieu (1689-1755), por exemplo, pensaram sobre as relações entre o Estado, as Leis e o cidadão e consideram com frequência as questões referentes à laicidade do poder e à liberdade do sujeito.

47. (Unesp 2012) Texto 1

 2012 começa sob a vibração positiva de uma Lua crescente em Áries logo no dia 1.º. Áries é o signo que tem tudo a ver com o início de algo e traz muita garra, coragem e esperança. Ainda na primeira semana, Mercúrio, das comunicações, forma um aspecto harmonioso com Saturno e Netuno, evidenciando um momento de descobertas, diálogo e de primeiros passos coletivos na consolidação de um sonho ou projeto comum, de muitos povos e sociedades. Acordos internacionais e negociações de paz podem ser feitos em um momento feliz e que promete bom desenvolvimento.

(Barbara Abramo. Céu de janeiro de 2012. http://horoscopo.uol.com.br, 01.01.2012.)

 Texto 2

 O Irã lançou ontem mísseis de cruzeiro melhorados, que podem ameaçar navios americanos, durante um exercício naval que simula o fechamento do estreito de Hormuz – por onde passa cerca de um sexto da produção de petróleo mundial. O míssil Ghader (capaz, em farsi) foi desenvolvido com o objetivo de atacar navios de guerra e proteger o litoral do país. Duas unidades foram disparadas ontem da costa iraniana em um teste.

(Irã testa míssil que ameaça frota dos EUA. Folha de S.Paulo, 03.01.2012.)

Os dois textos, publicados no início de 2012, apresentam incompatibilidade lógica entre as formas pelas quais abordam a realidade. Responda quais são os pressupostos ou pontos de vista assumidos por cada um deles e explique os motivos dessa incompatibilidade.

Resposta:

 O Texto 1 apresenta uma abordagem esotérica da realidade e, ao contrário, o Texto 2 uma abordagem exotérica. O esoterismo é uma doutrina hermética, fechada, acessível para poucos, já o exoterismo não se restringe e é algo público, aberto, acessível para todos. O sobrenatural participa das previsões expostas no Texto 1 e através de uma leitura do posicionamento dos astros, sem qualquer fundamento científico, descreve-se acontecimentos futuros e qualifica irracionalmente que tipo de ação pode ser bem ou má sucedida. A documentação empírica participa da informação transmitida no Texto 2 e através de uma consideração factual de um evento ocorrido e observado garante-se um lastro responsável por tornar racionais decisões subsequentes. Evidentemente, existe uma incompatibilidade estabelecida pela irracionalidade presente no Texto 1 e a racionalidade presente no Texto 2, pela presença de um sobrenatural esotérico no Texto 1 e uma publicidade exotérica no Texto 2.

 

48. (Unesp 2011) Leia o texto, extraído do livro VII da obra magna de Platão (A República), que se refere ao célebre mito da caverna e seu significado no pensamento platônico.

 Agora, meu caro Glauco – continuei – cumpre aplicar ponto por ponto esta imagem ao que dissemos, comparar o mundo que a visão nos revela à morada da prisão e a luz do fogo que a ilumina ao poder do sol. No que se refere à subida à região superior e à contemplação de seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma ao lugar inteligível, não te enganarás sobre o meu pensamento, posto que também desejas conhecê-lo. Quanto a mim, tal é minha opinião: no mundo inteligível, a ideia do bem é percebida por último e a custo, mas não se pode percebê-la sem concluir que é a causa de tudo quanto há de direto e belo em todas as coisas; e que é preciso vê-la para conduzir-se com sabedoria na vida particular e na vida pública.

 (Platão. A República, texto escrito em V a.C. Adaptado.)

Explique o significado filosófico da oposição entre as sombras no ambiente da caverna e a luz do sol.

Resposta:

 Nós estamos diante de um trecho que compõe um dos mais famosos da história da filosofia e cujas tarefas, as do filósofo, estão delineadas em forma de alegoria. A primeira tarefa a ser entendida é que a caverna é o nosso mundo, o mundo onde esquecemos de tudo – supõe Platão – enquanto todos nós já tivéssemos vivido como puro espírito contemplando o mundo das ideias. Pela teoria da reminiscência, Platão explica como os sentidos correspondem a uma ocasião para despertar nas almas as lembranças adormecidas. Deste modo, a sombra significa o amor pela doxa (amor pela opinião), pelas opiniões que existem no mundo das sombras, de onde os acorrentados ainda não tiveram capacidade de se libertarem. Quanto à luz do sol, é exatamente o oposto, uma vez que já libertos das correntes, ao contemplar fora da caverna a verdadeira realidade passa da opinião à ciência, ou melhor, ao amor pela filosofia. Ao que vê a luz do Sol, cabe, segundo Platão, ensinar e governar. Trata-se da ação política, da transformação dos homens em sociedade, desde que as mesmas estejam voltadas para a contemplação do modelo do mundo das ideias.

 

49. (Unesp 2011) “Três maneiras há de preservar a posse de Estados acostumados a serem governados por leis próprias; primeiro, devastá-los; segundo, morar neles; terceiro, permitir que vivam com suas leis, arrancando um tributo e formando um governo de poucas pessoas, que permaneçam amigas. Sucede que, na verdade, a garantia mais segura da posse é a ruína. Os que se tornam senhores de cidades livres por tradição, e não as destroem, serão destruídos por elas. Essas cidades costumam ter por bandeira, em suas rebeliões, tanto a liberdade quanto suas antigas leis, jamais esquecidas, nem com o passar do tempo, nem por influência dos favores que receberam.

Por mais que se faça, e sejam quais forem os cuidados, sem promover desavença e desagregação entre os habitantes, continuarão eles a recordar aqueles princípios e a estes irão recorrer em quaisquer oportunidades e situações”.

(Nicolau Maquiavel. Publicado originalmente em 1513. Adaptado.)

Partindo de uma definição de moralidade como conjunto de regras de conduta humana que se pretendem válidas em termos absolutos, responda se o pensamento de Maquiavel é compatível com a moralidade cristã. Justifique sua resposta, comentando o teor prático ou pragmático do pensamento desse filósofo.

Resposta:

 O pensamento de Maquiavel é célebre por ter rompido com a moralidade cristã da época – é bom lembrar que estamos falando da época do Renascimento, quando as explicações religiosas começam a ceder espaço para o pensamento racional, baseado na capacidade humana de explicar o mundo. Deste modo, Maquiavel é racional e totalmente pragmático, elaborando um tratado político – “O príncipe”, do qual provavelmente foi retirado esse excerto – que funciona como uma espécie de manual, com conselhos extremamente práticos e realistas para se obter e manter o poder, sem menção a qualquer restrição de ordem moral.

 

50. (Unesp 2011) Texto I

Por isso também nós, desde o dia em que soubemos, não cessamos de rezar por vós e pedir a Deus que vos conceda pleno conhecimento de sua vontade, perfeita sabedoria e inteligência espiritual, a fim de vos comportardes de maneira digna do Senhor, procurando agradar-lhe em tudo, dando fruto de toda obra boa e crescendo no conhecimento de Deus, animados de grande energia pelo poder de sua glória para toda a paciência e longanimidade. Com alegria, agradecemos a Deus Pai, que vos tornou capazes de participar da herança dos santos no reino da Luz. Que nos livrou do poder das trevas e transportou ao reino do seu Filho amado, no qual temos a redenção: a remissão dos pecados.

(Bíblia Sagrada. Epístola aos Colossenses 1, 9-14, texto escrito no século I.)

Texto II

Olhe ao redor deste universo. Que imensa profusão de seres, animados e organizados, sensíveis e ativos! Examine, porém, um pouco mais de perto essas criaturas dotadas de vida, os únicos seres dignos de consideração. Que hostilidade e destrutividade entre eles! Quão incapazes, todos, de garantir a própria felicidade! Quão odiosos ou desprezíveis aos olhos de quem os contempla! O conjunto de tudo isso nada nos oferece a não ser a ideia de uma natureza cega, que despeja de seu colo, sem discernimento ou cuidado materno, sua prole desfigurada e abortiva.

(David Hume. Diálogos sobre a religião natural, texto escrito em 1779. Adaptado.)

Compare ambos os textos e comente uma diferença entre eles no que diz respeito à concepção de natureza humana e uma diferença referente à concepção de moralidade.

Resposta:

 O texto I integra a Epístola de Paulo do Novo Testamento, literatura cristã, e revela uma concepção divina do Universo, marcado por uma ordem moral e com sentido. A antropologia cristã entende o homem como criatura (criação de Deus), como ser em estado de guerra (pecado original), porém, agraciado pela mensagem de Cristo que ofereceu um sentido moral à existência humana.

O texto II, do filósofo David Hume, nascido em Edimburgo, representante do empirismo inglês, aparece a visão do homem natural (e não sobrenatural), cuja existência é marcada pelo caos e pela desordem que resultam de suas inclinações para o egoísmo, hostilidade destrutividade. Para o filósofo, adotamos regras de moral e de justiça, não com bases abstratas, mas com sentidos pragmáticos, em outras palavras, as decisões éticas e morais são sempre relativas a uma situação específica e a um determinado momento histórico, não se fundando em nenhum princípio eterno e universal.

 

51. (Unesp 2011) Enquanto os homens se contentaram com suas cabanas rústicas, enquanto se limitaram a costurar com espinhos ou com cerdas suas roupas de peles, a enfeitarem-se com plumas e conchas, a pintar o corpo com várias cores, a aperfeiçoar ou embelezar seus arcos e flechas, a cortar com pedras agudas algumas canoas de pescador ou alguns instrumentos grosseiros de música – em uma palavra: enquanto só se dedicavam a obras que um único homem podia criar e a artes que não solicitavam o concurso de várias mãos, viveram tão livres, sadios, bons e felizes quanto o poderiam ser por sua natureza.

O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendei-vos de acreditar nesse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém”.

(Jean-Jacques Rousseau. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Adaptado.)

Cite a principal diferença estabelecida por Rousseau entre a vida em estado de natureza e a vida na sociedade civil, e explique o significado dessa diferença no âmbito da filosofia política.

Resposta:

 Jean-Jacques Rousseau, filho de um relojoeiro de poucas posses, nasceu em Genebra (Suíça) e, vivendo em Paris em 1752, testemunhou arder as ideias que inspiraram a Revolução Francesa em 1789. Assim como seus antecessores, Hobbes e Locke, Rousseau procurou legitimar o poder político fundamentado na teoria do contrato social. Em seu livro, Origem sobre a Desigualdade entre os Homens, revela-se um filósofo contratualista. Para ele, os homens, no passado, teriam vivido o estado de natureza, movidos pelo instinto de forma sadia, benevolente e feliz, voltados unicamente para a própria sobrevivência. Em determinado momento, porém, como bem mostra o texto, teria sido criada a propriedade privada, estabelecendo-se relações entre senhores e escravos, uns trabalhando para outros, gerando as desigualdades sociais. Isso gerou a necessidade do artifício da vida em sociedade. A vida na sociedade civil começa quando o indivíduo de abdica de todos os seus direitos para viver em comunidade, desde que todos se abdiquem igualmente. É na sociedade civil que os interesses de todos e de cada um, enquanto componentes do corpo coletivo, transformam o estado de guerra de todos contra todos, numa existência humana marcada pelo desenvolvimento marcada pelo afeto.

 

52. (Unesp 2011) “O Iluminismo é a saída do homem de um estado de menoridade que deve ser imputado a ele próprio. Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio intelecto sem a guia de outro. Imputável a si próprios é esta menoridade se a causa dela não depende de um defeito da inteligência, mas da falta de decisão e da coragem de servir-se do próprio intelecto sem ser guiado por outro. Sapere aude! Tem a coragem de servires de tua própria inteligência!”

(Immanuel Kant, 1784.)

Esse texto do filósofo Kant é considerado uma das mais sintéticas e adequadas definições acerca do Iluminismo. Justifique essa importância comentando o significado do termo “menoridade”, bem como os fatores sociais que produzem essa condição, no campo da religião e da política.

Resposta:

 Ao definir a menoridade como “a incapacidade de servir-se do próprio intelecto sem a guia de outro”, Kant está fazendo uma crítica ao modo restritivo pelo qual o pensamento humano estava condicionado até aquele período, isto é, até o Iluminismo. Esta restrição ao livre pensamento era levado a cabo sobretudo pelas instituições religiosas, isto é – e de modo geral -, pela Igreja, que não deixava espaço para outras interpretações do mundo e de seus fenômenos. É, portanto, justamente contra esta tutela, esta “menoridade”, este “ser guiado por outro”, que Kant e o movimento Iluminista se rebelam, influenciando a mentalidade da época e criando condições para as revoluções burguesas – como a francesa, por exemplo -, determinando a queda dos regimes absolutistas – baseados na religião e apoiados pela Igreja – em prol do estabelecimento de um Estado laico, governado pelo próprio povo.

 

53. (Unesp 2011) “Em troca dos artigos que enriquecem sua vida, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. As pessoas residem em concentrações habitacionais e possuem automóveis particulares com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema, que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações”.

(Herbert Marcuse, filósofo alemão, 1955.)

Caracterize a noção de liberdade presente no texto de Marcuse, considerando a relação estabelecida pelo autor entre liberdade, progresso técnico e sociedade de consumo.

Resposta:

 Marcuse faz uma breve descrição da vida moderna (especialmente no contexto do pós-guerra, mas vale também para a nossa vida contemporânea) para caracterizar a sociedade que daí emerge como baseada no consumo. Neste sentido, o progresso técnico funciona como uma mola propulsora desta sociedade, retroalimentando-a, criando novos produtos para suprir novas necessidades. Este mundo, que se apresenta ao indivíduo como dado, não lhe proporciona outras escolhas que não aquelas que façam parte da engrenagem da sociedade. E aí reside a contradição deste modelo, pois ele se apresenta como produto da liberdade dos indivíduos, dando a falsa impressão de que vivemos num mundo no qual temos acesso a todo tipo de opinião e no qual também podemos expressar a nossa, quando na verdade apenas reproduzimos e vemos reproduzidos os ideais que sustentam o consumo e a sociedade que se baseia nele. Deste modo, a noção de liberdade presente no texto estaria na tomada de consciência pelo indivíduo de sua real situação dentro desta sociedade de consumo e, a partir daí sim, ele poderia fazer suas próprias escolhas baseadas nas “suas próprias necessidades e satisfações”. Somente assim o indivíduo seria capaz de desfrutar plenamente de sua liberdade.

 

54. (Unesp 2011) Num mundo onde cresce sem parar a compulsão para obrigar as pessoas a levar uma vida “correta” no maior número possível das atividades que formam o seu dia a dia, a mesa tornou-se uma das áreas que mais atraem a atenção dos gendarmes empenhados em arbitrar o que é realmente bom para você. É uma provação permanente. Médicos, nutricionistas, personal trainers, editores e editoras de revistas dedicadas à forma física, ambientalistas, militantes da produção orgânica, burocratas, chefs de cozinha, críticos de restaurantes e mais uma multidão de diletantes prontos a dar testemunho expedem decretos cada vez mais frequentes, e cada vez mais severos, sobre os deveres do cidadão na hora de comer. O fato é que toda essa gente, quase sempre com as melhores intenções, acabou construindo um crescente sistema de ansiedade em torno do pão nosso de cada dia – e o resultado é que o prazer de comer bem vai sendo substituído pela obrigação de comer certo. Modelos, atrizes e outras pessoas que precisam pesar pouco para fazer sucesso chegam aos 30 anos de idade, ou mais, praticamente sem ter feito uma única refeição decente na vida. Propõe-se, como virtude alimentar, um mundo sombrio de pastas, mingaus, poções, soros de proteína e sabe-se lá o que ainda vem pela frente. Não está claro o que se ganha em toda essa história. A perspectiva de morrer, um dia, no peso ideal?

(J. R. Guzzo. Veja, 09.06.2010. Adaptado.)

Sob o ponto de vista filosófico, podemos afirmar que, para o autor,

a) é positiva a adoção de procedimentos científicos no campo nutricional.

b) o tema da qualidade de vida deve ser enfocado sob critérios morais.

c) os padrões hegemônicos vigentes na sociedade atual no campo da nutrição são elogiáveis.

d) a felicidade depende do número de calorias ingeridas pelo ser humano.

e) a autonomia individual deveria ser o critério para definir os parâmetros de uma vida adequada.

Resposta:E

O autor critica, na verdade, aquela ditadura da magreza onde os indivíduos são conduzidos ao padrão de beleza atual e acabam com isso sofrendo sérios distúrbios alimentares como bulimia, anorexia, diabetes, pressão alta, entre outras. A autonomia individual é agir como se quer, sem qualquer determinação casual, quer seja exterior, como os médicos, nutricionistas, ambientalistas e outros mencionados no texto ou interior, no caso, os desejos e o caráter. No entanto, agir como se quer para garantir uma vida adequada não existe se não houver responsabilidade e total consciência dos atos que se quer praticar.

 

55. (Unesp 2011) Renata, 11, combinava com uma amiga viajar em julho para a Disney. Questionada pela mãe, que não sabia de excursão nenhuma, a menina pegou uma pasta com preços do pacote turístico e uma foto com os dizeres: “Se eu não for para a Disney vou ser um pateta”. A agência de turismo e a escola afirmam que não pretendiam constranger ninguém e que a placa do Pateta era apenas uma brincadeira. Para um promotor da área do consumidor, o caso ilustra bem os abusos na publicidade infantil.

“Já temos problemas sérios de bullying nas escolas. Essa empresa está criando uma situação propícia para isso”.

 (Folha de S.Paulo, 20.04.2010. Adaptado.)

Acerca dessa notícia, podemos afirmar que:

a) Em nossa sociedade, os campos da publicidade e da pedagogia são esferas separadas, não suscitando questões de natureza ética.

b) Para o promotor citado na reportagem, o caso em questão provoca problemas de natureza exclusivamente jurídica.

c) Uma das questões éticas envolvidas diz respeito à exposição precoce das crianças à manipulação do desejo, exercida pela publicidade.

d) O público-alvo dessa campanha publicitária constitui-se de indivíduos dotados de consciência autônoma.

e) Para o promotor citado na reportagem, o caso em questão não apresenta repercussões de natureza psicológica.

Resposta:C

O caso Renata, 11 anos, representa o quanto uma propaganda preocupa-se com a imagem em torno do produto, ao invés de nos dizer para que o produto serve. Deste modo, o papel ético do promotor é alertar que uma criança que não usufruir desta viagem, será, certamente, vítima de coação e constrangimento por parte dos colegas que forem à Disney.

 

56. (Unesp 2011) Analise o trecho da entrevista dada pelo chefe de imprensa do governo do Irã a um jornal brasileiro.

Folha – Há preocupação quanto a uma mudança de posição do governo brasileiro, sobretudo na área de direitos humanos, depois que a presidente Dilma se manifestou contrariamente ao apedrejamento de Sakineh?

Ali Akbar Javanfekr – Encontrei poucas informações sobre a realidade iraniana aqui no Brasil. Há notícias distorcidas e falsas. Isso é preocupante. Minha presença aqui é para tentar divulgar as informações corretas. No caso de Sakineh, informações que chegaram à presidente Dilma Rousseff não foram corretas.

Folha – A presidente Dilma está mal informada?

Ali Akbar Javanfekr – Sim. Foi mal informada sobre esse caso.

Folha – É verdade, como diz o presidente Ahmadinejad, que não há gays no Irã?

Ali Akbar Javanfekr – Não temos.

Folha – É o único país do mundo que não tem gay?

Ali Akbar Javanfekr – Na República Islâmica do Irã, não há.

Folha – Se houver, há punições?

Ali Akbar Javanfekr – Nossa visão sobre esse tema é diferente da de vocês. É um ato feio, que nenhuma das religiões divinas aceita. Temos a responsabilidade humana, até divina, de não

aceitar esse tipo de comportamento. Existe uma ameaça sobre a saúde da humanidade. A Aids, por exemplo. Uma das raízes é esse tipo de relacionamento.

(Folha de S.Paulo, 14.03.2011. Adaptado.)

Sob o ponto de vista ético, as opiniões expressas no trecho da entrevista podem ser caracterizadas como

a) uma visão de mundo fortemente influenciada pelas matrizes liberais do pensamento filosófico.

b) uma posição convencionalmente associada ao pensamento politicamente correto.

c) uma visão de mundo fortemente influenciada pelo fundamentalismo religioso.

d) opiniões que expressam afinidade com o imperativo categórico kantiano.

e) posições condizentes com a valorização da consciência individual autônoma.

Resposta:C

O fundamentalismo religioso é considerado por muita gente um mal e por se caracterizar como um pensamento dogmático que não aceita mudança e refundação de seus argumentos eles acabam fazendo o que fazem, como afirmar nesta entrevista categoricamente a não existência de homossexuais em seu país, e fundamentando seus atos – que consideram éticos – nos dogmas e leis rígidas de sua própria religião.

 

57. (Unesp 2011) Analise o texto político, que apresenta uma visão muito próxima de importantes reflexões do filósofo italiano Maquiavel, um dos primeiros a apontar que os domínios da ética e da política são práticas distintas.

“A política arruína o caráter”, disse Otto von Bismarck (1815-1898), o “chanceler de ferro” da Alemanha, para quem mentir era dever do estadista. Os ditadores que agora enojam o mundo ao reprimir ferozmente seus próprios povos nas praças árabes foram colocados e mantidos no poder por nações que se enxergam como faróis da democracia e dos direitos humanos: Estados Unidos, Inglaterra e França. Isso é condenável?

Os ditadores eram a única esperança do Ocidente de continuar tendo acesso ao petróleo árabe e de manter um mínimo de informação sobre as organizações terroristas islâmicas. Antes de condenar, reflita sobre a frase do mais extraordinário diplomata americano do século passado, George Kennan, morto aos 101 anos em 2005: “As sociedades não vivem para conduzir sua política externa: seria mais exato dizer que elas conduzem sua política externa para viver”.

(Veja, 02.03.2011. Adaptado.)

A associação entre o texto e as ideias de Maquiavel pode ser feita, pois o filósofo

a) considerava a ditadura o modelo mais apropriado de governo, sendo simpático à repressão militar sobre populações civis.

b) foi um dos teóricos da democracia liberal, demonstrando-se avesso a qualquer tipo de manifestação de autoritarismo por parte dos governantes.

c) foi um dos teóricos do socialismo científico, respaldando as ideias de Marx e Engels.

d) foi um pensador escolástico que preconizou a moralidade cristã como base da vida política.

e) refletiu sobre a política através de aspectos prioritariamente pragmáticos.

Resposta:E

Nicolau Maquiavel (1469-1527), para descrever a ação do príncipe (governante) usa de duas expressões italianas virtú e fortuna. A virtú significa virtude, no sentido grego de força, valor, uma qualidade de guerreiro e lutador forte e viril. Em Maquiavel, não se trata disto, mas sim da capacidade do príncipe de perceber o jogo das forças que caracteriza o momento político para agir, seja de qual maneira for, para alcançar seus objetivos. O pensamento de Maquiavel se aproxima com o texto da questão quando ela se aplica a fortuna, ou seja, a ocasião (pragmático) que não deve deixar escapar pelo príncipe e nela utilizar-se dos meios necessários para seus fins.

 

58. (Unesp 2011) “E a verdade, o que será? A filosofia busca a verdade, mas não possui o significado e substância da verdade única. Para nós, a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito. No mundo, a verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva esse conflito ao extremo, porém o despe de violência. Em suas relações com tudo quanto existe, o filósofo vê a verdade revelar-se a seus olhos, graças ao intercâmbio com outros pensadores e ao processo que o torna transparente a si mesmo. Eis porque a filosofia não se transforma em credo. Está em contínuo combate consigo mesma”.

(Karl Jaspers, 1971.)

Com base no texto, responda se a verdade filosófica pretende ser absoluta, justificando sua resposta com uma passagem do texto citado. Ainda de acordo com o fragmento, explique como podemos compreender os conflitos entre filosofia e religião e cite o principal movimento filosófico ocidental do período moderno que se caracterizou pelos conflitos com a religião.

Resposta:

 Jaspers, logo no início do seu texto, deixa evidente que a verdade filosófica não pretende ser absoluta: “A filosofia busca a verdade, mas não possui o significado e substância da verdade única”. Ainda, logo em seguida afirma que: “Para nós [filósofos], a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito”. E é justamente por ir neste sentido, isto é, por rejeitar verdades absolutas, que a filosofia invariavelmente se confronta com a religião. Caso notório no pensamento ocidental é o surgimento do Iluminismo, no século XVIII, que, embora ressaltasse a importância da tolerância, criticava o irracionalismo e defendia a difusão do conhecimento científico – baseado na experiência e na observação -, questionando a autoridade da Igreja, que até então era quem ditava as bases do conhecimento humano.

 

59. (Unesp 2011) Parece notícia velha, mas a ciência e o ensino da ciência continuam sob ataque. No portal ‘brasilescola.com’ há um texto de Rainer Sousa, da Equipe Brasil Escola, que discute a origem do homem. No final, o texto diz: “sendo um tema polêmico e inacabado, a origem do homem ainda será uma questão capaz de se desdobrar em outros debates. Cabe a cada um adotar, por critérios pessoais, a corrente explicativa que lhe parece plausível”. “Critérios pessoais” para decidir sobre a origem do homem? A religião como “corrente explicativa” sobre um tema científico, amplamente discutido e comprovado, dos fósseis à análise genética? Como é possível essa afirmação de um educador, em pleno século 21, num portal que leva o nome do nosso país e se dedica ao ensino?

(Marcelo Gleiser. Folha de S.Paulo, 13.02.2011. Adaptado.)

O pensamento de Marcelo Gleiser é expresso por meio de uma

a) perspectiva conciliatória entre religião e ciência acerca da origem do homem.

b) abordagem do conflito entre criacionismo e evolucionismo sob um ponto de vista liberal, defendendo a liberdade individual para escolher qual adotar.

c) pressuposição de que a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin é anacrônica e, portanto, inapropriada para explicar a origem do homem.

d) crítica da posição adotada pela Equipe Brasil Escola, por seu teor de irracionalismo.

e) pressuposição segundo a qual, no que tange à origem do homem, os critérios subjetivos devem prevalecer sobre os critérios empíricos.

Resposta:B

Marcelo Gleiser é um físico, um cientista e como tal é preciso e objetivo preocupando-se sempre na descoberta das regularidades existentes em determinados fatos e não fundamentando a busca de uma resposta uma, duas ou três teorias a cerca da explicação sobre a origem do ser humano como faz o educador que ele critica.

 

60. (Unesp 2011) Em 40 anos, nunca vi alguém se curar com a força do pensamento. Para mim, se Maomé não for à montanha, a montanha vir a Maomé é tão improvável quanto o Everest aparecer na janela da minha casa. A fé nas propriedades curativas da assim chamada energia mental tem raízes seculares. Quantos católicos foram canonizados porque lhes foi atribuído o poder espiritual de curar cegueiras, paraplegias, hanseníase e até esterilidade feminina? Quantos pastores evangélicos convencem milhões de fiéis a pagar-lhes os dízimos ao realizar façanhas semelhantes diante das câmeras de TV? Por que a energia emanada do pensamento positivo serve apenas para curar doenças, jamais para fazer um carro andar dez metros ou um avião levantar voo sem combustível? No passado, a hanseníase foi considerada apanágio dos ímpios; a tuberculose, consequência da vida desregrada; a AIDS, maldição divina para castigar os promíscuos. Coube à ciência demonstrar que duas bactérias e um vírus indiferentes às virtudes dos hospedeiros eram os agentes etiológicos dessas enfermidades. Acreditar na força milagrosa do pensamento pode servir ao sonho humano de dominar a morte. Mas, atribuir a ela tal poder é um desrespeito aos doentes graves e à memória dos que já se foram.

(Drauzio Varella. Folha de S.Paulo, 09.06.2007. Adaptado.)

O pensamento do autor, sob o ponto de vista filosófico, pode ser corretamente caracterizado como

a) compatível com os pressupostos mecanicistas e cartesianos da ciência.

b) uma visão para a qual a fé na força milagrosa do pensamento apresenta a propriedade de curar doenças.

c) uma visão holística, de acordo com a qual a mobilização das energias mentais pode influenciar positivamente organismos enfermos e possibilitar a restituição da saúde.

d) uma visão cética no que se refere ao progresso da ciência.

e) compatível com concepções teológicas emitidas por líderes religiosos católicos e evangélicos.

Resposta:A

Para René Descartes (1596-1650) os fenômenos mentais não têm extensão no espaço nem localização. As principais atividades da mente são recordar, raciocinar, conhecer e querer e não emanar energias positivas, curar doenças, fazer aparecer e desaparecer coisas como menciona o médico Drauzio Varella. Descartes crê que o pensamento não se submete às leis físicas, mas por outro lado, são o lugar da liberdade.

 

61. (Unesp 2011) “A inclinação para o ocultismo é um sintoma da regressão da consciência. A tendência velada da sociedade para o desastre faz de tolas suas vítimas com falsas revelações e fenômenos alucinatórios. O ocultismo é a metafísica dos parvos.

Procurando no além o que perderam, as pessoas dão de encontro apenas com sua própria nulidade”.

(Theodor Adorno, filósofo alemão, 1947. Adaptado.)

“Ilumine seus caminhos e encontre a paz espiritual com Dona Márcia, espírita conceituada com fortes poderes. Corta mau-olhado, inveja, demandas, feitiçaria. Desfaz amarrações, faz simpatia para o amor, saúde, negócios, empregos, impotência e filhos problemáticos. Seja qual for o seu problema, em uma consulta, ela lhe dará orientação espiritual para resolver o seu problema”.

(Panfleto distribuído nas ruas do centro de uma cidade brasileira.)

Assinale a alternativa correta.

a) Os dois textos evidenciam que, em nossa sociedade, prevalece o apelo racional na resolução de problemas pessoais.

b) O texto do filósofo Adorno aborda o ocultismo sob uma perspectiva crítica.

c) De acordo com o filósofo Adorno, a espiritualidade permite a elevação da consciência.

d) Nos dois textos predomina a irracionalidade na abordagem da relação entre mundo material e mundo espiritual.

e) Os dois textos enfatizam a importância da espiritualidade na vida das pessoas.

Resposta:B

Somente a alternativa B está correta porque o texto de Adorno tem sentido oposto ao do panfleto, contradizendo, assim, as alternativas A, D e E. A alternativa C enxerga equivocadamente uma defesa da espiritualidade no texto de Adorno, quando na verdade o filósofo critica este tipo de pensamento.

 

62. (Unesp 2011) Crianças que passam o dia sob controle de pais, babás e professores, com a agenda lotada de atividades, agora têm também suas brincadeiras da hora de recreio dirigidas por adultos.

Cada vez mais colégios particulares adotam o chamado “recreio dirigido”, na tentativa de resgatar formas saudáveis de brincar em grupos. Alguns educadores, porém, temem que a prática se torne mais uma maneira de controlar uma geração que já desfruta de pouca autonomia. Em uma das escolas, “o objetivo é melhorar a integração, desenvolver a autonomia”, diz a orientadora do colégio. Para uma antropologa, esse tipo de proposta acaba podando a iniciativa das crianças. “Elas estão sempre sendo direcionadas, ficam esperando que alguém diga o que é melhor fazer, perdem autonomia”.

(Luciana Alvarez. O Estado de S.Paulo, 13.02.2011. Adaptado.)

Sobre o texto, é correto afirmar:

a) Os profissionais da área pedagógica possuem critérios consensuais para definir os meios mais adequados para desenvolver a autonomia das crianças.

b) Os críticos do recreio dirigido apontam riscos de heteronímia, implícitos nessa prática pedagógica.

c) A prática adotada pelos colégios particulares pressupõe uma rígida demarcação entre atividades de aprendizagem e atividades lúdicas.

d) As escolas abordadas na reportagem evidenciam uma dedicação especializada nas dimensões intelectuais do processo de aprendizagem, em detrimento dos aspectos emocionais.

e) O recreio dirigido é criticado por alguns profissionais por seu teor de enfraquecimento da escola como instituição de controle.

Resposta:B

Etimologicamente falando, heteronomia (do grego héteros = outro + nomos = lei), ou seja, a lei imposta ou estabelecida pelo outro o que acaba dificultando, segundo a autora do artigo as crianças estabelecerem sozinhas suas formas de convivência no momento do recreio que é sob o peso da heteronomia, um “recreio dirigido”. A autonomia (do grego autós = próprio + nomos = lei), ou seja, lei própria promove a interiorização de regras e normas das quais a criança já interiorizou e passa a se comportar de acordo com elas sem que ninguém lhes diga o que tenham de fazer.

 

63. (Unesp 2011) A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram. Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria?

Considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre “sabem” qual é a felicidade “certa” para seus sujeitos.

Juram que querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social – claro, é a mesma felicidade para todos.

É isso que você quer?

(Contardo Calligaris. Folha de S.Paulo, 10/06/2010. Adaptado.)

Sobre esse texto, é correto afirmar que:

a) Ao discorrer sobre a felicidade, o autor elege como foco a autonomia do indivíduo.

b) A felicidade é assunto público e por isso pode e deve ser orientada por critérios objetivos definidos pelo Estado.

c) O critério moral e religioso é o mais adequado para reger o comportamento dos indivíduos.

d) O bem-estar e a felicidade pessoal não devem ser assuntos restritos ao livre arbítrio individual.

e) Para o autor, a busca da felicidade não deve se subordinar ao relativismo das escolhas.

Resposta:A

A alternativa A é a única correta. Deste modo, ela nega a afirmação da alternativa B, uma vez que a intervenção do Estado na busca pela felicidade é uma interferência sobre a autonomia dos indivíduos. Da mesma maneira, as alternativas C, D e E estão incorretas, pois todas apreendem justamente o sentido inverso daquele proposto pelo autor, qual seja, a necessidade de liberdade aos indivíduos no que se refere à busca pela felicidade, pois numa sociedade na qual convivem pessoas das mais variadas orientações religiosas ou filosóficas e com as mais diferentes visões de mundo, a imposição, pelo Estado, de um único modelo de felicidade e de um único critério, uma única orientação para a sua busca, atenta contra as liberdades individuais.

 

64. (Unesp 2010) Em 399 a.C., o filósofo Sócrates é acusado de graves crimes por alguns cidadãos atenienses. (…) Em seu julgamento, segundo as práticas da época, diante de um júri de 501 cidadãos, o filósofo apresenta um longo discurso, sua apologia ou defesa, em que, no entanto, longe de se defender objetivamente das acusações, ironiza seus acusadores, assume as acusações, dizendo-se coerente com o que ensinava, e recusa a declarar-se inocente ou pedir uma pena. Com isso, ao júri, tendo que optar pela acusação ou pela defesa, só restou como alternativa a condenação do filósofo à morte.

(Danilo Marcondes. Iniciação à História da Filosofia, 1998. Adaptado.)

Com base no texto apresentado, explique quais foram os motivos da condenação de Sócrates à morte.

Resposta:

 É importante, antes de mencionar os motivos pelos quais condenaram Sócrates à morte, dizer que quando falava, era dono de um estranho fascínio. Requisitado por muitos jovens, passava horas discutindo na praça pública, assim, interpelava a todos assumindo ser ignorante e fazia perguntas aos que julgavam entender sobre um determinado assunto colocando qualquer um em tal situação que não havia um outro jeito a não ser reconhecer sua própria ignorância. Com isso Sócrates além de discípulos, conseguiu inúmeros inimigos. Sócrates foi acusado de corromper a mocidade e desconhecer os deuses da cidade, por isto, foi condenado à morte. A história de sua condenação, defesa e morte é contada num dos mais belos diálogos de Platão, Apologia de Sócrates.

 

65. (Unesp 2010) Em 19 de fevereiro de 1616, o Santo Ofício passou aos seus teólogos as duas proposições que resumiam o núcleo da questão para que fossem examinadas. As duas proposições eram as seguintes: a) ‘Que o Sol é o centro do mundo, sendo consequentemente imóvel de movimento local’. b) ‘Que a Terra não está no centro do mundo nem é imóvel, mas move-se por si mesma’. Cinco dias depois, todos os teólogos de acordo, sentenciaram que a primeira proposição era tola e absurda em filosofia e formalmente herética, enquanto contrastava com as sentenças da Sagrada Escritura em seu significado literal e segundo a exposição comum dos Santos Padres e dos doutores em teologia.

(Reale e Antiseri. História da Filosofia, 2000. Adaptado.)

O texto descreve os motivos que levaram à condenação do filósofo Galileu Galilei por uma instituição religiosa. Responda qual foi a instituição que o condenou e explique os motivos dessa condenação.

Resposta:

 Galileu Galilei (1564-1642), italiano, físico, matemático e filósofo, lecionou nas universidades de Pisa e Pádua. Escreveu O ensaidor, Diálogos sobre os dois máximos sistemas do mundo e Discurso sobre duas novas ciências. Foi responsável pela superação do aristotelismo quanto a questão do movimento estabelecendo uma diferença entre movimento qualitativo e quantitativo. Enquanto Aristóteles via qualidades (corpos pesados e leves), Galileu descobre relações e funções. Sua vida foi marcada pela perseguição política e religiosa por defender a substituição do modelo ptolomaico do mundo (geocentrismo) pelo modelo copernicano (heliocentrismo), deste modo, tais pensamentos iram contra a interpretação literal da Bíblia pela Igreja Católica, onde a Terra era, até então, o centro do Universo. Por defender o heliocentrismo foi condenado pela Inquisição – dedicada, sobretudo a supressão da heresia no seio da Igreja Católica – , seus livros foram proibidos a não ser nos países convertidos pelo protestantismo e foi pela mesma obrigado a abjurar publicamente suas ideias, sendo confinado em prisão domiciliar a partir de 1633.

 

66. (Unesp 2010) Segundo John Locke, filósofo britânico do século XVII, a mente humana é como uma tábula rasa, uma folha em branco na qual a experiência deixa suas marcas. Responda a qual escola filosófica ele pertenceu e explique duas de suas características.

Resposta:

 John Locke está junto Thomas Hobbes, George Berkeley e David Hume entre as figuras mais famosas e conhecidas da filosofia inglesa dos séculos XVI e XVIII, por isso eram chamados de empiristas ingleses. Na verdade, o empirismo é uma característica muito marcante da filosofia inglesa. Na Idade Média, por exemplo, temos Roger Bacon e Guilherme de Ockham e mais próximos de nós Bertrand Russel. Os empiristas afirmam que a razão, com seus princípios, seus procedimentos e suas ideias, é adquirida por nós pela experiência. Em grego, experiência se diz empeiria, donde, empirismo, conhecimento empírico, isto é, conhecimento adquirido por meio da experiência.

Duas características do empirismo:

1-Nossos conhecimentos começam com a experiência dos sentidos, isto é, com as sensações. Os objetos exteriores excitam nossos sentidos e vemos cores, sentimos sabores e odores, ouvimos sons, sentimos a diferença entre o áspero e o liso, o quente e o frio, etc.

2- As ideias trazidas pela experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelo hábito, são levadas à memória e, de lá, a razão as apanha para formar os pensamentos.

 

 

67. (Unesp 2010) “Em algum remoto rincão do sistema solar cintilante em que se derrama um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais inteligentes inventaram o conhecimento.

Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela boia no ar […] e sente em si o centro voante deste mundo”.

(NIETZSCHE. O Livro das Citações, 2008.)

Sobre o texto, é correto afirmar que:

a) Seu teor acerca do lugar da humanidade na história do universo é antropocêntrico.

b) O autor revela uma visão de mundo cristã.

c) O autor apresenta uma visão cética acerca da importância da humanidade na história do universo.

d) Ao comparar a vida humana com a vida de uma mosca, Nietzsche corrobora os fundamentos de diversas teologias, não se limitando ao ponto de vista cristão.

e) Para o filósofo, a vida humana é eterna.

Resposta:C

A alternativa C é a única correta, pois a citação demonstra que Nietzsche critica justamente o antropocentrismo, isto é, a visão na qual o Homem ocupa o centro das atenções em relação não só à Natureza, mas também em relação ao Universo (alternativa A). Do mesmo modo, o autor não poderia revelar aí uma visão de mundo cristã (alternativa B), pois esta também é antropocêntrica. A comparação da vida humana com a vida de uma mosca (alternativa D) serve não para contemplar outras teologias, mas sim para demonstrar a relatividade da importância da vida humana. Por fim, a alternativa E é desmentida na seguinte passagem: “Houve eternidades em que ele (o intelecto humano) não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido”.

 

68. (Unesp 2010) Nas Grandes Antilhas, alguns anos após a Descoberta da América, enquanto os espanhóis enviavam comissões de investigação para indagar se os indígenas possuíam ou não alma, estes últimos dedicavam-se a afogar os brancos feitos prisioneiros para verificarem através de uma investigação prolongada se o cadáver daqueles estava ou não sujeito à putrefação. Esta anedota simultaneamente barroca e trágica ilustra bem o paradoxo do relativismo cultural: é na própria medida em que pretendemos estabelecer uma discriminação entre as culturas e os costumes, que nos identificamos mais completamente com aqueles que pretendemos negar.

Recusando a humanidade àqueles que surgem como os mais ‘selvagens’ ou ‘bárbaros’ dos seus representantes, mais não fazemos que copiar-lhes suas atitudes típicas. O bárbaro é em primeiro lugar o homem que crê na barbárie.

(Claude Lévi-Strauss. Raça e História, 1987.)

Considerando o texto do antropologo Lévi-Strauss, responda se os critérios que definem o grau de progresso de determinada civilização ou cultura são absolutos ou relativos.

Explique o conceito de “bárbaro” para o autor e indique as implicações de seu pensamento para a análise da justificação ideológica da dominação da civilização ocidental sobre outras civilizações na história.

Resposta:

 Os critérios são relativos porque respondem a uma visão unilateral quanto aos valores culturais ocidentais. Para o autor a verdadeira “barbárie” consiste em não aceitar uma determinada cultura em prol de uma visão ocidental e supostamente civilizatória. O conceito de “bárbaro”, relaciona-se, na concepção de Lévi-Strauss na não aceitação da contradição. A noção de civilização implica a superação das diferenças em prol de um entendimento e interpretação de diversas culturas, propiciando, desta maneira, a supremacia da ideologia ocidental.

 

69. (Unesp 2010) O cônsul do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, afirmou que a tragédia em seu país “está sendo boa” para que os haitianos fiquem mais conhecidos no Brasil. O diplomata não sabia que estava sendo filmado. As imagens apareceram em reportagem do telejornal SBT Brasil, na noite de quinta-feira (14). “A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido”, disse o cônsul. Antoine atribuiu o desastre em seu país a maldições: “Acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo… O africano em si tem maldição”. Depois de criticar as religiões africanas, Antoine aparece, durante a entrevista, segurando um terço. “Esse terço nós usamos porque dá energia positiva, acalma as pessoas. Como estou muito tenso, deprimido com o negócio do Haiti, a gente fica mexendo com vários para se acalmar”, afirmou o cônsul. Na mesa, há outro terço além do que ele está segurando.

(Revista Época, 15.01.2010. Adaptado.)

Assinale a alternativa correta.

a) As declarações do cônsul do Haiti transmitem uma visão positiva sobre valores e práticas culturais de origem africana.

b) A crítica de Antoine às religiões africanas expressa uma visão de mundo marcada pela tolerância religiosa.

c) O ponto de vista do cônsul pode ser caracterizado como uma visão de mundo racionalista.

d) Para o cônsul, a explicação dos motivos que provocaram o terremoto no Haiti relaciona-se exclusivamente com causas físicas, excluindo possíveis intervenções de entidades religiosas.

e) As declarações do cônsul haitiano revelam uma concepção mística sobre a realidade.

Resposta:E

Junto com a Filosofia a concepção mística da realidade é uma das formas que a humanidade se utiliza para explicar o mundo. As declarações do cônsul do Haiti primeiramente revelam a crença profunda de que a prática da religiosidade do povo haitiano através religiões africanas tivesse provocado uma maldição ao Haiti em forma de terremoto o que exclui a questão D como verdadeira e depois, segundo ele mesmo, na importância desta tragédia em manipular a mídia brasileira a fim de que seu país ficasse mais conhecido.

 

 

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:

Texto 1

“Agora que as paixões acalmaram, volto à proibição do fumo em ambientes fechados, aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Incrível como esse tema ainda gera discussões acaloradas. Como é possível considerar a proibição de fumar nos lugares em que outras pessoas respiram uma afronta à liberdade individual? As evidências científicas de que o fumante passivo também fuma são tantas e tão contundentes que os defensores do direito de encher de fumaça restaurantes e demais espaços públicos só podem fazê-lo por duas razões: ignorância ou interesse financeiro. Sinceramente, não consigo imaginar terceira alternativa’.

(VARELLA, Drauzio. “O fumo em lugares fechados”. Folha de S.Paulo, 25/04/2009.)

Texto 2

 

“Típico do espírito fascista é seu amor puritano pela ‘humanidade correta’ ao mesmo tempo em que detesta a diversidade promíscua dos seres humanos. Por isso sua vocação para ideia de ‘higiene científica e política da vida’: supressão de hábitos ‘irracionais’, criação de comportamentos ‘que agregam valor político, científico e social’. O imperativo “seja saudável” pode adoecer uma pessoa. Na democracia o fascismo pode ser invisível como um vírus. Quer um exemplo da contaminação? Votemos uma lei: mesmo em casa não se pode fumar. Afinal, como ficam os pulmões dos vizinhos? Que tal uma campanha nas escolas para as crianças denunciarem seus pais fumantes?”

(PONDÉ, Luis Felipe. “O vírus fascista”. Folha de S.Paulo, 22/09/2008.)

 

70. (Unesp 2010) Confrontando o conteúdo dos dois textos, assinale a alternativa correta.

a) Para os dois autores, é correta a existência de uma lei que proíbe o fumo em lugares fechados, pois ambos baseiam-se em argumentos de natureza política e filosófica.

b) O primeiro texto ampara-se em argumentos científicos, e o segundo, em argumentos de natureza política e filosófica.

c) Para o autor do segundo texto, o fascismo é um fenômeno superado da história, e por isso incompatível com sociedades democráticas.

d) Para o autor do segundo texto, argumentos de base científica prevalecem sobre argumentos de base política e filosófica.

e) Os dois textos apresentam visões contrastantes sobre a proibição do fumo, sendo que ambos baseiam seus argumentos sob um ponto de vista científico.

Resposta:B

A resposta correta é a alternativa B, porque os dois autores lançam mão de argumentos de naturezas distintas, defendendo pontos de vistas contrários. Ambas as visões são fundamentadas em valores bastante caros ao pensamento ocidental. Não obstante, se contrapõem. O primeiro texto, escrito por um médico, mobiliza conhecimentos científicos sobre os malefícios do cigarro para a saúde para questionar aqueles que se opõem à proibição do fumo em lugares públicos e fechados. O segundo, escrito por um filósofo, tenta acionar valores como a liberdade individual para questionar tal lei e infere, ademais, um questionamento político, ao sugerir um suposto caráter ditatorial escondido em medidas obtidas por vias democráticas.

 

71. (Unesp 2010) De acordo com os dois textos, pode-se concluir que:

a) a filosofia é uma área do conhecimento que compartilha dos mesmos critérios que a ciência.

b) no texto 2, o “amor puritano pela humanidade correta” é compatível com a “diversidade promíscua dos seres humanos”.

c) segundo os dois autores, fumar ou não fumar é problema ético, não relacionado com políticas estatais de saúde pública.

d) para o autor do texto 2, inexistem critérios universais e absolutos que possam regular o comportamento ético dos indivíduos.

e) para os dois autores, a vida saudável é um imperativo a ser priorizado sob quaisquer circunstâncias.

Resposta:D

A leitura dos textos do Doutor Drauzio Varella sobre o fumo em lugares fechados e do filósofo Luis Felipe Pondé, sobre o vírus fascista, permite-nos uma reflexão sobre a moral. O conjunto de normas que orientam o comportamento humano tende sempre como base os valores próprios a uma dada comunidade ou cultura o que nos permite concluir ser correta a questão “D”, uma vez que no espaço e no tempo, as comunidades humanas podem ser distintas umas das outras, o que origina códigos morais diferentes. Enquanto Doutor Drauzio não vê mais que duas alternativas possíveis – ainda que defendendo a proibição do fumo em lugares públicos – o filósofo Luis Felipe Pondé não crê num comportamento moral universal exatamente porque a ação moral somente tem sentido quando exercida na liberdade, ou seja, quando não há coação na pratica de uma ação propiciando a capacidade humana de decidir com consciência entre o bem e o mal.

 

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:

Texto 1

 Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para um outro. Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte seria um maravilhoso presente. […] Se, ao contrário, a morte é como uma passagem deste para outro lugar, e, se é verdade o que se diz que lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir, ó juízes, maior do que este? Porque, se chegarmos ao Hades, libertando-nos destes que se vangloriam serem juízes, havemos de encontrar os verdadeiros juízes, os quais nos diria que fazem justiça acolá: Monos e Radamante, Éaco e Triptolemo, e tantos outros deuses e semideuses que foram justos na vida; seria então essa viagem uma viagem de se fazer pouco caso? Que preço não seríeis capazes de pagar, para conversar com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero?

(Platão. Apologia de Sócrates, 2000.)

Texto 2

 Ninguém sabe quando será seu último passeio, mas agora é possível se despedir em grande estilo. Uma 300C Touring, a versão perua do sedã de luxo da Chrysler, foi transformada no primeiro carro funerário customizado da América Latina. A mudança levou sete meses, custou R$ 160 mil e deixou o carro com oito metros de comprimento e 2 340 kg, três metros e 540 kg além da original.

O Funeral Car 300C tem luzes piscantes na já imponente dianteira e enormes rodas, de aro 22, com direito a pequenos caixões estilizados nos raios. Bandeiras nas pontas do capô, como nos carros de diplomatas, dão um toque refinado. Com o chassi mais longo, o banco traseiro foi mantido para familiares acompanharem o cortejo dentro do carro. No encosto dos dianteiros, telas exibem mensagens de conforto. O carro faz parte de um pacote de cerimonial fúnebre que inclui, além do cortejo no Funeral Car 300C, serviços como violinistas e revoada de pombas brancas no enterro.

(Funeral tunado. Folha de S.Paulo, 28.02.2010.)

 

72. (Unesp 2010) Após análise dos dois textos, pode-se afirmar que:

a) o texto 1 é de natureza fictícia, e portanto não baseado em fatos históricos.

b) Platão não apela a entidades míticas para justificar sua concepção positiva sobre a morte.

c) Platão faz alusão a um fato histórico fundamental para a filosofia ocidental: as circunstâncias da morte de Sócrates.

d) o texto 2 trata do caráter sagrado e religioso dos funerais em nossa sociedade.

e) o texto 1 evidencia que a morte não é um tema filosófico.

Resposta:C

O esclarecimento das circunstâncias da morte de Sócrates foi de fundamental importância para a história da Filosofia Ocidental. Por ser considerado subversivo, representou uma ameaça social, pois desrespeitava a ordem estabelecida e mesmo interessado na prática da virtude e na busca da verdade dirigiu sua atenção para as pessoas sem fazer distinção da condição social. Segundo o texto em questão, é o mundo invisível, ou seja, no mundo das Ideias que contam mais do que a vida.

 

73. (Unesp 2010) Confrontando o conteúdo dos dois textos, pode-se afirmar que:

a) embora os dois textos transmitam concepções divergentes acerca da morte, eles tratam de visões concernentes à mesma época, a saber, a sociedade atual.

b) sob o ponto de vista filosófico, não há diferenças qualitativas entre uma e outra concepção sobre a morte.

c) os comentários do texto grego sobre a morte são coerentes com uma filosofia de forte valorização do corpo em detrimento da alma, e do mundo sensível sobre o mundo inteligível.

d) o texto de Platão evidencia uma cultura monoteísta, enquanto que o segundo é politeísta.

e) enquanto no primeiro texto transparece a dignidade metafísica da morte, no segundo sugere-se a conversão do funeral em espetáculo da sociedade de consumo.

Resposta:E

Platão, autor deste primeiro texto, é, se pudermos dizer em uma palavra, representante do pensamento dualista que admite a existência de dois mundos: o mundo das ideias imutáveis, eternas e o mundo das aparências sensíveis, mutáveis o que anula imediatamente a questão C. Ao pensarmos o mundo das ideias de Platão, necessariamente notamos o único mundo verdadeiro uma vez que o mesmo admite uma certa realidade do mundo sensível exatamente porque participa do mundo das ideias do qual é uma cópia ou, mais precisamente, uma sombra. Um belo animal, por exemplo, só é belo porque participa da Beleza em si. Deste modo a visão metafísica da morte apresentado por Platão como um “sono que conduz a alma para outro lugar” está ligada à doutrina das Ideias, quer dizer, a esperança da imortalidade da alma que é feita para as Ideias – visto que sua união com o corpo é acidental e assustadora – viaja para conversar com os deuses.

O segundo texto, de natureza jornalística, descreve, diferentemente de Platão a morte como um evento lucrativo, requintado e pomposo. A sociedade neoliberal permite que a indústria da propaganda explore não só a erotização do amor, bem como a morte que é colocada como um objeto a ser usado no meio lucrativo da venda. O respeito pela morte é negligenciado neste tipo de sociedade convertendo-se em um espetáculo de consumo.

 

 

ENEM – FILOSOFIA

1. (Enem PPL 2012) Assentado, portanto, que a Escritura, em muitas passagens, não apenas admite, mas necessita de exposições diferentes do significado aparente das palavras, parece-me que, nas discussões naturais, deveria ser deixada em último lugar.

 

GALILEI, G. Carta a Benedetto Castelli. In: Ciência e fé: cartas de Galileu sobre o acordo do sistema copernicano com a Bíblia. São Paulo: Unesp, 2009. (adaptado)
 

O texto, extraído da carta escrita por Galileu (1564-1642) cerca de trinta anos antes de sua condenação pelo Tribunal do Santo Oficio, discute a relação entre ciência e fé, problemática cara no século XVII. A declaração de Galileu defende que

a) a bíblia, por registrar literalmente a palavra divina, apresenta a verdade dos fatos naturais, tornando-se guia para a ciência.

b) o significado aparente daquilo que é lido acerca da natureza na bíblia constitui uma referência primeira.

c) as diferentes exposições quanto ao significado das palavras bíblicas devem evitar confrontos com os dogmas da Igreja.

d) a bíblia deve receber uma interpretação literal porque, desse modo, não será desviada a verdade natural.

e) os intérpretes precisam propor, para as passagens bíblicas, sentidos que ultrapassem o significado imediato das palavras.

 

Resposta: E

Galileu era não só um sujeito capaz da mais convincente retórica, como também um sujeito capaz das afirmações mais difíceis. Perante o forte discurso religioso – forte, porém inapropriado para a ciência –, Galileu cumpriu a delicada tarefa de afirmar uma ciência nova baseada puramente na matemática, distante da fé e de qualquer autoridade que não fosse a experiência.

“E talvez tenha ocorrido em Siena o efetivo pronunciamento do famoso Eppur si muove. Vejamos que história é essa. Segundo dois livros de meados do século XVIII, logo depois de abjurar, Galileu teria dito “E, no entanto, se move”, referindo-se ao movimento da Terra que acabara de renegar. Os estudiosos sempre acharam esse rompante impossível, ou porque não haveria testemunhas favoráveis para registrá-lo ou porque Galileu saberia das terríveis consequências de tal gesto, se fosse percebido por um inquisidor. Porém, o restauro em 1911 de um quadro espanhol de 1643, no qual aparece inscrita aquela frase, mostra que a história quase certamente já era divulgada com Galileu ainda vivo. E é bastante possível que ele tenha altiva e jocosamente pronunciado tal afirmação numa das recepções de Picolomini”. (P. R. Mariconda & J. Vasconcelos. Galileu – e a nova Física. In Coleção Imortais da ciência. São Paulo: Odysseus Editora, 2006, p. 184)

 

2. (Enem PPL 2012) O homem natural é tudo para si mesmo; é a unidade numérica, o inteiro absoluto, que só se relaciona consigo mesmo ou com seu semelhante. O homem civil é apenas uma unidade fracionária que se liga ao denominador, e cujo valor está em sua relação com o todo, que é o corpo social. As boas instituições sociais são as que melhor sabem desnaturar o homem, retirar-lhe sua existência absoluta para dar-lhe uma relativa, e transferir o eu para a unidade comum, de sorte que cada particular não se julgue mais como tal, e sim como uma parte da unidade, e só seja percebido no todo.

ROUSSEAU, J. J. Emílio ou da Educação. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

A visão de Rousseau em relação à natureza humana, conforme expressa o texto, diz que

a) o homem civil é formado a partir do desvio de sua própria natureza.

b) as instituições sociais formam o homem de acordo com a sua essência natural.

c) o homem civil é um todo no corpo social, pois as instituições sociais dependem dele.

d) o homem é forçado a sair da natureza para se tornar absoluto.

e) as instituições sociais expressam a natureza humana, pois o homem é um ser político.

 

Resposta: A

Somente a alternativa [A] está correta. O homem civil, segundo o texto de Rousseau, corresponde àquele que, desviando de sua própria natureza, se torna um indivíduo relacional à comunidade política.

Se fizéssemos um exercício de completa abstração e pensássemos unicamente a partir do ponto de vista do “homem natural”, então poderíamos dizer que a sua “transformação” em homem civil seja um desvio. Porém, Rousseau não dá a entender que tal passagem para a vida civil seja simplesmente um artifício, um desvio da rota natural. Segundo um trecho de sua obra, Contrato Social, a passagem é inevitável para a própria conservação do homem e, portanto, um tanto natural, isto é, ela se cria pelo movimento da própria natureza do homem.

“Esse estado primitivo não pode mais subsistir, e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser. Ora, como é impossível aos homens engendrar novas forças, mas apenas unir e dirigir as existentes, não lhes resta outro meio para se conservarem senão formar, por agregação, uma soma de forças que possa vencer a resistência, pô-los em movimento por um único móbil e fazê-los agir em concerto”. (J-J. Rousseau. Contrato social. In Antologia de textos filosóficos. Curitiba: SEED-PR, 2009, p. 602).

 

3. (Enem 2015) A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.

NIETZSCHE. F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural. 1999

O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos?a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.

b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.

c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes.

d) A ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.

e) A tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.

 

Resposta: C

Pode-se dizer que a filosofia grega, em seu início, esteve preocupada com a origem das coisas, em especial da natureza. É essa uma das características que Nietzsche diagnostica e que está bem destacada na afirmativa [C].

 

4. (Enem 2015) Ora, em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja diretamente o devido fim. Com efeito, um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao fim de destino, se por indústria do piloto não fosse dirigido ao porto; ora, tem o homem um fim, para o qual se ordenam toda a sua vida e ação. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanas comprova. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim.

AQUINO. T. Do reino ou do governo dos homens: ao rei do Chipre. Escritos políticos de São Tomás de Aquino. Petrópolis: Vozes, 1995 (adaptado).

No trecho citado, Tomás de Aquino justifica a monarquia como o regime de governo capaz de

a) refrear os movimentos religiosos contestatórios.

b) promover a atuação da sociedade civil na vida política.

c) unir a sociedade tendo em vista a realização do bem comum.

d) reformar a religião por meio do retorno à tradição helenística.

e) dissociar a relação política entre os poderes temporal e espiritual.

 

Resposta: C

Os homens, por si mesmos, não agem de forma homogênea. Assim, tomando a metáfora de um navio, Tomás de Aquino considera que a sociedade necessita de um piloto capaz de conduzir a todos a um mesmo fim: o bem comum.

 

5. (Enem 2015) Todo o poder criativo da mente se reduz a nada mais do que a faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos fornecem os sentidos e a experiência. Quando pensamos em uma montanha de ouro, não fazemos mais do que juntar duas ideias consistentes, ouro e montanha, que já conhecíamos. Podemos conceber um cavalo virtuoso, porque somos capazes de conceber a virtude a partir de nossos próprios sentimentos, e podemos unir a isso a figura e a forma de um cavalo, animal que nos é familiar.

HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1995.

Hume estabelece um vínculo entre pensamento e impressão ao considerar que

a) os conteúdos das ideias no intelecto têm origem na sensação.

b) o espírito é capaz de classificar os dados da percepção sensível.

c) as ideias fracas resultam de experiências sensoriais determinadas pelo acaso.

d) os sentimentos ordenam como os pensamentos devem ser processados na memória.

e) as ideias têm como fonte específica o sentimento cujos dados são colhidos na empiria.

 

Resposta: A

Hume, sendo empirista, considera que os pensamentos são produzidos pela associação de ideias obtidas pelas sensações do homem, tal como afirma corretamente a alternativa [A].

 

6. (Enem 2015) A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que um deles possa com base nela reclamar algum benefício a que outro não possa igualmente aspirar.

HOBBES, T. Leviatã. São Paulo Martins Fontes, 2003

Para Hobbes, antes da constituição da sociedade civil, quando dois homens desejavam o mesmo objeto, eles

a) entravam em conflito.

b) recorriam aos clérigos.

c) consultavam os anciãos.

d) apelavam aos governantes.

e) exerciam a solidariedade.

 

Resposta: A

Segundo Hobbes, os homens, em seu estado de natureza, permanecem em um constante conflito. É a constituição da cidade civil que irá por fim a esse estado de guerra de todos contra todos.

 

7. (Enem 2015) Trasímaco estava impaciente porque Sócrates e os seus amigos presumiam que a justiça era algo real e importante. Trasímaco negava isso. Em seu entender, as pessoas acreditavam no certo e no errado apenas por terem sido ensinadas a obedecer às regras da sua sociedade. No entanto, essas regras não passavam de invenções humanas.

RACHELS. J. Problemas da filosofia. Lisboa: Gradiva, 2009.

O sofista Trasímaco, personagem imortalizado no diálogo A República, de Platão, sustentava que a correlação entre justiça e ética é resultado de

a) determinações biológicas impregnadas na natureza humana.

b) verdades objetivas com fundamento anterior aos interesses sociais.

c) mandamentos divinos inquestionáveis legados das tradições antigas.

d) convenções sociais resultantes de interesses humanos contingentes.

e) sentimentos experimentados diante de determinadas atitudes humanas.

 

Resposta: D

O sofista Trasímaco defendia a ideia de que não haveria uma concepção ideal de justiça nos homens. Para ele, a justiça não seria, portanto, algo universal, mas resultado de regras aprendidas socialmente pelos homens. Tal visão é diametralmente diferente da concepção platônica de justiça.

 

8. (Enem 2014)

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No centro da imagem, o filósofo Platão é retratado apontando para o alto. Esse gesto significa que o conhecimento se encontra em uma instância na qual o homem descobre a

a) suspensão do juízo como reveladora da verdade.

b) realidade inteligível por meio do método dialético.

c) salvação da condição mortal pelo poder de Deus.

d) essência das coisas sensíveis no intelecto divino.

e) ordem intrínseca ao mundo por meio da sensibilidade.

 

Resposta:  B

Platão é conhecido como um filósofo idealista. Segundo ele, a verdade encontra-se no mundo das ideias, e não no mundo material. O pensamento somente pode se aproximar das ideias através da dialética, que o purifica das crenças e opiniões.

 

9. (Enem 2014) Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e não necessários; outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode ser facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação ou parecem geradores de dano.

EPICURO DE SAMOS. “Doutrinas principais”. In: SANSON, V. F. Textos de filosofia. Rio de Janeiro: Eduff, 1974.

No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem como fim

a) alcançar o prazer moderado e a felicidade.

b) valorizar os deveres e as obrigações sociais.

c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com resignação.

d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela divindade.

e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir o saber.

 

Resposta: A

A filosofia de Epicuro tem como um de seus princípios a moderação dos desejos e dos prazeres, tal como afirma a alternativa [A], única correta.

 

10. (Enem 2014) A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles, vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.

GALILEI, G. “O ensaiador”. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

No contexto da Revolução Científica do século XVII, assumir a posição de Galileu significava defender a:

a) continuidade do vínculo entre ciência e fé dominante na Idade Média.

b) necessidade de o estudo linguístico ser acompanhado do exame matemático.

c) oposição da nova física quantitativa aos pressupostos da filosofia escolástica.

d) importância da independência da investigação científica pretendida pela Igreja.

e) inadequação da matemática para elaborar uma explicação racional da natureza.

 

Resposta: C

A Revolução Científica do século XVII é caracterizada por questionar certos pressupostos da filosofia que a antecedia, sobretudo a escolástica. Galileu foi um dos principais pensadores do período e uma de suas ideias era de que a Terra não é o centro do Universo. Isso significava questionar verdades religiosas, procurando abrir espaço para a constituição da ciência moderna, ancorada na linguagem matemática.

 

11. (Enem 2014) É o caráter radical do que se procura que exige a radicalização do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente varridas por essa mesma dúvida.

SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: Moderna, 2001 (adaptado).

Apesar de questionar os conceitos da tradição, a dúvida radical da filosofia cartesiana tem caráter positivo por contribuir para o(a)

a) dissolução do saber científico.

b) recuperação dos antigos juízos.

c) exaltação do pensamento clássico.

d) surgimento do conhecimento inabalável.

e) fortalecimento dos preconceitos religiosos.

 

Resposta: D

A dúvida radical conduz o pensador à conclusão de que pensa, o cogito. Esta é, para Descartes, o conhecimento inabalável, princípio de todas as certezas. Sendo assim, somente a alternativa [D] está correta.

 

12. (Enem 2014) Panayiotis Zavos “quebrou” o último tabu da clonagem humana – transferiu embriões para o útero de mulheres, que os gerariam. Esse procedimento é crime em inúmeros países. Aparentemente, o médico possuía um laboratório secreto, no qual fazia seus experimentos. “Não tenho nenhuma dúvida de que uma criança clonada irá aparecer em breve. Posso não ser eu o médico que irá criá-la, mas vai acontecer”, declarou Zavos. “Se nos esforçarmos, podemos ter um bebê clonado daqui a um ano, ou dois, mas não sei se é o caso. Não sofremos pressão para entregar um bebê clonado ao mundo. Sofremos pressão para entregar um bebê clonado saudável ao mundo.”

CONNOR, S. Disponível em: http://www.independent.co.uk. Acesso em: 14 ago. 2012 (adaptado).

A clonagem humana é um importante assunto de reflexão no campo da bioética que, entre outras questões, dedica-se a

a) refletir sobre as relações entre o conhecimento da vida e os valores éticos do homem.

b) legitimar o predomínio da espécie humana sobre as demais espécies animais no planeta.

c) relativizar, no caso da clonagem humana, o uso dos valores de certo e errado, de bem e mal.

d) legalizar, pelo uso das técnicas de clonagem, os processos de reprodução humana e animal.

e) fundamentar técnica e economicamente as pesquisas sobre células-tronco para uso em seres humanos.

 

Resposta: A

A alternativa [A] é a única correta. Bioética corresponde ao campo de estudo que se coloca exatamente na interface entre a vida e a ética. Problemas como as pesquisas de célula-tronco, clonagem, manipulação genética, eutanásia e aborto põem em questão verdades morais dos seres humanos. As reflexões bioéticas tentam, exatamente, refletir sobre até que ponto é eticamente plausível de se interferir na vida ou não.

 

13. (Enem 2013) A felicidade é portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas a melhor, nós a identificamos como felicidade.

ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

Ao reconhecer na felicidade a reunião dos mais excelentes atributos, Aristóteles a identifica como

a) busca por bens materiais e títulos de nobreza.

b) plenitude espiritual a ascese pessoal.

c) finalidade das ações e condutas humanas.

d) conhecimento de verdades imutáveis e perfeitas.

e) expressão do sucesso individual e reconhecimento público.

 

Resposta: C

Aristóteles parte do senso comum para afirmar que todas as atividades humanas, pragmáticas ou teóricas, miram um bem qualquer, de modo que o bem pode ser definido como aquilo a que todas as ações tendem. Todavia, nem todas as atividades do homem tendem para o bem da mesma maneira, pois algumas ações são seus próprios fins e outras são meios através dos quais se atinge alguma finalidade desejada. O homem é capaz de muitas atividades e, por conseguinte, é capaz de atingir muitos fins. Alguns destes fins estão subordinados a outros – por exemplo, a finalidade da agricultura é a alimentação – e, consequentemente, se não podemos dizer que cultivamos apenas por cultivarmos, ao contrário podemos dizer que nos alimentamos apenas por nos alimentarmos. Entretanto, a questão é que poderíamos considerar todas as nossas atividades, até a alimentação, em função de outras, e o fim visado pela primeira tornar-se-ia o começo da segunda. Se assim considerássemos, a sequência seguiria infinitamente, nos fazendo transitar de uma ação para outra nunca nos tranquilizando. Ora, a atividade humana deve visar o bem tendo em vista aquela atividade mais excelente, o sumo bem. Conhecer tal sumo é, então, de grande importância, pois afetaria a maneira como agimos e facilitaria a realização da nossa felicidade nos dando um bom termo para nossas ações. Segundo o filósofo grego, a política é a arte mestra, pois é decisiva para a determinação dos conteúdos de todas as ciências, isto é, todos os conhecimentos se subordinam à finalidade da política; se considerarmos que o bem é a felicidade e o sumo bem é a felicidade de todos, então a política se torna a mais decisiva das ciências por ser a atividade que realiza o último fim, o sumo bem. Portanto, se a felicidade é a atividade da alma em conformidade com a virtude perfeita, e esta virtude perfeita é adquirida através de um bom hábito dirigido pela ciência política, então a felicidade é algo divino, pois ela é o que de melhor existe no mundo, ou seja, ela é a felicidade de todos os cidadãos atingida pela boa direção da alma de cada um.

 

14. (Enem 2013) Os produtos e seu consumo constituem a meta declarada do empreendimento tecnológico. Essa meta foi proposta pela primeira vez no início da Modernidade, como expectativa de que o homem poderia dominar a natureza. No entanto, essa expectativa, convertida em programa anunciado por pensadores como Descartes e Bacon e impulsionado pelo Iluminismo, não surgiu “de um prazer de poder”, “de um mero imperialismo humano”, mas da aspiração de libertar o homem e de enriquecer sua vida, física e culturalmente.

CUPANI, A. A tecnologia como problema filosófico: três enfoques, Scientiae Studia. São Paulo, v. 2, n. 4, 2004 (adaptado).

Autores da filosofia moderna, notadamente Descartes e Bacon, e o projeto iluminista concebem a ciência como uma forma de saber que almeja libertar o homem das intempéries da natureza. Nesse contexto, a investigação científica consiste em

a) expor a essência da verdade e resolver definitivamente as disputas teóricas ainda existentes.

b) oferecer a última palavra acerca das coisas que existem e ocupar o lugar que outrora foi da filosofia.

c) ser a expressão da razão e servir de modelo para outras áreas do saber que almejam o progresso.

d) explicitar as leis gerais que permitem interpretar a natureza e eliminar os discursos éticos e religiosos.

e) explicar a dinâmica presente entre os fenômenos naturais e impor limites aos debates acadêmicos.

 

Resposta: C

Em geral, a ciência estabelece um método de pesquisa racional que busca a construção coletiva de conhecimentos refletidos e seguros sobre a variedade da natureza, e, também, de conhecimentos esclarecedores sobre os fenômenos que nos parecem familiares. Sendo assim, a ciência possui uma base racional fundante a qual todo homem pode ter acesso e, desse modo, todos podem participar. Ela possui, além disso, como objeto de pesquisa a perplexidade do homem perante a variância de alguns fenômenos naturais e a permanência de outros, e como objetivo da pesquisa harmonizar estas diferenças em equilíbrios dinâmicos através de conceitos e sistemas de conceitos justificados da melhor maneira possível, isto é, pela construção de experimentos controlados e avaliações imparciais.

 

15. (Enem 2013) TEXTO I

Há já de algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto. Era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente a fim de estabelecer um saber firme e inabalável.

DESCARTES, R. Meditações concernentes à Primeira Filosofia. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado).

 

TEXTO II

É de caráter radical do que se procura que exige a radicalização do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente varridas por essa mesma dúvida.

SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: Moderna, 2001 (adaptado).

 

A exposição e a análise do projeto cartesiano indicam que, para viabilizar a reconstrução radical do conhecimento, deve-se

a) retomar o método da tradição para edificar a ciência com legitimidade.

b) questionar de forma ampla e profunda as antigas ideias e concepções.

c) investigar os conteúdos da consciência dos homens menos esclarecidos.

d) buscar uma via para eliminar da memória saberes antigos e ultrapassados.

e) encontrar ideias e pensamentos evidentes que dispensam ser questionados.

 

Resposta: B

Como exemplo da radicalidade indicada pelo prof. Franklin Leopoldo e Silva, vale mencionar que Descartes inicia a segunda meditação com a metáfora de um homem submerso, ele diz: “a meditação que fiz ontem encheu-me de tantas dúvidas, que doravante não está mais em meu alcance esquecê-las. E, no entanto, não vejo de que maneira poderia resolvê-las; e, como se de súbito tivesse caído em águas muito profundas, estou de tal modo surpreso que não posso nem firmar meus pés no fundo, nem nadar para me manter à tona”. Essa metáfora expõe um homem de mãos atadas; voltar para a situação anterior é impossível, porém manter-se no meio do caminho também. A única opção é manter-se trilhando o caminho da dúvida sistemática e generalizada, esperando desse modo alcançar algum ponto firme o suficiente para ser possível apoiar os pés, e nadar de volta para a superfície. Mantendo-se nesse caminho, o filósofo busca o ponto que irá inaugurar uma cadeia de razões da qual ele não poderá duvidar. O chão desse mar no qual o filósofo está submerso é esta única coisa da qual ele não pode duvidar, mesmo se o gênio maligno estiver operando. Tal certeza radical é a certeza sobre o fato de que se o gênio maligno perverte meus pensamentos, ele nunca poderia perverter o próprio fato de que eu devo estar pensando para que ele me engane. Penso, existo é a nova raiz que nutre a modernidade.

 

16. (Enem 2013) Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado que temido ou temido que amado. Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque dos homens se pode dizer, duma maneira geral, que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro, e enquanto lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está longe; mas quando ele chega, revoltam-se.

MAQUIAVEL, N. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.

A partir da análise histórica do comportamento humano em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem como um ser

a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem a si e aos outros.

b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para alcançar êxito na política.

c) guiado por interesses, de modo que suas ações são imprevisíveis e inconstantes.

d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-social e portando seus direitos naturais.

e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas com seus pares.

 

Resposta: C

Maquiavel é considerado fundador da filosofia política moderna, pois muitas das suas afirmações se contrapõem à filosofia política clássica. Basicamente, a sua reflexão se preocupa muito mais com problemas efetivos, e muito menos com reflexões utópicas sobre o dever ser. De modo que a eficiência deve ser buscada na pobreza mesma das nossas cidades como elas são, e não na possível riqueza das nossas cidades como elas poderiam ser.

“Resta ver agora como deve comportar-se um príncipe com os súditos ou com os amigos. Como sei que sobre isso muitos escreveram receio, fazendo-o eu também, ser considerado presunçoso, principalmente porque, ao tratar deste assunto, me afasto das regras estabelecidas pelos outros. Mas sendo minha intenção escrever coisa útil, destinada a quem por ela se interessar, pareceu-me mais conveniente ir diretamente à efetiva verdade do que comprazer-me em imaginá-la. Muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos ou de cuja real existência jamais se teve notícia. E é tão diferente o como se vive do como se deveria viver, que aquele que desatende ao que se faz e se atém ao que se deveria fazer aprende antes a maneira de arruinar-se do que a de preservar-se. Assim, o homem que queira em tudo agir como bom acabará arruinando-se em meio a tantos que não são bons”. (N. Maquiavel. O Príncipe. São Paulo: Círculo do livro, p. 101).

 

17. (Enem 2013) Para que não haja abuso, é preciso organizar as coisas de maneira que o poder seja contido pelo poder. Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos. Assim, criam-se os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, atuando de forma independente para a efetivação da liberdade, sendo que esta não existe se uma pessoa ou grupo exercer os referidos poderes concomitantemente.

MONTESQUIEU, B. Do espírito das leis. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (adaptado).

A divisão e a independência entre os poderes são condições necessárias para que possa haver liberdade em um Estado. Isso pode ocorrer apenas sob um modelo político em que haja

a) exercício de tutela sobre atividades jurídicas e políticas.

b) consagração do poder político pela autoridade religiosa.

c) concentração do poder nas mãos de elites técnico-científicas.

d) estabelecimento de limites aos atores públicos e às instituições do governo.

e) reunião das funções de legislar, julgar e executar nas mãos de um governante eleito.

 

Resposta: D

A liberdade não pode ser definida como a permissão de fazer tudo, mas sim apenas aquilo que se instituiu permitido através da Lei formulada por um legislador capaz. Ora, se todos pudessem fazer tudo que desejassem, pensa Montesquieu, então não haveria liberdade, pois todos abusariam constantemente dessa permissão de fazer tudo.

“A liberdade política, num cidadão, é esta tranquilidade de espírito que provém da opinião que cada um possui de sua segurança; e, para que se tenha esta liberdade, cumpre que o governo seja de tal modo, que um cidadão não possa temer outro cidadão”. (B. Montesquieu. Do espírito das Leis. In Coleção Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 169).

De modo que devemos considerar necessário um equilíbrio do poder para que não ocorra algum abuso dele, e a disposição das instituições deve se dar de tal maneira que os poderes se balanceiem. São livres, apenas os estados moderados, pois neles os poderes Legislativo, Executivo, Judiciário se contrapõem garantindo a integridade e autonomia de cada um, e a liberdade de todos os cidadãos.

 

18. (Enem 2013) Até hoje admitia-se que nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém todas as tentativas para descobrir, mediante conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento, malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento.

KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Calouste-Gulbenkian, 1994 (adaptado).

O trecho em questão é uma referência ao que ficou conhecido como revolução copernicana na filosofia. Nele, confrontam-se duas posições filosóficas que

a) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza do conhecimento.

b) defendem que o conhecimento é impossível, restando-nos somente o ceticismo.

c) revelam a relação de interdependência entre os dados da experiência e a reflexão filosófica.

d) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na primazia das ideias em relação aos objetos.

e) refutam-se mutuamente quanto à natureza do nosso conhecimento e são ambas recusadas por Kant.

 

Resposta: A

Primeiro, distingamos entre os tipos de juízos que Kant considera sermos capazes de fazer. Eles são três: 1) juízos analíticos (ou aqueles juízos nos quais já no sujeito encontramos o predicado, ou seja, juízos tautológicos e, por conseguinte, dos quais não se obtém nenhum tipo de conhecimento); 2) juízos sintéticos a posteriori (ou aqueles juízos nos quais a experiência sensível está presente e se faz parte decisiva do julgamento, ou seja, juízos particulares e contingentes); e 3) juízos sintéticos a priori (ou aqueles juízos nos quais o predicado não está contido no sujeito e a experiência não constitui alguma parte decisiva do conteúdo, ou seja, juízos nos quais se obtém conhecimento sobre algo, porém sem que a experiência seja relevante para a conclusão obtida, o que faz desse tipo de juízo universal e necessário).

Segundo, lembremos que Kant afirmava que a matemática e a física realizam justamente o último tipo de juízo mencionado. Ele, então, se perguntava se a metafísica também não era capaz de realizar esse tipo de juízo. Para solucionar esta questão: “é possível uma metafísica baseada em juízos sintéticos a priori?”, o filósofo irá modificar o ponto de vista da investigação se inspirando em Copérnico, isto é, considerando o objeto não através daquilo que a experiência sensível expõe, porém a partir da possibilidade de a faculdade mesma de conhecer constituir a priori o objeto – o astrônomo fez algo similar quando, em vez de calcular o movimento dos corpos celestes através dos dados da experiência sensível, calculou esses movimentos através da suposição de que o próprio observador (o homem sobre a Terra) se movia. Esse a priori que Kant formula se encontra nas formas da sensibilidade, nas categorias do entendimento e no esquematismo, isto é, na sua filosofia transcendental, ou na sua filosofia sobre as condições de possibilidade do próprio conhecimento.

 

19. (Enem 2013) O edifício é circular. Os apartamentos dos prisioneiros ocupam a circunferência. Você pode chamá-los, se quiser, de celas. O apartamento do inspetor ocupa o centro; você pode chamá-lo, se quiser, de alojamento do inspetor. A moral reformada; a saúde preservada; a indústria revigorada; a instrução difundida; os encargos públicos aliviados; a economia assentada, como deve ser, sobre uma rocha; o nó górdio da Lei sobre os Pobres não cortado, mas desfeito — tudo por uma simples ideia de arquitetura!

BENTHAM, J. O panóptico. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

Essa é a proposta de um sistema conhecido como panóptico, um modelo que mostra o poder da disciplina nas sociedades contemporâneas, exercido preferencialmente por mecanismos

a) religiosos, que se constituem como um olho divino controlador que tudo vê.

b) ideológicos, que estabelecem limites pela alienação, impedindo a visão da dominação sofrida.

c) repressivos, que perpetuam as relações de dominação entre os homens por meio da tortura física.

d) sutis, que adestram os corpos no espaço-tempo por meio do olhar como instrumento de controle.

e) consensuais, que pactuam acordos com base na compreensão dos benefícios gerais de se ter as próprias ações controladas.

 

Resposta: D

Bentham, filósofo utilitarista britânico, elabora uma teoria da pena e do cárcere que instauraria, em nome da segurança de todos e de suas liberdades individuais, uma vigilância técnica capaz de observar todos – tal noção é criticada pelo filósofo francês M. Foucault. Para o filósofo inglês

“O progresso é a lei da história da humanidade: essa, por adquirir mais conhecimentos e aperfeiçoar seus meios técnicos, adquire também mais riquezas e serenidade e, por conseguinte, maior felicidade e segurança. A felicidade e a segurança devidas à extensão das “luzes” – noções descobertas pelo século XVIII, com muita hesitação e dúvida – irão se tornar lugares-comuns no século seguinte. A crença na eficácia das ciências da natureza e de uma possível ciência da sociedade reforça tais ideias e lhes oferece uma legitimação”. (F. Châtelet, O. Duhamel, E. Pisier-Kouchner. História das ideias políticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, p.109).

 

20. (Enem 2013) Quando ninguém duvida da existência de um outro mundo, a morte é uma passagem que deve ser celebrada entre parentes e vizinhos. O homem da Idade Média tem a convicção de não desaparecer completamente, esperando a ressurreição. Pois nada se detém e tudo continua na eternidade. A perda contemporânea do sentimento religioso fez da morte uma provação aterrorizante, um trampolim para as trevas e o desconhecido.

DUBY, G. Ano 1000 ano 2000 na pista dos nossos medos. São Paulo: Unesp, 1998 (adaptado).

Ao comparar as maneiras com que as sociedades têm lidado com a morte, o autor considera que houve um processo de

a) mercantilização das crenças religiosas.

b) transformação das representações sociais.

c) disseminação do ateísmo nos países de maioria cristã.

d) diminuição da distância entre saber científico e eclesiástico.

e) amadurecimento da consciência ligada à civilização moderna.

 

Resposta: B

A crença na vida eterna é certamente um conforto que livra o homem das suas preocupações com a morte. O crente pode celebrar a morte como um momento de revelação e acolhimento. Todavia, se, por um lado, o crente não necessita temer a morte, porque ela é passagem para algo maior e melhor, por outro, ele necessita temer o julgamento que lhe condenará ou lhe inocentará. O homem contemporâneo pode não ter a crença na vida eterna, porém também não possui o fardo do pecado. As trevas e o desconhecido não são exatamente exclusividades nossas, e a morte pode ser também uma “provação aterrorizante” para o homem da Idade Média. As transformações de nossas crenças individuais não necessariamente modificaram com radicalidade nosso relacionamento com a morte.

 

21. (Enem 2012) TEXTO I

Anaxímenes de Mileto disse que o ar é o elemento originário de tudo o que existe, existiu e existirá, e que outras coisas provêm de sua descendência. Quando o ar se dilata, transforma-se em fogo, ao passo que os ventos são ar condensado. As nuvens formam-se a partir do ar por feltragem e, ainda mais condensadas, transformam-se em água. A água, quando mais condensada, transforma-se em terra, e quando condensada ao máximo possível, transforma-se em pedras.

BURNET, J. A aurora da filosofia grega. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006 (adaptado).

 

TEXTO II

Basílio Magno, filósofo medieval, escreveu: “Deus, como criador de todas as coisas, está no princípio do mundo e dos tempos. Quão parcas de conteúdo se nos apresentam, em face desta concepção, as especulações contraditórias dos filósofos, para os quais o mundo se origina, ou de algum dos quatro elementos, como ensinam os Jônios, ou dos átomos, como julga Demócrito. Na verdade, dão a impressão de quererem ancorar o mundo numa teia de aranha”.

GILSON, E.; BOEHNER, P. História da Filosofia Cristã. São Paulo: Vozes, 1991 (adaptado).

 

Filósofos dos diversos tempos históricos desenvolveram teses para explicar a origem do universo, a partir de uma explicação racional. As teses de Anaxímenes, filósofo grego antigo, e de Basílio, filósofo medieval, têm em comum na sua fundamentação teorias que

a) eram baseadas nas ciências da natureza.

b) refutavam as teorias de filósofos da religião.

c) tinham origem nos mitos das civilizações antigas.

d) postulavam um princípio originário para o mundo.

e) defendiam que Deus é o princípio de todas as coisas.

 

Resposta: D

Anaxímenes de Mileto (585–528 a.C.) é um filósofo pré-socrático preocupado com a cosmologia, isto é, preocupado com a ordenação das coisas que compões o mundo. Desse modo, a sua filosofia posiciona princípios dos quais ele pensa poder derivar de maneira coerente e coesa o sentido da existência de tudo que há na natureza. Já São Basílio Magno (329–379 d.C.) é um teólogo preocupado com a propagação da verdade revelada pela Bíblia, o livro que já oferece toda a ordenação das coisas que compõem o mundo. Desse modo, Deus não é exatamente um princípio do qual se origina o mundo, mas sim o próprio criador desse mundo, o seu dono e conhecedor de todas as suas regras cosmológicas.

 

22. (Enem PPL 2012) Pode-se viver sem ciência, pode-se adotar crenças sem querer justificá-las racionalmente, pode-se desprezar as evidências empíricas. No entanto, depois de Platão e Aristóteles, nenhum homem honesto pode ignorar que uma outra atitude intelectual foi experimentada, a de adotar crenças com base em razões e evidências e questionar tudo o mais a fim de descobrir seu sentido último.

ZINGANO, M. Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia. São Paulo: Odysseus, 2002.

Platão e Aristóteles marcaram profundamente a formação do pensamento Ocidental. No texto, é ressaltado importante aspecto filosófico de ambos os autores que, em linhas gerais, refere-se à

a) adoção da experiência do senso comum como critério de verdade.

b) incapacidade de a razão confirmar o conhecimento resultante de evidências empíricas.

c) pretensão de a experiência legitimar por si mesma a verdade.

d) defesa de que a honestidade condiciona a possibilidade de se pensar a verdade.

e) compreensão de que a verdade deve ser justificada racionalmente.

 

Resposta: E

Depois de Platão e Aristóteles devemos compreender que a simples aceitação de uma crença qualquer é uma escolha, é um procedimento arbitrário e não mais uma posição mística agraciada por deus ou deuses misteriosos.

A respeito do surgimento da filosofia e seu relacionamento com o discurso mítico podemos dizer que existe sempre uma tensão tanto estabelecida pela oposição quanto pelo confronto – pensando a oposição como estabelecimento de métodos e temas absolutamente distintos e o confronto como embate sobre os temas similares. Os filósofos não eram sacerdotes e nem defensores de explicações misteriosas sobre os fenômenos naturais. É importante compreender que se iniciava nessa época uma reflexão sistemática empenhada em estabelecer um conhecimento que não proviesse da inspiração divina, porém da argumentação pública e da comprovação factual dos argumentos – e a modificação da maneira através da qual as comunidades gregas se estabeleciam (a passagem de uma grande organização fundada em um líder para a pluralidade de líderes de comunidades menores) contribuiu muito para a valorização desse método dialógico de argumentação que exigia a responsabilização do manifestante e, por conseguinte, uma sensatez, que não era prioridade em uma explicação mítica. Enfim, vale indicar por último que apesar de a passagem do mito para o lógos ter sido gradual, afinal é muito difícil que aquilo que sustenta uma comunidade seja alterado rapidamente, esta morosidade da substituição não é necessariamente devida a uma proximidade entre poesia e filosofia. A relação entre ambas existe, porém ela é sempre problemática e instaurada através da tensão.

 

23. (Enem 2012) Para Platão, o que havia de verdadeiro em Parmênides era que o objeto de conhecimento é um objeto de razão e não de sensação, e era preciso estabelecer uma relação entre objeto racional e objeto sensível ou material que privilegiasse o primeiro em detrimento do segundo. Lenta, mas irresistivelmente, a Doutrina das Ideias formava-se em sua mente.

ZINGANO, M. Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia. São Paulo: Odysseus, 2012 (adaptado).

O texto faz referência à relação entre razão e sensação, um aspecto essencial da Doutrina das Ideias de Platão (427–346 a.C.). De acordo com o texto, como Platão se situa diante dessa relação?

a) Estabelecendo um abismo intransponível entre as duas.

b) Privilegiando os sentidos e subordinando o conhecimento a eles.

c) Atendo-se à posição de Parmênides de que razão e sensação são inseparáveis.

d) Afirmando que a razão é capaz de gerar conhecimento, mas a sensação não.

e) Rejeitando a posição de Parmênides de que a sensação é superior à razão.

 

Resposta: D

A filosofia de Platão é resultado de um trabalho de reflexão intenso e extenso, de modo que as questões durante os inúmeros diálogos por ele escritos são respondidas de maneiras distintas. Porém, Platão possui uma questão de fundo que se refere ao problema da identidade – resquício da tradição conflituosa de Parmênides e Heráclito –, a saber: o que é, é sempre idêntico a si mesmo, ou é sempre distinto? O mundo verdadeiro é uma totalidade sempre permanente, ou uma totalidade sempre efêmera? A concepção sobre Ideias que Platão formula atende, em geral, essas questões e busca demonstrar como o sensível apesar de expor uma realidade impermanente, possui um fundamento permanente. As Ideias são verdadeiras, a realidade sensível é apenas uma aparência passageira dessa realidade.

A realidade inteligível (mundo das Ideias, das Formas), na qual se encontram as essências, o Ser de cada coisa existente. Uma realidade alcançável apenas pelos “olhos da alma”, pois é observado apenas pelo esforço da razão. Exatamente por ser inteligível, essa realidade tem como características: ser metafísica, isto é, imaterial, ou incorpórea; ser una, isto é, reduz a multiplicidade das coisas sensíveis a uma unidade; ser eterna, por não se submeter ao ciclo de geração e degeneração das coisas do mundo sensível.

 

24. (Enem PPL 2012) Quanto à deliberação, deliberam as pessoas sobre tudo? São todas as coisas objetos de possíveis deliberações? Ou será a deliberação impossível no que tange a algumas coisas? Ninguém delibera sobre coisas eternas e imutáveis, tais como a ordem do universo; tampouco sobre coisas mutáveis, como os fenômenos dos solstícios e o nascer do sol, pois nenhuma delas pode ser produzida por nossa ação.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2007. (adaptado).

O conceito de deliberação tratado por Aristóteles é importante para entender a dimensão da responsabilidade humana. A partir do texto, considera-se que é possível ao homem deliberar sobre

a) coisas imagináveis, já que ele não tem controle sobre os acontecimentos da natureza.

b) ações humanas, ciente da influência e da determinação dos astros sobre as mesmas.

c) fatos atingíveis pela ação humana, desde que estejam sob seu controle.

d) fatos e ações mutáveis da natureza, já que ele é parte dela.

e) coisas eternas, já que ele é por essência um ser religioso.

 

Resposta: C

Sendo a virtude para Aristóteles o justo meio, então a prudência, phrónesis, torna-se condição para a virtude, pois a prudência é justamente a capacidade de se orientar bem, sejam quais forem as circunstâncias, reconhecendo a medida correta da ação adequada com o desejo, não parcial, de bem viver. A prudência é guia da deliberação racional, proaíresis, para o estabelecimento de escolhas que afirmam o autogoverno e a autonomia. Por isso, a ética aristotélica pode ser definida da seguinte maneira:

“É uma disposição interior constante que pertence ao gênero das ações voluntárias feitas por escolha deliberada sobre os meios possíveis para alcançar um fim que está ao alcance ou no poder do agente e que é um bem para ele. Sua causa material é o éthos do agente, sua causa formal, a natureza racional do agente, sua causa final, o bem do agente, sua causa eficiente, a educação do desejo do agente. É a disposição voluntária e refletida para a ação excelente, tal como praticada pelo homem prudente”. (M. Chaui. Introdução à história da filosofia, vol. I – Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 455)

 

25. (Enem 2012) TEXTO I

Experimentei algumas vezes que os sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.

DESCARTES, R. Meditações Metafísicas. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

 

TEXTO II

Sempre que alimentarmos alguma suspeita de que uma ideia esteja sendo empregada sem nenhum significado, precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva esta suposta ideia? E se for impossível atribuir-lhe qualquer impressão sensorial, isso servirá para confirmar nossa suspeita.

HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento. São Paulo: Unesp, 2004 (adaptado).

Nos textos, ambos os autores se posicionam sobre a natureza do conhecimento humano. A comparação dos excertos permite assumir que Descartes e Hume

a) defendem os sentidos como critério originário para considerar um conhecimento legítimo.

b) entendem que é desnecessário suspeitar do significado de uma ideia na reflexão filosófica e crítica.

c) são legítimos representantes do criticismo quanto à gênese do conhecimento.

d) concordam que conhecimento humano é impossível em relação às ideias e aos sentidos.

e) atribuem diferentes lugares ao papel dos sentidos no processo de obtenção do conhecimento.

Resposta: E

Da dúvida sistemática e generalizada das experiências sensíveis, Descartes espera começar a busca por algum ponto firme o suficiente para ser possível se apoiar e não duvidar. O chão deste mar de dúvidas no qual o filósofo está submerso é esta única coisa da qual ele não pode duvidar, mesmo se o gênio maligno estiver operando. Esta certeza é a certeza sobre o fato de que se o gênio maligno perverte meus pensamentos, ele nunca poderia perverter o próprio fato de que eu devo estar pensando para que ele me engane. Então, se penso, existo.

David Hume (1711-1776), influenciado pela filosofia de John Locke (1632-1704), parte de uma noção da mente humana segundo a qual o homem não possui ideias inatas, porém todas elas provêm da experiência sensível para compor o conhecimento. Sendo assim, o homem conhece a partir das impressões e das ideias que concebe a partir da experiência. De experiências habituais ele constrói conhecimentos baseados em matérias de fato e relações entre ideias. Os conhecimentos sobre matérias de fato são empíricos, portanto, apenas mais ou menos prováveis, já os conhecimentos sobre relações de ideias são puros, portanto, sempre certos sem, todavia, se referir a qualquer realidade sensível.

 

26. (Enem 2012) Não ignoro a opinião antiga e muito difundida de que o que acontece no mundo é decidido por Deus e pelo acaso. Essa opinião é muito aceita em nossos dias, devido às grandes transformações ocorridas, e que ocorrem diariamente, as quais escapam à conjectura humana. Não obstante, para não ignorar inteiramente o nosso livre-arbítrio, creio que se pode aceitar que a sorte decida metade dos nossos atos, mas [o livre-arbítrio] nos permite o controle sobre a outra metade.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Brasília: EdUnB, 1979 (adaptado).

Em O Príncipe, Maquiavel refletiu sobre o exercício do poder em seu tempo. No trecho citado, o autor demonstra o vínculo entre o seu pensamento político e o humanismo renascentista ao

a) valorizar a interferência divina nos acontecimentos definidores do seu tempo.

b) rejeitar a intervenção do acaso nos processos políticos.

c) afirmar a confiança na razão autônoma como fundamento da ação humana.

d) romper com a tradição que valorizava o passado como fonte de aprendizagem.

e) redefinir a ação política com base na unidade entre fé e razão.

 

Resposta: C

Percebemos claramente pela passagem citada que o pensamento de Maquiavel regula de acordo com a sorte as nossas ações de todo tipo, sendo em um momento a própria sorte um árbitro e noutro uma preocupação com a qual nos conformamos. Agir bem é agir efetivamente perante as circunstâncias. Não por outro motivo a história é muito importante para Maquiavel, pois é através dela que encontramos exemplos de homens que agiram efetivamente perante as adversidades e obtiveram resultados que contornaram o poder devastador da sorte. Neste contexto, virtù não pode ser a virtude de um homem bom como a filosofia antiga especulou, mas sim aquelas qualidades que o homem possui capazes de fazê-lo superar os eventuais percalços. No caso do Príncipe, a virtù constitui aquele conjunto de qualidades pessoais necessárias para a manutenção do estado e a realização de grandes feitos, mesmo que estas qualidades sejam eventualmente cruéis.

 

27. (Enem 2012) É verdade que nas democracias o povo parece fazer o que quer; mas a liberdade política não consiste nisso. Deve-se ter sempre presente em mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem; se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem, não teria mais liberdade, porque os outros também teriam tal poder.

MONTESQUIEU. Do Espírito das Leis. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1997 (adaptado).

A característica de democracia ressaltada por Montesquieu diz respeito

a) ao status de cidadania que o indivíduo adquire ao tomar as decisões por si mesmo.

b) ao condicionamento da liberdade dos cidadãos à conformidade às leis.

c) à possibilidade de o cidadão participar no poder e, nesse caso, livre da submissão às leis.

d) ao livre-arbítrio do cidadão em relação àquilo que é proibido, desde que ciente das consequências.

e) ao direito do cidadão exercer sua vontade de acordo com seus valores pessoais.

 

Resposta: B

É certo que a liberdade da sociedade democrática é justificada pela sua limitação designada pela constituição da lei, porém a grande questão passa, então, a ser: qual é o conteúdo da lei? Se a democracia é um regime fundado sobre o valor da liberdade, então como a própria lei poderia livrar-se desse condicionamento primordial? O que Montesquieu estabelece é a necessidade de a lei ser a limitação da licença de se fazer tudo aquilo que não esteja de acordo com a racionalidade do espírito da lei.

 

28. (Enem 2012) Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma condição estranha, continuem, no entanto, de bom grado menores durante toda a vida.

KANT, I. Resposta à pergunta: o que é esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 1985 (adaptado).

Kant destaca no texto o conceito de Esclarecimento, fundamental para a compreensão do contexto filosófico da Modernidade. Esclarecimento, no sentido empregado por Kant, representa

a) a reivindicação de autonomia da capacidade racional como expressão da maioridade.

b) o exercício da racionalidade como pressuposto menor diante das verdades eternas.

c) a imposição de verdades matemáticas, com caráter objetivo, de forma heterônoma.

d) a compreensão de verdades religiosas que libertam o homem da falta de entendimento.

e) a emancipação da subjetividade humana de ideologias produzidas pela própria razão.

 

Resposta: A

Como diz Kant em Resposta à pergunta: “O que é Iluminismo?” (1784), a palavra de ordem deste movimento de renovação cultural é “Sapere aude!”, isto quer dizer basicamente que os homens deveriam deixar sua menoridade, da qual são culpados, e direcionarem seu entendimento a partir de suas próprias forças, sem a guia de outro.

(Para uma noção geral sobre o assunto: <http://www.youtube.com/watch?v=9a9kWxpnjWk&gt;.)

Esta posição perante o mundo possibilitou um movimento em busca da liberdade e de um ideal de independência política, econômica e intelectual. Desta busca nasce, entre muitos outros movimentos, a Independência americana, a Independência haitiana e a Revolução francesa (esta última influenciada pelo pensamento do filósofo Jean-Jacques Rousseau). E sendo uma posição opositora dos regimes absolutistas, o Iluminismo almeja a libertação da riqueza e de tudo mais dos mistérios divinos tão presentes no pensamento medieval e influentes neste tipo de Estado absoluto. Tudo passa a ser problema resolvível se o entendimento do homem se empenhar de maneira metodológica. Nada é misterioso. Desta confiança na razão nasce uma reflexão sobre a riqueza e sua administração – Adam Smith, A riqueza das nações (1776), por exemplo. Neste contexto Montesquieu também é importante, na sua obra O Espírito das Leis temos um tratado sobre as relações do poder administrativo e uma teorização sobre a tripartição deste poder (executivo, legislativo e judiciário) de modo a serem separados, porém interdependentes.

 

29. (Enem PPL 2012) Um Estado é uma multidão de seres humanos submetida a leis de direito. Todo Estado encerra três poderes dentro de si, isto é, a vontade unida em geral consiste de três pessoas: o poder soberano (soberania) na pessoa do legislador; o poder executivo na pessoa do governante (em consonância com a lei) e o poder judiciário (para outorgar a cada um o que é seu de acordo com a lei) na pessoa do juiz.

KANT, I. A metafísica dos costumes. Bauru: Edipro, 2003.

De acordo com o texto, em um Estado de direito

a) a vontade do governante deve ser obedecida, pois é ele que tem o verdadeiro poder.

b) a lei do legislador deve ser obedecida, pois ela é a representação da vontade geral.

c) o Poder Judiciário, na pessoa do juiz, é soberano, pois é ele que outorga a cada um o que é seu.

d) o Poder Executivo deve submeter-se ao Judiciário, pois depende dele para validar suas determinações.

e) o Poder Legislativo deve submeter-se ao Executivo, na pessoa do governante, pois ele que é soberano.

 

Resposta: B

Para Kant, a boa vontade é aquela vontade cuja direção é totalmente determinada por demandas morais ou, como ele normalmente se refere a isso, pela Lei Moral. Os seres humanos veem essa Lei como restrição dos seus desejos e, por conseguinte, uma vontade decidida por seguir a Lei Moral só pode ser motivada pela ideia de Dever. Hipoteticamente, se houvesse uma vontade divina, embora boa, não seria boa porque é motivada pela ideia de Dever, pois uma vontade divina seria livre de qualquer desejo imoral. Apenas a presença dos desejos imorais, ou das ações que operam independentemente da moralidade, exige a bondade da vontade e faz da Lei Moral coerciva, isto é, faz dela constituída essencialmente da ideia de Dever. O ato de obedecer à vontade unida não provém da sua característica de vontade geral (o conceito “vontade geral” sequer aparece explicitamente no texto citado: “vontade unida em geral”), mas sim da sua característica modelar e, por conseguinte, restritiva que reduz a ação do sujeito deixando livres apenas aquelas que são morais, e também pela ideia de Dever que ao motivar o cumprimento da lei de direito mantém a multidão estável.

 

30. (Enem PPL 2012)

enem-30

De acordo com algumas teorias políticas, a formação do Estado é explicada pela renúncia que os indivíduos fazem de sua liberdade natural quando, em troca da garantia de direitos individuais, transferem a um terceiro o monopólio do exercício da força. O conjunto dessas teorias é denominado de

a) liberalismo

b) despotismo

c) socialismo

d) anarquismo

e) contratualismo

 

Resposta: E

O contrato social se estabelece de maneiras distintas dependendo de cada teórico, porém não há em nenhuma das grandes teorias uma noção de “acordo tácito”. Justamente o contrário, as teorias expressam aquilo que os homens deliberaram racionalmente e elas também explicitam que a melhor opção para a generalidade seja a conjunção da espécie sob uma ordem comum. De modo que o contrato social expõe algo muito diferente do pensamento de Calvin, pois não afirma de modo algum que o uso da força deva ser feito livremente e moderado pela natureza.

 

31. (Enem 2012) Nossa cultura lipofóbica muito contribui para a distorção da imagem corporal, gerando gordos que se veem magros e magros que se veem gordos, numa quase unanimidade de que todos se sentem ou se veem ”distorcidos“.

Engordamos quando somos gulosos. É pecado da gula que controla a relação do homem com a balança. Todo obeso declarou, um dia, guerra à balança. Para emagrecer é preciso fazer as pazes com a dita cuja, visando adequar-se às necessidades para as quais ela aponta.

FREIRE, D. S. Obesidade não pode ser pré-requisito. Disponível em: http://gnt.globo.com. Acesso em: 3 abr. 2012 (adaptado).

O texto apresenta um discurso de disciplinarização dos corpos, que tem como consequência

a) a ampliação dos tratamentos médicos alternativos, reduzindo os gastos com remédios.

b) a democratização do padrão de beleza, tornando-o acessível pelo esforço individual.

c) o controle do consumo, impulsionando uma crise econômica na indústria de alimentos.

d) a culpabilização individual, associando obesidade à fraqueza de caráter.

e) o aumento da longevidade, resultando no crescimento populacional.

 

Resposta: D

O texto apresenta uma ideologia paranoica capaz de controlar as opiniões que os indivíduos mantêm sobre si mesmos distorcendo-as e tornando-as perversas. O sujeito que está em um mundo cuja cultura lhe diz livre e preso ao mesmo tempo o força a manter uma dupla saída para a questão: quem sou eu? Eu sou gordo, mas desejo ser magro; eu sou magro, mas nunca devo ser gordo. O instrumento de medida não é capaz de identificar quem é o que, pois não se trata de uma observação livre de preconceitos a análise do número ali amostrado na balança. Trata-se da sensação que o sujeito tem ao comparar-se àquilo que é dito modelo; e tal comparação é qualitativa. De modo que a ideologia paranoica constrange o indivíduo e o torna um sujeito com duas respostas para a mesma pergunta. Quem sou eu? Eu sou gordo, quando devo ser magro; eu sou magro, quando não devo ser gordo. A paranoia cria a circularidade que impede a satisfação com a imagem que se faz de si e cria a patologia que adoece o indivíduo.

 

32. (Enem 2011) O brasileiro tem noção clara dos comportamentos éticos e morais adequados, mas vive sob o espectro da corrupção, revela pesquisa. Se o país fosse resultado dos padrões morais que as pessoas dizem aprovar, pareceria mais com a Escandinávia do que com Bruzundanga (corrompida nação fictícia de Lima Barreto)

FRAGA, P. Ninguém é inocente. Folha de S. Paulo. 4 out. 2009 (adaptado).

O distanciamento entre “reconhecer” e “cumprir” efetivamente o que é moral constitui uma ambiguidade inerente ao humano, porque as normas morais são

a) decorrentes da vontade divina e, por esse motivo, utópicas.

b) parâmetros idealizados, cujo cumprimento é destituído de obrigação.

c) amplas e vão além da capacidade de o indivíduo conseguir cumpri-las integralmente.

d) criadas pelo homem, que concede a si mesmo a lei à qual deve se submeter.

e) cumpridas por aqueles que se dedicam inteiramente a observar as normas jurídicas.

 

Resposta: D

O texto publicado na Folha de São Paulo intitula-se “Ninguém é inocente” e se refere à ambiguidade inerente à moralidade, indicando o evidente distanciamento entre “reconhecer” e “cumprir” a norma moral. O princípio ético – a norma moral – resulta da idealização do comportamento, ou seja, ele postula o comportamento ideal, aquele que corresponde o que deveria ser.

 

33. (Enem 2ª aplicação 2010) “Quando Édipo nasceu, seus pais, Laio e Jocasta, os reis de Tebas, foram informados de uma profecia na qual o filho mataria o pai e se casaria com a mãe. Para evitá-la, ordenaram a um criado que matasse o menino. Porém, penalizado com a sorte de Édipo, ele o entregou a um casal de camponeses que morava longe de Tebas para que o criasse. Édipo soube da profecia quando se tornou adulto. Saiu então da casa de seus pais para evitar a tragédia. Eis que, perambulando pelos caminhos da Grécia, encontrou-se com Laio e seu séquito, que,insolentemente, ordenou que saísse da estrada. Édipo reagiu e matou todos os integrantes do grupo, sem saber que entre eles estava seu verdadeiro pai. Continuou a viagem até chegar em Tebas, dominada por uma Esfinge. Ele decifrou o enigma da Esfinge, tornou-se rei de Tebas e casou-se com a rainha, Jocasta, a mãe que desconhecia”.

Disponível em: http://www.culturabrasil.org. Acesso em: 28/08/2010 (adaptado).

No mito Édipo Rei, são dignos de destaque os temas do destino e do determinismo. Ambos são características do mito grego e abordam a relação entre liberdade humana e providência divina. A expressão filosófica que toma como pressuposta a tese do determinismo é:

a) “Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.” (Jean Paul Sartre)

b) “Ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser.” (Santo Agostinho)

c) “Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte.” (Arthur Schopenhauer)

d) “Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo.” (Michel Foucault)

e) “O homem, em seu orgulho, criou a Deus a sua imagem e semelhança.” (Friedrich Nietzsche)

 

Resposta: B

A única alternativa possível é a B, pois somente ela expressa, por meio da citação de Santo Agostinho, a tese do determinismo, isto é, que a vida humana está fadada a ser governada por forças superiores, restando ao homem pouca liberdade para alterar seu destino, pois mesmo que ele tente mudar o rumo das coisas não conseguirá mudar seu futuro, sendo exatamente essa a mensagem que o mito Édipo Rei tenta transmitir.

 

34. (Enem 2010) Na ética contemporânea, o sujeito não é mais um sujeito substancial, soberano e absolutamente livre, nem um sujeito empírico puramente natural. Ele é simultaneamente os dois, na medida em que é um sujeito histórico-social. Assim, a ética adquire um dimensionamento político, uma vez que a ação do sujeito não pode mais ser vista e avaliada fora da relação social coletiva.

Desse modo, a ética se entrelaça, necessariamente, com a política, entendida esta como a área de avaliação dos valores que atravessam as relações sociais e que interliga os indivíduos entre si.

SEVERINO. A. J. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992 (adaptado).

O texto, ao evocar a dimensão histórica do processo de formação da ética na sociedade contemporânea, ressalta

a) os conteúdos éticos decorrentes das ideologias político-partidárias.

b) o valor da ação humana derivada de preceitos metafísicos.

c) a sistematização de valores desassociados da cultura.

d) o sentido coletivo e político das ações humanas individuais.

e) o julgamento da ação ética pelos políticos eleitos democraticamente.

 

Resposta: D

A alternativa D é a única correta. Ao se referir à dimensão política da ética, o texto não está tratando de questões polítco-partidárias (alternativa A) ou do comportamento ético dos políticos eleitos democraticamente (alternativa E) e sim do impacto da ação individual no meio social, isto é, do seu efeito coletivo e de seu significado político. Deste modo, também, o texto não está ressaltando as afirmações que constam nas alternativas B e C.

 

35. (Enem 2ª aplicação 2010) “A ética exige um governo que amplie a igualdade entre os cidadãos. Essa é a base da pátria. Sem ela, muitos indivíduos não se sentem “em casa”, experimentam-se como estrangeiros em seu próprio lugar de nascimento”.

SILVA, R. R. “Ética, defesa nacional, cooperação dos povos”. In: OLIVEIRA, E. R. (Org.). Segurança & defesa nacional: da competição à cooperação regional. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2007 (adaptado).

Os pressupostos éticos são essenciais para a estruturação política e integração de indivíduos em uma sociedade. De acordo com o texto, a ética corresponde a

a) valores e costumes partilhados pela maioria da sociedade.

b) preceitos normativos impostos pela coação das leis jurídicas.

c) normas determinadas pelo governo, diferentes das leis estrangeiras.

d) transferência dos valores praticados em casa para a esfera social.

e) proibição da interferência de estrangeiros em nossa pátria.

 

Resposta: A

A alternativa A é a única correta, pois identifica o sentido correto da noção de ética para o autor, que não a restringe a preceitos normativos (alternativas B e C) e sim a relaciona com modos de viver. Na alternativa D é mal interpretado uso da expressão “em casa”, pois no texto ela tem sentido figurado, significando uma identificação com o lugar de nascimento, bem como a referência a estrangeiros na citação nada tem a ver com o que é afirmado na alternativa E.

 

36. (Enem 2010)

Democracia: “regime político no qual a soberania é exercida pelo povo, pertence ao conjunto dos cidadãos.”

JAPIASSÚ, H.; MARCONDES, D. Dicionario Basico de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Uma suposta “vacina” contra o despotismo, em um contexto democrático, tem por objetivo

a) impedir a contratação de familiares para o serviço público.

b) reduzir a ação das instituições constitucionais.

c) combater a distribuição equilibrada de poder.

d) evitar a escolha de governantes autoritários.

e) restringir a atuação do Parlamento.

 

Resposta: D

A alternativa [D] é a única correta, pois a alternativa [A] faz referência ao nepotismo e as alternativas [B], [C] e [E] se referem justamente a atos praticados por governantes despóticos.

 

37. (Enem 1999) (…) Depois de longas investigações, convenci-me por fim de que o Sol é uma estrela fixa rodeada de planetas que giram em volta dela e de que ela é o centro e a chama. Que, além dos planetas principais, há outros de segunda ordem que circulam primeiro como satélites em redor dos planetas principais e com estes em redor do Sol. (…) Não duvido de que os matemáticos sejam da minha opinião, se quiserem dar-se ao trabalho de tomar conhecimento, não superficialmente mas duma maneira aprofundada, das demonstrações que darei nesta obra. Se alguns homens ligeiros e ignorantes quiserem cometer contra mim o abuso de invocar alguns passos da Escritura (sagrada), a que torçam o sentido, desprezarei os seus ataques: as verdades matemáticas não devem ser julgadas senão por matemáticos.

(COPÉRNICO, N. De Revolutionibus orbium caelestium)

Aqueles que se entregam à prática sem ciência são como o navegador que embarca em um navio sem leme nem bússola. Sempre a prática deve fundamentar-se em boa teoria. Antes de fazer de um caso uma regra geral, experimente-o duas ou três vezes e verifique se as experiências produzem os mesmos efeitos. Nenhuma investigação humana pode se considerar verdadeira ciência se não passa por demonstrações matemáticas.

(VINCI, Leonardo da. Carnets)

O aspecto a ser ressaltado em ambos os textos para exemplificar o racionalismo moderno é

a) a fé como guia das descobertas.

b) o senso crítico para se chegar a Deus.

c) a limitação da ciência pelos princípios bíblicos.

d) a importância da experiência e da observação.

e) o princípio da autoridade e da tradição.

 

Resposta: D

A experiência ou experimentação é o estudo dos fenômenos em condições que foram determinadas pelo observador e sua importância está no oferecimento de condições privilegiadas para a observação, podendo assim, repetir e varias as experiências, tornar mais rápido ou mais lento os fenômenos e até simplificá-los. No geral a experimentação confirma a hipótese, porém quando isto não ocorre, precisam repeti-la ou modificá-la.

A observação científica é rigorosa, precisa, metódica e, portanto, orientada para a explicação dos fatos e para isto, se utilizam de microscópio, telescópio, sismógrafo, balança, termômetro, entre outros instrumentam que proporcionam maior rigor à observação bem como a tornam mais objetiva porque quantificam o que está sendo observado.