Vestibular e Enem – Questões de Maquiavel

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UNESP – Questões de filosofia

1. (Unesp 2012)

ooo

Se me mostrarem um único ser vivo que não tenha ancestral, minha teoria poderá ser enterrada.

(Charles Darwin)

Sobre essa frase, afirmou-se que:

I. Contrapõe-se ao criacionismo religioso.

II. Contrapõe-se ao essencialismo de Platão, segundo o qual todas as espécies têm uma essência fixa e eterna.

III. Sugere uma possibilidade que, se comprovada, poderia refutar a hipótese evolutiva darwiniana.

IV. Propõe que as espécies atuais evoluíram a partir da modificação de espécies ancestrais, não aparentadas entre si.

V. Nega a existência de espécies extintas, que não deixaram descendentes.

É correto o que se afirma em

a) IV, apenas.

b) II e III, apenas.

c) III e IV, apenas.

d) I, II e III, apenas.

e) I, II, III, IV e V.

 

Resposta: D

A teoria evolucionista de Charles Darwin propõe que as espécies evoluíram a partir de modificações de ancestrais aparentados entre si. As espécies extintas deixaram descendentes que formaram as espécies atuais.

Na frase do enunciado, Darwin evoca, de maneira irônica, a possibilidade de sua teoria poder estar errada. Para ele, a ancestralidade é uma característica comum a todas as espécies de seres vivos, que, por isso, são considerados como sendo aparentados entre si, mesmo que através de um ancestral longínquo. Vale ressaltar que sua teoria da Evolução contraria tanto o criacionismo religioso quanto o essencialismo platônico ao desconsiderar a existência de espécies únicas e diferentes entre si em essência.

 

2. (Unesp 2015) Texto 1

Quanto mais as classes exploradas, o “povo”, sucumbem aos poderes existentes, tanto mais a arte se distanciará do “povo”. A arte pode preservar a sua verdade, pode tornar consciente a necessidade de mudança, mas apenas quando obedece à sua própria lei contra a lei da realidade. A arte não pode mudar o mundo, mas pode contribuir para a mudança da consciência e impulsos dos homens e mulheres que poderiam mudar o mundo. A renúncia à forma estética é abdicação da responsabilidade. Priva a arte da verdadeira forma em que pode criar essa outra realidade dentro da realidade estabelecida – o cosmos da esperança. A obra de arte só pode obter relevância política como obra autônoma. A forma estética é essencial à sua função social.

MARCUSE, Herbert. A dimensão estética, s/d. Adaptado.

 

Texto 2

Foi com estranhamento que crítica e público receberam a notícia de que a escritora paulista Patrícia Engel Secco, com a ajuda de uma equipe, simplificou obras de Machado de Assis e de José de Alencar para facilitar sua leitura. O projeto que alterou partes do conto O Alienista e do romance A Pata da Gazela recebeu a aprovação do Ministério da Cultura para captar recursos com a lei de incentivo para imprimir e distribuir, gratuitamente, 600 000 exemplares. Os livros apresentam substituição de palavras e expressões com registro simplificado, como, por exemplo, a troca de “prendas” por “qualidades” em O Alienista. “O público-alvo do projeto é constituído por não leitores, ou leitores novos, jovens e adultos, de todos os níveis de escolaridade e faixa de renda”, afirmou Patrícia. Autora de mais de 250 títulos, em sua maioria infantis, ela diz que encontra diariamente pessoas que não leem, mas que poderiam se interessar pelo universo de Machado e Alencar se tivessem acesso a uma obra facilitada.

KUSUMOTO, Meire. “De Machado de Assis a Shakespeare: quando a adaptação diminui obras clássicas”. http://veja.abril.com.br, 12.05.2014. Adaptado.

Explique o significado da autonomia da obra de arte para o filósofo Marcuse. Considerando esse conceito de autonomia, explique o significado estético do projeto literário de facilitação de algumas obras de Machado de Assis e de José de Alencar.

 

Resposta:

 A teoria estética de Herbert Marcuse baseia-se nos princípios marxistas, realizando, contudo, uma crítica à visão ortodoxa desta teoria. Segundo a teoria estética marxista a obra de arte é um todo que representa a visão de mundo de determinadas classes sociais. Desta forma, a obra de arte possui a função política de criar uma consciência, porém esta criação é direcionada, intencional segundo os marxistas ortodoxos.

Para Marcuse, a obra de arte possui uma função política em si mesmo, ou seja, ela é uma representação de uma visão de mundo que visa comunicar, abrir possibilidades, não necessariamente direcionar a visão daqueles que apreciar a obra. Assim, a obra de arte é autônoma por si e não necessita de direcionamento. Ela rompe com a consciência dominante por meio da experiência individual. Esta experiência é libertadora na medida em que leva o apreciador a sentir e refletir seu significado, comparando o que lhe foi proporcionado com sua própria experiência de mundo.

Com relação ao projeto de facilitação de acesso a obras consagradas, de Machado de Assis e José de Alencar, a estética Marcuseana se posiciona contra, pois isto serve como forma de direcionamento do sentido político da obra de arte. A facilitação ao acesso não produziria uma experiência individual e libertária para o apreciador, mas sim uma doutrinação ao modificar a concepção original da obra, impedindo que ela, por si própria, desempenhasse sua função estética. Em outras palavras, a adaptação da obra literária, através da justificativa de facilitação de acesso, serviria como instrumental de controle e que pode ser utilizado em favor de interesses de classes dominantes.

 

3. (Unesp 2012) Regulamentação publicada nesta segunda-feira, no Diário Oficial do Município do Rio, determina que as crianças e adolescentes apreendidos nas chamadas cracolândias fiquem internados para tratamento médico, mesmo contra a vontade deles ou dos familiares. Os jovens, segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas), só receberão alta quando estiverem livres do vício. A “internação compulsória” vale somente para aqueles que, na avaliação de um especialista, estiverem com dependência química. Ainda de acordo com a resolução, todas as crianças e adolescentes que forem acolhidos à noite, “independente de estarem ou não sob a influência do uso de drogas”, não poderão sair do abrigo até o dia seguinte.

 (www.estadao.com.br, 30.05.2012. Adaptado.)

As justificativas apresentadas neste texto para legitimar a “internação compulsória” de usuários de drogas são norteadas por:

a) princípios filosóficos baseados no livre-arbítrio e na autonomia individual.

b) valores de natureza religiosa fundamentados na preservação da vida.

c) valores éticos associados ao direito absoluto à liberdade da pessoa humana.

d) realização prévia de consultas públicas sobre a internação obrigatória.

e) critérios médicos relacionados à distinção entre saúde e patologia.

 

Resposta: E

 Interessante questão. A tomada de decisão a respeito da “internação compulsória” não é baseada em princípios filosóficos ou valores religiosos. O principal aliado para a tomada dessa decisão política é o saber médico que passa a definir o que é normal e o que é patológico. Esse é um dos principais saberes com o qual o poder está relacionado na sociedade contemporânea.

 

4. (Unesp 2012) Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor, e a buscar a simbiose do melhor de todas as culturas. A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas também segundo o comportamento de uma potência que, como seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emancipação. Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais.

(Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.)

No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin desenvolve

a) reflexões elogiosas acerca das consequências do etnocentrismo ocidental sobre outras culturas.

b) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da Revolução Francesa na história.

c) argumentos que defendem o isolamento como forma de proteção dos valores culturais.

d) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental e outras culturas na história.

e) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da Revolução Francesa.

 

Resposta: D

A alternativa [D] é a única correta. Morin propõe uma análise crítica das culturas contemporâneas. Segundo ele, elas não devem ser analisadas somente por seus valores, mas também por aquilo que produziram e pelas barbáries que permitiram. É a partir dessa análise que cada nação deve buscar integrar aquilo que as outras possuem de melhor.

 

5. (Unesp 2012) Se um governo quer reduzir o índice de abortos e o risco para as mulheres em idade reprodutiva, não deveria proibi-los, nem restringir demais os casos em que é permitido. Um estudo publicado em “The Lancet” revela que o índice de abortos é menor nos países com leis mais permissivas, e é maior onde a intervenção é ilegal ou muito limitada. “Aprovar leis restritivas não reduz o índice de abortos”, afirma Gilda Sedgh (Instituto Guttmacher, Nova York), líder do estudo, “mas sim aumenta a morte de mulheres”. “Condenar, estigmatizar e criminalizar o aborto são estratégias cruéis e falidas”, afirma Richard Horton, diretor de “The Lancet”. “É preciso investir mais em planejamento familiar”, pediu a pesquisadora, que assina o estudo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os seis autores concluem que “as leis restritivas não estão associadas a taxas menores de abortos”. Por exemplo, o sul da África, onde a África do Sul, que o legalizou em 1997, é dominante, tem a taxa mais baixa do continente.

 (http://noticias.uol.com.br, 22.01.2012. Adaptado.)

Na reportagem, o tema do aborto é tratado sob um ponto de vista

a) fundamentalista-religioso, defendendo a validade de sua proibição por motivos morais.

b) político-ideológico, assumindo um viés ateu e materialista sobre essa questão.

c) econômico, considerando as despesas estatais na área da saúde pública em todo o mundo.

d) filosófico-feminista, defendendo a autonomia da mulher na relação com o próprio corpo.

e) estatístico, analisando a ineficácia das restrições legais que proíbem o aborto.

 

Resposta: E

Somente a alternativa [E] está correta. Ainda que todas as outras alternativas apresentem formas plausíveis de se analisar o tema do aborto, nessa reportagem ele é analisado especificamente sob o prisma estatístico.

 

6. (Unesp 2014) Tradição de pensamento ético fundada pelos ingleses Jeremy Bhentam e John Stuart Mill, o utilitarismo almeja muito simplesmente o bem comum, procurando eficiência: servirá aos propósitos morais a decisão que diminuir o sofrimento ou aumentar a felicidade geral da sociedade. No caso da situação dos povos nativos brasileiros, já se destinou às reservas indígenas uma extensão de terra equivalente a 13% do território nacional, quase o dobro do espaço destinado à agricultura, de 7%. Mas a mortalidade infantil entre a população indígena é o dobro da média nacional e, em algumas etnias, 90% dos integrantes dependem de cestas básicas para sobreviver. Este é um ponto em que o cômputo utilitarista de prejuízos e benefícios viria a calhar: a felicidade dos índios não é proporcional à extensão de terra que lhes é dado ocupar.

(Veja, 25.10.2013. Adaptado.)

A aplicação sugerida da ética utilitarista para a população indígena brasileira é baseada em

a) uma ética de fundamentos universalistas que deprecia fatores conjunturais e históricos.

b) critérios pragmáticos fundamentados em uma relação entre custos e benefícios.

c) princípios de natureza teológica que reconhecem o direito inalienável do respeito à vida humana.

d) uma análise dialética das condições econômicas geradoras de desigualdades sociais.

e) critérios antropológicos que enfatizam o respeito absoluto às diferenças de natureza étnica.

 

Resposta:B

A alternativa [B] é a correta, pois a questão central abordada, esta centrada no utilitarismo. Esta corrente de pensamento desconsidera, em sua análise, as consequências “menores”, ou em outras palavras a “menor porção de felicidade” gerada pelas escolhas em comparação com a eficiência daquilo que se propõe. No caso do problema indígena, a justificativa para rever a questão do assentamento destas populações, tendo como base a ética utilitarista, verifica-se que esta ética utiliza um comparativo entre a proporção de terras cedidas aos indígenas, utilizando a agricultura como referencial e a elevação dos casos de mortalidade, havendo ainda assim, a necessidade de mais intervenção do Estado para garantir condições de vida aos índios. As demais alternativas não abordam o tema central do utilitarismo que é o aumento felicidade da população em relação a um menor sofrimento. Desta maneira, pode-se justificar ideologicamente a revisão dos assentamentos, com base de que isto não esta proporcionando melhoria na qualidade de vida dos índios.

 

7. (Unesp 2015) Seja como termo, seja como conceito, a filosofia é considerada pela quase totalidade dos estudiosos como criação própria do gênio dos gregos. Sendo assim, a superioridade dos gregos em relação aos outros povos nesse ponto específico é de caráter não puramente quantitativo, mas qualitativo, porque o que eles criaram, instituindo a filosofia, constitui novidade que, em certo sentido, é absoluta. Com efeito, não é em qualquer cultura que a ciência é possível. Há ideias que tornam estruturalmente impossível o nascimento e o desenvolvimento de determinadas concepções – e, até mesmo, ideias que interditam toda a ciência em seu conjunto, pelo menos a ciência como hoje a conhecemos. Pois bem, em função de suas categorias racionais, foi a filosofia que possibilitou o nascimento da ciência, e, em certo sentido, a gerou. E reconhecer isso significa também reconhecer aos gregos o mérito de terem dado uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização.

(Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia, vol. 1, 1990. Adaptado.)

Baseando-se no texto, explique por que a definição apresentada de “filosofia” pode ser considerada eurocêntrica. Explique também que tipo de ideias apresentaria a característica de impedir o desenvolvimento do conhecimento científico.

Resposta:

 A filosofia enquanto forma de conhecimento é considerada pela quase totalidade de estudiosos como de origem grega devido às condições específicas ocorridas na antiguidade que permitiram seu surgimento. Fatores como: navegações, invenção da moeda, da escrita, das leis e principalmente da “pólis” (cidade), somados a insatisfação intelectual em relação à forma de como compreendiam o mundo, possibilitaram o estabelecimento de um modo mais coerente de pensar a realidade. Com o passar do tempo, esta forma de saber, desenvolveu-se autonomamente, se expandindo por todos os povos que tiveram contato com a cultura grega. A filosofia pode ser considerada eurocêntrica, pois o continente Europeu foi o lugar que herdou dos gregos esta forma de saber. Foi principalmente na Europa onde ocorreu o desenvolvimento, expansão e divulgação da reflexão filosófica e forma sistematizada.

A Filosofia tem como características: o caráter reflexivo, a argumentação racional, a investigação radical, a sistematização do saber e a análise de conjunto.

O desenvolvimento da filosofia possibilitou por sua vez o desenvolvimento do conhecimento científico. Desta forma, as ideologias, as doutrinas dogmáticas, mitologias não refletidas e senso comum vão contra as características do saber filosófico e científico e se constituem como impeditivos para o desenvolvimento do conhecimento científico.

 

8. (Unesp 2015) Do ponto de vista do Iluminismo, a ilusão deixa de ser uma simples deficiência subjetiva, e passa a enraizar-se em contextos de dominação, de onde a ilusão deriva e se incumbe de estabilizar. O preconceito – a opinião falsa, não controlável pela razão e pela experiência – revela seu substrato político. É no interesse do poder que a razão é capturada pelas perturbações emocionais, abstendo-se do esforço necessário para libertar-se das paixões perversas, e para romper o véu das aparências, que impedem uma reflexão emancipatória. Deixando-se arrastar pelas interferências, a razão não pode pensar o sistema social em sua realidade. Prisioneira do dogmatismo, que nem pode ser submetido ao tribunal da experiência nem permite a instauração desse tribunal, a razão está entregue, sem defesa, às imposturas da religião e de todos os outros dogmas legitimadores.

(Sérgio Paulo Rouanet. A razão cativa, 1990. Adaptado.)

Considerando o texto e o título sugestivo do livro de Rouanet, explique as implicações políticas do cativeiro da razão e defina o que significa a reflexão emancipatória referida pelo autor.

 

Resposta:

 O papel das ideologias é dar um sentido legitimador para as contradições sociais, a fim de que pareçam coerentes e até desejáveis. Assim, as ideologias produzidas pela classe dominante, possuem um papel vital no condicionamento da razão humana dentro do espaço social. Esta condição imposta à consciência submete a razão a um domínio, tornando-a impotente e legitimando a dominação de uma classe que lucra, de algum modo, sobre a outra, criando um cativeiro. Sob tal cativeiro, fica impossível traçar vias para consolidar valores democráticos, acessíveis a todos, assim como construir uma sociedade menos desigual e mais equitativa.

A reflexão emancipatória é alcançada quando se percebe que as ideologias não coincidem com a realidade. Para que isto seja possível é necessário deixar de lado os dogmas impostos pela classe dominante, transcender os preconceitos e criar uma consciência de si enquanto ser existente na realidade coletiva. Por meio da emancipação da razão se é possível propor projetos honestos e democráticos para a transformação social.

 

9. (Unesp 2015) A fonte do conceito de autonomia da arte é o pensamento estético de Kant. Praticamente tudo o que fazemos na vida é o oposto da apreciação estética, pois praticamente tudo o que fazemos serve para alguma coisa, ainda que apenas para satisfazer um desejo. Enquanto objeto de apreciação estética, uma coisa não obedece a essa razão instrumental: enquanto tal, ela não serve para nada, ela vale por si. As hierarquias que entram em jogo nas coisas que obedecem à razão instrumental, isto é, nas coisas de que nos servimos, não entram em jogo nas obras de arte tomadas enquanto tais. Sendo assim, a luta contra a autonomia da arte tem por fim submeter também a arte à razão instrumental, isto é, tem por fim recusar também à arte a dimensão em virtude da qual, sem servir para nada, ela vale por si. Trata-se, em suma, da luta pelo empobrecimento do mundo.

(Antônio Cícero. “A autonomia da arte”. Folha de São Paulo, 13.12.2008. Adaptado.)

De acordo com a análise do autor,

a) a racionalidade instrumental, sob o ponto de vista da filosofia de Kant, fornece os fundamentos para a apreciação estética.

b) um mundo empobrecido seria aquele em que ocorre o esvaziamento do campo estético de suas qualidades intrínsecas.

c) a transformação da arte em espetáculo da indústria cultural é um critério adequado para a avaliação de sua condição autônoma.

d) o critério mais adequado para a apreciação estética consiste em sua validação pelo gosto médio do público consumidor.

e) a autonomia dos diversos tipos de obra de arte está prioritariamente subordinada à sua valorização como produto no mercado.

 

Resposta:B

Não pode ser submetida aos mesmos critérios que regem a razão, diferentemente da autonomia libertária na qual o uso da razão conduz o indivíduo para um fim. Este fim é intencional e serve para tornar o homem mais consciente de si e promover sua independência racional, criando assim, condições para agir de forma direcionada e intencional. Já autonomia estética não possui um fim em si, ela serve como forma de fruição, ou seja, sua apreciação não direciona a uma elevação, a uma intenção para algo. Desta forma, quando tornamos a arte racional, desprovemo-la de suas qualidades intrínsecas e a tornamos um instrumento que não promove uma autonomia por si. Quando se direciona a arte por meio da razão instrumental, descaracteriza-se sua fruição. Em outras palavras, para que a arte seja preservada, não submeter à arte ao mercado (razão instrumental), pois se tem aí o empobrecimento de sua capacidade representativa e expressiva.

 

10. (Unesp 2015) Para o teórico Boaventura de Sousa Santos, o direito se submeteu à racionalidade cognitivo-instrumental da ciência moderna e tornou-se ele próprio científico. Existe a necessidade de repensarmos os direitos humanos. Boaventura nos instiga a pensar que eles possuem um caráter racional e regulador da vida humana. Esses direitos não colaboram para eliminar as assimetrias políticas, culturais, sociais e econômicas existentes, especialmente nos países periféricos. Os direitos humanos, num plano universalista e aberto a todos, não modificam as estruturas desiguais, mas ratificam a ordenação normativa para comandar uma sociedade.

(Adriano São João e João Henrique da Silva. “A historicidade dos direitos humanos”. Filosofia, ciência e vida, dezembro de 2014. Adaptado.)

De acordo com o texto, os direitos humanos são passíveis de crítica, porque

a) desempenham um papel meramente formal de proteção da vida.

b) inexistem padrões universalistas aplicáveis à totalidade da humanidade.

c) são incompatíveis com os valores culturais de nações não ocidentais.

d) sua estrutura normativa carece de racionalidade e de cientificidade.

e) são destituídos de uma visão religiosa e espiritualista de mundo.

 

Resposta:A

No texto da questão dois pontos são destacados como referente ao papel dos direitos humanos, sendo eles: o “caráter racional e regulador da vida humana” e “ratificam a ordenação normativa para comandar a sociedade”. Estas afirmações encontram respaldo na filosofia política dos contratualistas que estabelece que os direitos inerentes aos seres humanos, e que não estão sujeitos à discussão, pois surgem devido à conveniência dos homens que abrem mão de sua liberdade para viverem em sociedade. Assim, surge o direito natural como polo regulador dos limites que a sociedade organizada não pode ultrapassar na consolidação de sua estrutura. Contudo, o texto nos coloca que devido ao progresso das ciências atualmente se descaracterizou sua fundamentação passando estes, a serem tratados como conceito obsoleto que pode ser questionado livremente sem que haja qualquer empecilho caso se julgue que eles não atendam mais as concepções vigentes. Portanto, da mesma forma, os direitos humanos não se fazem mais uma garantia absoluta para a proteção a vida, mas constituem-se como meras referências formais na realidade universal.

 

11. (Unesp 2015) IHU On-Line – A medicalização de condutas classificadas como “anormais” se estendeu a praticamente todos os domínios de nossa existência. A quem interessa a medicalização da vida?

Sandra Caponi – A muitas pessoas. Em primeiro lugar ao saber médico, aos psiquiatras, mas também aos médicos gerais e especialistas. Interessa muito especialmente aos laboratórios farmacêuticos que, desse modo, podem vender seus medicamentos e ampliar o mercado de consumidores de psicofármacos de modo quase indefinido. Porém, esse interesse seria irrelevante se não existisse uma demanda social que aceita e até solicita que uma ampla variedade de comportamentos cotidianos ingresse no domínio do patológico. Um exemplo bastante óbvio é a escola. Crianças com problemas de comportamento mais ou menos sérios hoje recebem rapidamente um diagnóstico psiquiátrico. São medicadas, respondem à medicação e atingem o objetivo social procurado. Essas crianças que tomam ritalina ou antipsicóticos ficam mais calmas, mais sossegadas, concentradas e, ao mesmo tempo, mais tristes e isoladas.

http://www.ihuonline.unisinos.br. Adaptado.

Podemos considerar como uma importante implicação filosófica da medicalização da vida

a) a incorporação do conhecimento científico como meio de valorização da autonomia emocional e intelectual.

b) a institucionalização de procedimentos de análise e de cura psiquiátrica absolutamente objetivos e eficientes.

c) a proliferação social de conhecimentos e procedimentos médicos que pressupõem a patologização da vida cotidiana.

d) a contribuição eticamente positiva da psiquiatrização do comportamento infantil e juvenil na esfera pedagógica.

e) o caráter neutro do progresso científico em relação a condicionamentos materiais e a demandas sociais.

 

Resposta:C

O desenvolvimento das ciências médicas e sociais possibilitou de um lado o avanço na compreensão detalhada do funcionamento do corpo/mente e comportamento humano, de outro lado, colaborou para a classificação e criação de um referencial de normalidade. Por meio deste referencial, classifica-se como “anormal”, ou “patológico”, tudo o que não se adéqua ao padrão estabelecido, em outras palavras, reduz-se toda a complexidade da vida humana a um conjunto de fatores normais ou patológicos. Assim, no intuito de poder corrigir esta “distorção” faz-se uso de medicamentos e procedimentos que atingem objetivos definidos. No caso, uma maior eficiência e adequação do comportamento escolar. Condiciona-se assim, o comportamento às necessidades colocadas pela dinâmica social.

 

12. (Unesp 2015) Texto 1

Karl Popper se diferenciou ao introduzir na ciência a ideia de “falibilismo”. Ele disse o seguinte: “O que prova que uma teoria é científica é o fato de ela ser falível e aceitar ser refutada”. Para ele, nenhuma teoria científica pode ser provada para sempre ou resistir para sempre à falseabilidade. Ele desenvolveu um tipo de teoria de seleção das teorias científicas, digamos, análoga à teoria darwiniana da seleção: existem teorias que subsistem, mas, posteriormente, são substituídas por outras que resistem melhor à falseabilidade.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência, 1996. Adaptado.

Texto 2

O paralelismo entre macrocosmos e microcosmos, a simpatia cósmica e a concepção do universo como um ser vivo são os princípios fundamentais do pensamento hermético, relançado por Marcílio Ficino com a tradução do Corpus Hermeticum. Com base no pensamento hermético, não há qualquer dúvida sobre a influência dos acontecimentos celestes sobre os eventos humanos e terrestres. Desse modo, a magia é a ciência da intervenção sobre as coisas, os homens e os acontecimentos, a fim de dominar, dirigir e transformar a realidade segundo a nossa vontade.

REALE, Giovanni. História da filosofia, vol. 2, 1990.

Baseando-se no conceito filosófico de empirismo, descreva o significado do emprego da palavra “ciência” nos dois textos. Explique também o diferente emprego do termo “ciência” em cada um dos textos.

 

Resposta:

 No primeiro texto o emprego da palavra ciência esta no sentido de que o conhecimento, ou seja, as teorias científicas não são absolutas, elas são temporais e podem ser desmentidas, ou “falseadas”. Segundo Karl Popper as explicações fornecidas pelas teorias científicas não podem assumir um caráter infalível, com o desenrolar do tempo, formas de conhecimento, isto é, teorias mais gerais e mais amplas substituirão as teorias antigas assim como na teoria darwiniana da evolução das espécies, nas quais espécies mais adaptadas ao meio superar seus antecessores.

No segundo texto o termo ciência é utilizado como um conhecimento integrado no qual não se pode prever ou determinar com exatidão seu sentido, separado do todo. O hermetismo propõe uma síntese do universo que recebe influências da realidade suprassensível, ou seja, a influência do pensamento de Platão, mas destacadamente de Plotino, marca esta concepção de ideal que não pode ser alcançado plenamente, mas que pode ser apenas contemplado. O conhecimento da ciência seria então uma compreensão divinizada da natureza.

 

13. (Unesp 2015) A ciência é uma atividade na sua essência antidogmática. Pelo menos deveria sê-lo. A ciência, em particular a física, parte de uma visão do mundo que é, de acordo com a terminologia utilizada por Arquimedes, um pedido que se faz. É assim porque pedimos para que se admita, à escala a que pretendemos descrever os fenômenos, que o mundo assuma uma determinada forma. Os outros pedidos e postulados têm de se inserir, tão pacificamente quanto possível, nesse pedido fundacional. Mas nunca perderão o estatuto de pedidos. Transformá-los em dogmas é perturbar a ciência com atitudes que lhe deveriam ser totalmente estranhas.

(Rui Moreira. “Uma nova visão da natureza”. Le Monde Diplomatique, março de 2015. Adaptado.)

Baseando-se no texto, explique qual deve ser a relação entre ciência e verdades absolutas. Explique também a diferença entre uma visão de mundo baseada em “pedidos” e uma visão de mundo dogmática.

Resposta:

 A ciência propõe teorias e hipóteses como forma de se produzir conhecimento a partir do exercício da observação da realidade empírica e da experimentação. Tal forma de produção de conhecimento não se situa nas fórmulas prontas e dogmáticas que interpretam o mundo. Arquimedes foi, de fato, um físico e matemático que desconfiava das verdades dogmáticas e absolutas.

A ciência “pede” que se admita que o mundo assuma uma determinada forma, isso significa que o conhecimento científico tem um caráter hipotético e dinâmico, diferente da visão dogmática que impõe uma interpretação inflexível, não baseada em experimentos dos fenômenos. Um pedido na concepção metodológica da ciência soa como uma “suponhamos”, abrindo assim portas para o levantamento de hipóteses capazes de se aproximar do mundo real.

 

14. (Unesp 2015) Numa decisão para lá de polêmica, o juiz federal Eugênio Rosa de Araújo, da 17.ª Vara Federal do Rio, indeferiu pedido do Ministério Público para que fossem retirados da rede vídeos tidos como ofensivos à umbanda e ao candomblé. No despacho, o magistrado afirmou que esses sistemas de crenças “não contêm os traços necessários de uma religião” por não terem um texto-base, uma estrutura hierárquica nem “um Deus a ser venerado”. Para mim, esse é um belo caso de conclusão certa pelas razões erradas. Creio que o juiz agiu bem ao não censurar os filmes, mas meteu os pés pelas mãos ao justificar a decisão. Ao contrário do Ministério Público, não penso que religiões devam ser imunes à crítica. Se algum evangélico julga que o candomblé está associado ao diabo, deve ter a liberdade de dizê-lo. Como não podemos nem sequer estabelecer se Deus e o demônio existem, o mais lógico é que prevaleça a liberdade de dizer qualquer coisa.

SCHWARTSMAN, Hélio. “O candomblé e o tinhoso”. Folha de S. Paulo, 20.05.2014. Adaptado.

O núcleo filosófico da argumentação do autor do texto é de natureza

a) liberal

b) marxista

c) totalitária.

d) teológica.

e) anarquista

 

Resposta:A

O conceito de liberdade possui como princípio o ato de se expressar sem nenhuma espécie de constrangimento, determinação ou direcionamento da ação. Neste sentido, a liberdade de dizer o que se deseja, direito garantido pela constituição, esta presente na linha argumentativa utilizada pelo autor. Caracterizando assim uma argumentação liberal.

A resposta “teológica” pode levar a uma confusão, pois o pano de fundo do debate é a questão religiosa, porém não se esta discutindo este tema na argumentação, mas sim sua natureza.

 

15. (Unesp 2014) Texto 1

A verdade é esta: a cidade onde os que devem mandar são os menos apressados pela busca do poder é a mais bem governada e menos sujeita a revoltas, e aquela onde os chefes revelam disposições contrárias está ela mesma numa situação contrária. Certamente, no Estado bem governado só mandarão os que são verdadeiramente ricos, não de ouro, mas dessa riqueza de que o homem tem necessidade para ser feliz: uma vida virtuosa e sábia.

(Platão. A República, 2000. Adaptado.)

Texto 2

Um príncipe prudente não pode e nem deve manter a palavra dada quando isso lhe é nocivo e quando aquilo que a determinou não mais exista. Fossem os homens todos bons, esse preceito seria mau. Mas, uma vez que são pérfidos e que não a manteriam a teu respeito, também não te vejas obrigado a cumpri-la para com eles. Nunca, aos príncipes, faltaram motivos para dissimular quebra da fé jurada.

(Maquiavel. O Príncipe, 2000. Adaptado.)

Comente as diferenças entre os dois textos no que se refere à necessidade de virtudes pessoais para o governante de um Estado.

Resposta:

 No texto 1 Platão desenvolve a tese de que cidade seria melhor administrada pelo “Filósofo Rei”, nesta teoria desenvolvida no livro “A República” o filósofo é o melhor administrador por ser aquele que possui conhecimento da “verdade” que se identifica com o Bom, o Bem e o Belo que residem no Mundo das Ideias. Ele (Filósofo Rei) seria o único capaz de guiar os habitantes da cidade na busca do melhor desenvolvimento de cada um segundo suas aptidões naturais, ou seja, o bem que reside dentro de cada indivíduo pode ser alcançado e permitir uma vida feliz a todos. A virtude do governante centra-se na busca da concretização do bem a todos os habitantes da cidade. Não sendo o filósofo guiado por interesses particulares, ele se torna o administrador ideal para a cidade. Já no texto 2, Nicolau Maquiavel, em seu livro “O Príncipe”, desenvolve uma tese que rompe com lógica estabelecida entre ética e poder. Seu pressuposto de que os homens são maus, faz com que o príncipe deve buscar manter o poder mediante estratégias que não possuem ligação com o comportamento virtuoso. Elementos como virtú (entendida como impetuosidade, coragem) e fortuna (entendida como ventura, oportunidade), somado a um conhecimento da moralidade dos homens, são recursos que permitem ao governante agir de modo calculado, não objetivando o desenvolvimento de uma bondade natural nos homens como acredita Platão, mas tendo como foco a condução dos homens rumo a uma melhor condição de vida que não siga necessariamente o caminho da virtude enquanto retidão moral.

 

16. (Unesp 2014)

Texto 1

Um dos elementos centrais do pensamento mítico e de sua forma de explicar a realidade é o apelo ao sobrenatural, ao mistério, ao sagrado, à magia. As causas dos fenômenos naturais, aquilo que acontece aos homens, tudo é governado por uma realidade exterior ao mundo humano e natural, a qual só os sacerdotes, os magos, os iniciados são capazes de interpretar. Os sacerdotes, os rituais religiosos, os oráculos servem como intermediários, pontes entre o mundo humano e o mundo divino. Os cultos e os sacrifícios religiosos encontrados nessas sociedades são, assim, formas de se agradecer esses favores ou de se aplacar a ira dos deuses.

(Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001. Adaptado.)

Texto 2

Ao longo da história, a corrente filosófica do Empirismo foi associada às seguintes características: 1. Negação de qualquer conhecimento ou princípio inato, que deva ser necessariamente reconhecido como válido, sem nenhuma confirmação ou verificação. 2. Negação do ‘suprassensível’, entendido como qualquer realidade não passível de verificação e aferição de qualquer tipo. 3. Ênfase na importância da realidade atual ou imediatamente presente aos órgãos de verificação e comprovação, ou seja, no fato: essa ênfase é consequência do recurso à evidência sensível.

(Nicola Abbagnano. Dicionário de filosofia, 2007. Adaptado.)

Com base nos textos apresentados, comente a oposição entre o pensamento mítico e a corrente filosófica do empirismo.

Resposta:

 O texto 1 coloca que a explicação mítica da realidade foi o recurso disponível aos homens daquela época para poder compreender a realidade que os cercava. Neste período a realidade exterior ao mundo natural somente poderia ser conhecida por meio de explicações que tivessem a magia, o sobrenatural como base fundante. Desta forma, somente aqueles que se dedicavam exclusivamente a esta atividade poderiam, ser aqueles capazes de compreender os desígnios dos deuses. Os sacerdotes representavam os intermediários entre os dois mundos (humano e divino). Assim, a autoridade de sua palavra era por si só critério suficiente para estabelecer “verdades” míticas que serviam como forma de explicação para os fenômenos naturais.

No texto 2, diferente da explicação mítica, o empirismo, tendo como principais teóricos: John Locke, Francis Bacon e David Hume, não recorre à autoridade da mesma maneira que os mitos, para explicar os fenômenos. Esta corrente de pensamento rejeita que o conhecimento seja inato, descarta, não considera como válido aquilo que não pode ser aferido, verificado, aquilo que não for evidente. A verdade reside não mais na autoridade de quem fala, mas na evidência, na constatação, naquilo que pode ser captado pelos sentidos. O suprassensível é negado, pois não é passível de investigação, verificação.

 

17. (Unesp 2014) A China é a segunda maior economia do mundo. Quer garantir a hegemonia no seu quintal, como fizeram os Estados Unidos no Caribe depois da guerra civil. As Filipinas temem por um atol de rochas desabitado que disputam com a China. O Japão está de plantão por umas ilhotas de pedra e vento, que a China diz que lhe pertencem. Mesmo o Vietnã desconfia mais da China do que dos Estados Unidos. As autoridades de Hanói gostam de lembrar que o gigante americano invadiu o México uma vez. O gigante chinês invadiu o Vietnã dezessete.

(André Petry. O Século do Pacífico. Veja, 24.04.2013. Adaptado.)

A persistência histórica dos conflitos geopolíticos descritos na reportagem pode ser filosoficamente compreendida pela teoria

a) iluminista, que preconiza a possibilidade de um estado de emancipação racional da humanidade.

b) maquiavélica, que postula o encontro da virtude com a fortuna como princípios básicos da geopolítica.

c) política de Rousseau, para quem a submissão à vontade geral é condição para experiências de liberdade.

d) teológica de Santo Agostinho, que considera que o processo de iluminação divina afasta os homens do pecado.

e) política de Hobbes, que conceitua a competição e a desconfiança como condições básicas da natureza humana.

Resposta:E

Obviamente, é muito difícil compreender a persistência histórica dos conflitos geopolíticos através dessa teoria política hobbesiana, pois a grande obra do filósofo britânico não se resume à definição do estado de natureza do homem, no qual todos estão em guerra contra todos. Além disso, não faz qualquer sentido confundir tal estado de natureza com a nossa realidade, que ao se chamar geopolítica já impede uma relação direta com a suposta condição primária da civilização. Nem nós, nem a Inglaterra de Hobbes representamos o estado de natureza, pois tal premissa é um postulado da especulação filosófica do autor, e não um fato constatado. Ora, nós vivemos em uma sociedade global, e não estamos em vivendo no caos absoluto de um confronto geral de vida ou morte.

Se fôssemos compreender a persistência história dos conflitos geopolíticos através da teoria política hobbesiana, então deveríamos tomar tais constantes disputas como resultado da incapacidade dos homens de instituírem um governo global forte o suficiente que obrigasse os cidadãos a honrarem o pacto social.

 

18. (Unesp 2014) Governos que se metem na vida dos outros são governos autoritários. Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo. Em nossa época existe uma outra tentação totalitária, aparentemente mais invisível e, por isso mesmo, talvez, mais perigosa: o “totalitarismo do bem”. A saúde sempre foi um dos substantivos preferidos das almas e dos governos autoritários. Quem estudar os governos autoritários verá que a “vida cientificamente saudável” sempre foi uma das suas maiores paixões. E, aqui, o advérbio “cientificamente é quase vago porque o que vem primeiro é mesmo o desejo de higienização de toda forma de vício, sujeira, enfim, de humanidade não correta. Nosso maior pecado contemporâneo é não reconhecer que a humanidade do humano está além do modo “correto” de viver. E vamos pagar caro por isso porque um mundo só de gente “saudável” é um mundo sem Eros.

(Luiz Felipe Pondé. “Gosto que cada um sente na boca não é da conta do governo”. Folha de S.Paulo, 14.03.2012. Adaptado.)

Na concepção do autor, o totalitarismo

a) é um sistema político exclusivamente relacionado com o fascismo e o comunismo.

b) inexiste sob a égide de regimes políticos institucionalmente democráticos e liberais.

c) depende necessariamente de controles de natureza policial e repressiva dos comportamentos.

d) mobiliza a ciência para estabelecer critérios de natureza biopolítica sobre a vida.

e) estabelece regras de comportamento subordinadas à autonomia dos indivíduos.

 

Resposta:D

No texto em questão, o autor se refere ao problema da governança confundir ou até atravessar as esferas pública e privada dominando os cidadãos através de discursos que buscam domesticar e higienizar a ação humana através do “científico”, ou da “saúde pública”.

“O Estado-Cientista, forma privilegiada da autoridade soberana dos países industrializados, organiza-se como estrutura total da sociedade. Pretende ser uma síntese entre os três níveis constitutivos das coletividades: o domínio privado, a atividade econômica e a ordem estatal. A dominação política penetra a realidade até constituí-la. Fortalecida por seu aparelho técnico-científico e industrial, ela impõe seu poder, fabricando o tempo e o espaço, construindo a terra e o céu”. (F. Châtelet. História das ideias políticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, p. 332)

Para lembrarmos a principal referência do texto citado na questão,

“Em sua maravilhosa descrição de um futuro maníaco por saúde e felicidade, Huxley diagnostica a grande e insuspeita vítima do novo totalitarismo do bem: a morte da liberdade em nome da felicidade limpinha do mundo. O governo deveria deixar as pessoas sentirem o gosto que quiserem em suas bocas”. (Luiz Felipe Pondé, “Gosto que cada um sente na boca não é da conta do governo”. Folha de S. Paulo, 14.03.2012)

 

19. (Unesp 2014) A condenação à violência pode ser estendida à ação dos militantes em prol dos direitos animais que depredaram os laboratórios do Instituto Royal, em São Roque. A nota emocional é difícil de contornar: 178 cães da raça beagle, usados em testes de medicamentos, foram retirados do local. De um lado, por mais que seja minimizado e controlado, há o sofrimento dos bichos. Do outro lado, está nosso bem maior: nas atuais condições, não há como dispensar testes com animais para o desenvolvimento de drogas e medicamentos que salvarão vidas humanas.

(Direitos animais. Veja, 25.10.2013.)

Sob o ponto de vista filosófico, os valores éticos envolvidos no fato relatado envolvem problemas essencialmente relacionados

a) à legitimidade do domínio da natureza pelo homem.

b) a diferentes concepções de natureza religiosa.

c) a disputas políticas de natureza partidária.

d) à instituição liberal da propriedade privada.

e) aos interesses econômicos da indústria farmacêutica.

Resposta:A

A questão aborda a discussão da questão ética, mais especificamente da Bioética, relacionando dois pontos principais: a busca de alternativas para possibilitar uma melhor condição de vida aos humanos e o uso dos seres e elementos da natureza para a obtenção de um fim proposto. Aristóteles justifica a ética como a prática da virtude na busca do “Bem Maior”. A realização plena do homem, somente acontece na vida da cidade, sendo necessário submeter àquilo que é exterior ao homem, neste caso, a natureza, a um domínio, a um fim para alcançar uma melhor qualidade de vida a todos. Desta maneira, o domínio da natureza tem de enfrentar situações que geram debates sobre sua validade e viabilidade. Porém deve-se considerar que para aqueles que, no caso, militam em favor dos direitos dos animais, somente puderam tomar esta atitude, devido ao seu enquanto seres humanos. Isto só foi possível devido às intervenções realizadas na natureza. Portanto, se considerarmos o argumento exposto anteriormente aliado à capacidade racional do ser humano, que se revela pela ação de pensar sua própria existência e mudar aquilo que consideram essencial para sua realização, encontramos motivos mais que suficientes para justificar o domínio do meio.

 

20. (Unesp 2014) Texto 1

Foi assim que, com Paracelso (1493-1541), nasceu e se impôs a iatroquímica. E os iatroquímicos, em certos casos, chegaram a alcançar grandes êxitos, muito embora as justificações de suas teorias, vistas com os olhos da ciência moderna, apareçam-nos hoje bastante fantasiosas. Assim, por exemplo, com base na ideia de que o ferro é associado ao planeta vermelho Marte e a Marte, deus da guerra coberto de sangue e de ferro, administraram com sucesso sais de ferro a doentes anêmicos – e hoje conhecemos as razões científicas desse sucesso.

(Giovanni Reale e Dário Antiseri. História da filosofia, vol. 2, 1991. Adaptado.)

Texto 2

A ciência busca compreender a realidade de maneira racional, descobrindo relações universais e necessárias entre os fenômenos, o que permite prever acontecimentos e, consequentemente, também agir sobre a natureza. Para tanto, a ciência utiliza métodos rigorosos e atinge um tipo de conhecimento sistemático, preciso e objetivo.

(Maria Lúcia de A. Aranha e Maria Helena P. Martins. Temas de filosofia, 1992.)

Baseando-se na descrição do método científico do texto 2, explique por que as fundamentações da iatroquímica podem ser caracterizadas como fantasiosas.

Resposta:

Diferentemente da ciência Moderna, os iatroquímicos ao desenvolverem suas teses recorreram ao uso de elementos simbólicos para explicar os fenômenos manifestos na natureza. Este recurso se fez mediante a necessidade de facilitar a compreensão daquilo que poderia ser observado. Contudo tais observações não fizeram uso de métodos objetivos que garantissem a verificabilidade de suas teses. O rigor proposto pelo método científico moderno tem como pressuposto a verificação, aferição, comparação. Somente por meio de uma analise sistemática, que possa ser reproduzida e captada pelos sentidos se é possível estabelecer propriedades pertencentes ao mundo natural e aos fenômenos que fazem parte desta realidade. O texto 1 ainda prescinde de elementos míticos e fantasiosos do mundo. Já o texto 2, destaca que quanto maior a precisão do método e sua aplicação maior a possibilidade de estabelecer as relações universais entre os fenômenos.

 

21. (Unesp 2014) Texto 1

Você quer ter boa saúde e vida longa para você e sua família? Anseia viver num mundo onde a dor, o sofrimento e a morte serão coisas do passado? Um mundo assim não é apenas um sonho. Pelo contrário, um novo mundo de justiça logo será realidade, pois esse é o propósito de Deus. Jeová levará a humanidade à perfeição por meio do sacrifício de resgate de Jesus. Os humanos fiéis viverão como Deus queria: para sempre e com saúde perfeita.

(A Sentinela, dezembro de 2013. Adaptado.)

Texto 2

Assim, tenho de contradizê-lo quando prossegue argumentando que os homens são completamente incapazes de passar sem a consolação da ilusão religiosa, que, sem ela, não poderiam suportar as dificuldades da vida e as crueldades da realidade. Sem a religião, terão de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não podem mais ser o centro da criação, o objeto de terno cuidado por parte de uma Providência beneficente. Mas não há dúvida de que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a “vida hostil”. Podemos chamar isso de “educação para a realidade”.

(Sigmund Freud. O futuro de uma ilusão, 1974. Adaptado.)

Comente as diferenças entre os dois textos no tocante à religião.

Resposta:

 O texto 1 aborda a questão da religião transmitindo tranquilidade ao ser humano ao propor um caminho que os conduzirá rumo à satisfação de todas suas necessidades. A condição necessária para isto é a adesão a Deus, ou seja, a fidelidade a Deus garantirá uma vida feliz para aqueles que resolveram ser submissos a Ele.

No texto 2 o psicanalista Sigmund Freud apresenta uma argumentação que o discurso religioso é um discurso que se fundamenta nos sentimentos, desejos e ilusões do ser humano. Para Freud o discurso religioso apela para a infância, à falta de maturidade, falta de autonomia intelectual e afetiva. Neste sentido, as ilusões em relação ao uma melhor condição de vida repousam sobre uma mística no qual a razão é deixada de lado. O texto 1 coloca que a satisfação dos desejos serão plenamente atendidos caso nos submetamos a uma “providência” maior, onde poderemos ter saúde, justiça e uma vida digna sem termos de nos responsabilizar pelas escolhas que fizermos. Já no texto 2, Freud propõe que o desenvolvimento da maturidade deve ser fruto de uma “educação para a realidade”, ou seja, uma educação que coloque o homem de posse de si, sendo racional para a compreensão de sua condições e que seja integralmente responsável pela satisfação dos seus desejos e aspirações, assumindo as consequências de suas decisões.

 

22. (Unesp 2014) “Religião sempre foi um negócio lucrativo.” Assim começa uma reportagem da revista americana Forbes sobre os milionários bispos fundadores das maiores igrejas evangélicas do Brasil. A revista fez um ranking com os líderes mais ricos. No topo da lista, está o bispo Edir Macedo, que tem uma fortuna estimada em R$ 2 bilhões, segundo a revista. Em seguida, vem Valdemiro Santiago, com R$ 400 milhões; Silas Malafaia, com R$ 300 milhões; R. R. Soares, com R$ 250 milhões, e Estevan Hernandes Filho e a bispa Sônia, com R$ 120 milhões juntos. A Forbes também destaca o crescimento dos evangélicos no Brasil – de 15,4% para 22,2% da população na última década –, em detrimento dos católicos. Hoje, os católicos romanos somam 64,6% da população, ou 123 milhões de brasileiros. Os evangélicos, por sua vez, já somam 42 milhões, em uma população total de 191 milhões de pessoas.

(Forbes lista os seis líderes milionários evangélicos no Brasil.uol.com.br, 19.01.2013. Adaptado.)

Os fatos descritos na reportagem são compatíveis filosoficamente com uma concepção

a) teológico-protestante, baseada na valorização do sacrifício pessoal e da prosperidade material.

b) kantiana, que preconiza a possibilidade de se atingir a maioridade intelectual.

c) cartesiana, que pressupõe a existência de Deus como condição essencial para o conhecimento racional.

d) dialético-materialista, baseada na necessidade de superação do trabalho alienado.

e) teológico-católica, defensora da caridade e idealizadora de virtudes associadas à pobreza.

 

Resposta:A

É tão estranha a classificação de uma teologia-protestante como filosofia que qualquer professor decente se perguntará após ler essa questão qual o significado do advérbio “filosoficamente” utilizado na escrita do texto. Como poderia haver compatibilidade filosófica entre duas coisas que não são de modo algum filosofias? Enfim, afirmemos que considerando os fatos descritos na reportagem nos parece que eles não sejam compatíveis com nenhuma concepção da tradição filosófica; todavia, que eles sejam vagamente compatíveis com o calvinismo citado em “concepção teológico-protestante, baseada na valorização do sacrifício pessoal e da prosperidade material”.

 

23. (Unesp 2013) Do lado oposto da caverna, Platão situa uma fogueira – fonte da luz de onde se projetam as sombras – e alguns homens que carregam objetos por cima de um muro, como num teatro de fantoches, e são desses objetos as sombras que se projetam no fundo da caverna e as vozes desses homens que os prisioneiros atribuem às sombras. Temos um efeito como num cinema em que olhamos para a tela e não prestamos atenção ao projetor nem às caixas de som, mas percebemos o som como proveniente das figuras na tela.

(Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001.)

Explique o significado filosófico da Alegoria da Caverna de Platão, comentando sua importância para a distinção entre aparência e essência.

Resposta:

 A Alegoria da Caverna quer dizer, utilizando uma imagem fictícia, como era a realidade da cidade de Atenas ou de todas as cidades. Tal realidade é que os homens vivem suas vidas encantados com imagens, ou seja, eles vivem suas vidas encantados com aquilo que mantém apenas a aparência da realidade. Não apenas o homem está nessa situação de enfeitiçado, porém ele também está preso impedido de chacoalhar para fora dessa situação. O filósofo é quem consegue se livrar do feitiço e depois quebrar os grilhões que o impedem de sair desse estado. É fundamental, segundo a alegoria, realizar esse movimento para fora da caverna para conceber que a aparência explicitada pelas imagens não revela muito sobre a verdade descoberta sob a luz existente fora da caverna. A aparência é apenas um simulacro produzido na caverna, a essência é uma descoberta feita livre do confinamento neste antro que os homens vivem, chamado “cidade”.

 

24. (Unesp 2013) Texto 1

Para santo Tomás de Aquino, o poder político, por ser uma instituição divina, além dos fins temporais que justificam a ação política, visa outros fins superiores, de natureza espiritual. O Estado deve dar condições para a realização eterna e sobrenatural do homem. Ao discutir a relação Estado-Igreja, admite a supremacia desta sobre aquele. Considera a Monarquia a melhor forma de governo, por ser o governo de um só, escolhido pela sua virtude, desde que seja bloqueado o caminho da tirania.

Texto 2

Maquiavel rejeita a política normativa dos gregos, a qual, ao explicar “como o homem deve agir”, cria sistemas utópicos. A nova política, ao contrário, deve procurar a verdade efetiva, ou seja, “como o homem age de fato”. O método de Maquiavel estipula a observação dos fatos, o que denota uma tendência comum aos pensadores do Renascimento, preocupados em superar, através da experiência, os esquemas meramente dedutivos da Idade Média. Seus estudos levam à constatação de que os homens sempre agiram pelas formas da corrupção e da violência.

(Maria Lúcia Aranha e Maria Helena Martins. Filosofando, 1986. Adaptado.)

Explique as diferentes concepções de política expressadas nos dois textos.

Resposta:

 A primeira concepção é por princípio uma concepção política teológica. O poder político é instituído por Deus e a finalidade da ação política é a salvação. O Estado, por conseguinte, deve se conformar de tal maneira que permita, ou melhor, condicione o homem a viver em função do fim maior, em função da eternidade representada na salvação. São Tomás é evidentemente um católico, considerando a primazia de sua religião sobre quaisquer necessidades mundanas, organizando o poder político e a ação do cidadão de tal maneira que reflita apropriadamente os dogmas da Igreja.

A segunda concepção é por princípio uma concepção política moderna, ou pré-moderna. A primeira superação perpetrada por Maquiavel é a superação do discurso antigo a respeito da necessidade do homem manter um hábito guiado pelas virtudes cardiais: sabedoria, coragem, temperança e magnanimidade. Não que o homem não deva possuir tais características, todavia elas não devem de modo algum impedi-lo de realizar uma ação cruel se assim se demonstrar útil para que ele efetive o seu poder. A segunda superação perpetrada por Maquiavel é a superação do discurso escolástico que predispunha o começo, meio e fim das coisas a partir da certeza da palavra revelada. O mundo da experiência é guiado pela fortuna e não se faz sentido impedir que certas ações se realizem, pois circunstancialmente elas podem ser as melhores.

 

25. (Unesp 2013) Preguiça e covardia são as causas que explicam por que uma grande parte dos seres humanos, mesmo muito após a natureza tê-los declarado livres da orientação alheia, ainda permanecem, com gosto, e por toda a vida, na condição de menoridade. É tão confortável ser menor! Tenho à disposição um livro que entende por mim, um pastor que tem consciência por mim, um médico que prescreve uma dieta etc.: então não preciso me esforçar. A maioria da humanidade vê como muito perigoso, além de bastante difícil, o passo a ser dado rumo à maioridade, uma vez que tutores já tomaram para si de bom grado a sua supervisão. Após terem previamente embrutecido e cuidadosamente protegido seu gado, para que estas pacatas criaturas não ousem dar qualquer passo fora dos trilhos nos quais devem andar, os tutores lhes mostram o perigo que as ameaça caso queiram andar por conta própria. Tal perigo, porém, não é assim tão grande, pois, após algumas quedas, aprenderiam finalmente a andar; basta, entretanto, o perigo de um tombo para intimidá-las e aterrorizá-las por completo para que não façam novas tentativas.

(Immanuel Kant, apud Danilo Marcondes. Textos básicos de ética – de Platão a Foucault, 2009. Adaptado.)

O texto refere-se à resposta dada pelo filósofo Kant à pergunta sobre “O que é o Iluminismo?”. Explique o significado da oposição por ele estabelecida entre “menoridade” e “autonomia intelectual”.

Resposta:

 A oposição entre menoridade e maioridade (ou autonomia) é o recurso alegórico utilizado para falar sobre o estado do homem e o movimento Iluminista que buscava retirar o homem deste estado. O homem, diz Kant, está acomodado. Preguiçoso e covarde, o homem continua, mesmo depois de adquirir plenas capacidades de ser autônomo (de se dar a própria lei), servo da consciência de outros, das prescrições de terceiros. Além da sua própria preguiça e covardia, o ato mesmo de se tornar maior é visto como perigoso, o que faria a libertação da tutoria uma escolha ainda menos provável. Enfim, passar da menoridade para a maioridade é um ato de libertação do homem das relações de tutela que direcionam opressivamente o seu comportamento.

Estas aulas do professor Franklin comentam com primor a ideia de autonomia presente no texto sobre o Iluminismo de Kant:

 

26. (Unesp 2013) Uma obra de arte pode denominar-se revolucionária se, em virtude da transformação estética, representar, no destino exemplar dos indivíduos, a predominante ausência de liberdade, rompendo assim com a realidade social mistificada e petrificada e abrindo os horizontes da libertação. Esta tese implica que a literatura não é revolucionária por ser escrita para a classe trabalhadora ou para a “revolução”. O potencial político da arte baseia-se apenas na sua própria dimensão estética. A sua relação com a práxis (ação política) é inexoravelmente indireta e frustrante. Quanto mais imediatamente política for a obra de arte, mais reduzidos são seus objetivos de transcendência e mudança. Nesse sentido, pode haver mais potencial subversivo na poesia de Baudelaire e Rimbaud que nas peças didáticas de Brecht.

 (Herbert Marcuse. A dimensão estética, s/d.)

Segundo o filósofo, a dimensão estética da obra de arte caracteriza-se por

a) apresentar conteúdos ideológicos de caráter conservador da ordem burguesa.

b) comprometer-se com as necessidades de entretenimento dos consumidores culturais.

c) estabelecer uma relação de independência frente à conjuntura política imediata.

d) subordinar-se aos imperativos políticos e materiais de transformação da sociedade.

e) contemplar as aspirações políticas das populações economicamente excluídas.

 

Resposta:C

A tese de Marcuse revela algo que libera a obra de arte de um engajamento literal do seu sentido estético, quer dizer, a proposição do filósofo expõe que a intenção da obra não é engajada politicamente apenas se ela estiver vinculada propositalmente a uma classe oprimida da sociedade, mas sim sempre que ela revelar, segundo uma exemplaridade que extrapola o contemporâneo, a evidência um futuro decadente. A arte é muito mais subversiva quando está próxima da libertação e quando favorece a liberdade do artista e do homem.

 

27. (Unesp 2013) Por que as pessoas fazem o bem? A bondade está programada no nosso cérebro ou se desenvolve com a experiência? O psicólogo Dacher Keltner, diretor do Laboratório de Interações Sociais da Universidade da Califórnia, em Berkeley, investiga essas questões por vários ângulos e apresenta resultados surpreendentes.

Keltner – O nervo vago é um feixe neural que se origina no topo da espinha dorsal. Quando ativo, produz uma sensação de expansão confortável no tórax, como quando estamos emocionados com a bondade de alguém ou ouvimos uma bela música. Pessoas com alta ativação dessa região cerebral são mais propensas a desenvolver compaixão, gratidão, amor e felicidade.

Mente & Cérebro – O que esse tipo de ciência o faz pensar?

Keltner – Ela me traz esperanças para o futuro. Que nossa cultura se torne menos materialista e privilegie satisfações sociais como diversão, toque, felicidade que, do ponto de vista evolucionário, são as fontes mais antigas de prazer. Vejo essa nova ciência em quase todas as áreas da vida. Ensina-se meditação em prisões e em centros de detenção de menores. Executivos aprendem que inteligência emocional e bom relacionamento podem fazer uma empresa prosperar mais do que se ela for focada apenas em lucros.

(www.mentecerebro.com.br. Adaptado.)

De acordo com a abordagem do cientista entrevistado, as virtudes morais e sentimentos agradáveis

a) dependem de uma integração holística com o universo.

b) dependem de processos emocionais inconscientes.

c) são adquiridos por meio de uma educação religiosa.

d) são qualidades inatas passíveis de estímulo social.

e) estão associados a uma educação filosófica racionalista.

 

Resposta:

 [D]

A questão é problemática, pois o que nos é inato é a capacidade de reagir bem perante situações de certo tipo. No caso, o nervo vago ao ser ativado produz uma sensação agradável quando nos emocionamos diante de algum evento estético, isto é, diante de algum evento sensível. Não se pode confundir a condição de possibilidade (por exemplo, a existência do nervo vago e sua capacidade de realizar certa função), com a própria qualidade moral e os sentimentos bons; quer dizer, a materialização dessa função em algo bom necessita, como diz a resposta do cientista à segunda pergunta, de um estímulo específico contínuo. É, por isso, que deveríamos privilegiar “satisfações sociais como diversão, toque…”. Portanto, as qualidades e os sentimentos são construídos justamente através do incentivo social, ou seja, não são inatas. O homem seria, pela perspectiva exposta na questão, programado pela evolução para poder ser bom, e não para ser a priori bom; o homem é programado para a possibilidade. Poderíamos dizer que o homem é programado com livre-arbítrio.

 

28. (Unesp 2013)

O hormônio testosterona está ligado ao egoísmo, segundo uma pesquisa inglesa. Em testes feitos por cientistas da University College London, na Grã-Bretanha, mulheres que tomaram doses do hormônio masculino mostraram comportamento egocêntrico quando tinham de lidar com problemas em pares. Quando os pesquisadores ministraram placebo às voluntárias antes dos testes, elas cooperaram entre si. O estudo ajuda a explicar como os hormônios moldam o comportamento humano.

(Testosterona pode induzir comportamento egoísta. Veja, 01.02.2012.)

O pressuposto fundamental assumido pela pesquisa citada para explicar o comportamento humano pode ser identificado com

a) as diferenças sociais de gênero.

b) o determinismo biológico.

c) os fatores de natureza histórica.

d) os determinismos materiais da sociedade.

e) a autonomia ética do indivíduo.

 

Resposta: B

O determinismo biológico mencionado quer dizer algo bastante simples, a saber: fatores orgânicos presentes no ser humano ou devido seu nascimento (genéticos), ou devido alguma composição química do seu organismo (hormonais) alteram necessariamente o seu comportamento em geral. A pesquisa citada expressa exatamente isso, ela expressa exatamente que a alteração hormonal em mulheres (tomar testosterona) determina seu comportamento de tal maneira que ela passa a agir menos cooperativamente.

 

29. (Unesp 2013) Texto 1

Sobre o estupro coletivo de uma estudante de 23 anos em Nova Déli, o advogado que defende os suspeitos declarou: “Até o momento eu não vi um único exemplo de estupro de uma mulher respeitável”. Sobre esta declaração, o advogado garantiu que não tentou difamar a vítima. “Eu só disse que as mulheres são respeitadas na Índia, sejam mães, irmãs, amigas, mas diga-me que país respeita uma prostituta?!”

(Advogado de acusados de estupro na Índia denuncia confissão forçada.

http://noticias.uol.com.br. Adaptado.)

Texto 2

Na Índia, a violência contra as mulheres tomou uma nova e mais perversa forma, a partir do cruzamento de duas linhas: as estruturas patriarcais tradicionais e as estruturas capitalistas emergentes. Precisamos pensar nas relações entre a violência do sistema econômico e a violência contra as mulheres.

(Vandana Shiva, filósofa indiana. No continuum da violência. O Estado de S.Paulo, 12.01.2013. Adaptado.)

Os textos referem-se ao fato ocorrido na Índia em dezembro de 2012. Pela leitura atenta dos textos, podemos afirmar que:

a) segundo a filósofa, fatos como esse explicam-se pela confluência de fatores históricos e econômicos de exclusão social.

b) para a filósofa, a violência contra as mulheres na Índia deve- se exclusivamente ao neoliberalismo econômico.

c) as duas interpretações sugerem que a prevenção de tais atos violentos depende do resgate de valores religiosos.

d) sob a ótica do advogado, esse fato ocorreu em virtude do desrespeito aos direitos humanos.

e) as duas interpretações limitam-se a reproduzir preconceitos de gênero socialmente hegemônicos naquele país.

 

Resposta:A

A questão trabalha um problema complicado, a saber, o preconceito. O preconceito do argumento moralista do advogado, citado no Texto 1, que ilustra o preconceito sistemático desenvolvido a partir de uma estrutura, apontado pela filósofa no Texto 2. O advogado busca amenizar um ato abominável através de uma opinião completamente preconceituosa sobre as mulheres, o comportamento delas, e sobre as prostitutas; uma opinião originada na estrutura patriarcal da sociedade indiana que busca dominar a liberdade das mulheres subjugando-a.

Sobre o preconceito em geral segue este texto:

“Segundo Heller (1989), o preconceito é categoria do pensamento e do comportamento cotidiano. Contudo, a autora afirma que não é por fazer parte da vida cotidiana que os preconceitos devem ser naturalizados e aceitos. Em suas palavras, “quem não se liberta de seus preconceitos artísticos, científicos e políticos acaba fracassando, inclusive pessoalmente” (Agnes Heller).

Entretanto, problematizar as situações que envolvem preconceitos, desmistificar suas origens não é tarefa fácil, justamente porque as pessoas imersas na vida cotidiana precisam de certa praticidade, de “pragmatismo” para que a vida flua. Para tanto, uma das características da vida cotidiana é a ultrageneralização. Segundo Heller, chegamos à ultrageneralização de nosso pensamento e comportamento cotidiano de duas maneiras: “por um lado, assumimos estereótipos, analogias e esquemas já elaborados; por outro, eles nos são ‘impingidos’ pelo meio em que crescemos”. Devido a essas condições, muitas pessoas demoram a adotar uma “atitude crítica” em relação aos esquemas recebidos, e outras nunca chegam a fazê-lo. Pode-se dizer, então, que as ultrageneralizações são “juízos provisórios” ou “regra provisória de comportamento”, que nos permitem transitar pelas várias atividades que temos que realizar, parafraseando Heller: “provisória porque se antecipa à atividade possível e, nem sempre, muito pelo contrário, encontra confirmação no infinito processo da prática”. Mas, quando esses juízos provisórios são refutados pela ciência e por uma experiência cuidadosamente analisada e, mesmo assim, conservam-se inabalados contra todos os argumentos da razão, estamos diante de um preconceito.

(Heller”. (A. F. M. Cordeiro & J. F. Buendgens – Preconceitos na escola: sentidos e significados atribuídos pelos adolescentes no ensino médio. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, Sp. Volume 16, Número 1, Janeiro/Junho de 2012)

 

 

30. (Unesp 2013)

Em um documento rubricado pela Rede Global de Academias de Ciência (IAP), um grupo de pensadores da comunidade científica com sede em Trieste (Itália) que engloba 105 academias de todo o mundo alerta pela primeira vez sobre os riscos do consumo nos países do Primeiro Mundo e a falta de controle demográfico, principalmente nas nações em desenvolvimento. Na declaração da comunidade científica se indica que as pautas de consumo exacerbado do Primeiro Mundo estão se deslocando perigosamente para os países em desenvolvimento: os milhões de telefones celulares e toneladas de “junk food” que invadem os lares pobres são claros indicadores dessa problemática. A ausência nos países pobres de políticas de planejamento familiar ou de prevenção de gravidezes precoces acaba de configurar um sombrio cenário de superpopulação. “Trata-se de dois problemas convergentes que pela primeira vez analisamos de forma conjunta”, afirma García Novo.

(Francho Barón. El País, 16.06.2012. Adaptado.)

Um dos problemas relatados no texto está relacionado com

a) a supremacia de tendências estatais de controle sobre a economia liberal.

b) o aumento do nível de pobreza nos países subdesenvolvidos.

c) a hegemonia do planejamento familiar nos países do Terceiro Mundo.

d) o declínio dos valores morais e religiosos na era contemporânea.

e) o irracionalismo das relações de consumo no mundo atual.

 

Resposta:E

É evidente que um dos problemas relatados no texto citado refere-se ao consumo desgovernado. Não apenas o consumo dos cidadãos é impulsivo nos países desenvolvidos, porém nos países em crescimento também a irracionalidade é presente no momento da compra e da utilização dos produtos industriais. A liberdade do cidadão para consumir e satisfazer suas vontades de modo desmoderado faz-se a partir do momento que o desenvolvimento dos países pobres garante a certa classe uma quantidade monetária suficiente para participar do mercado e comprar mercadorias e serviços. A ausência de programas educacionais coesos e coerentes nesses países em desenvolvimento acaba criando problemas, dois deles mencionados no texto, a saber: 1) o consumo sem planejamento baseado unicamente na satisfação de desejos supérfluos; e 2) uma economia familiar organizada de acordo com essa satisfação dos desejos supérfluos.

 

31. (Unesp 2013) A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito refletido faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos.

(Christopher Lasch. O mínimo eu, 1987. Adaptado.)

Sob o ponto de vista ético e filosófico, na sociedade de consumo, o indivíduo

a) estabelece com os produtos ligações que são definidas pela separação entre razão e emoção.

b) representa a realidade mediante processos mentais essencialmente objetivos e conscientes.

c) relaciona-se com as mercadorias considerando prioritariamente os seus aspectos utilitários.

d) relaciona-se com objetos que refletem ilusoriamente seus processos emocionais inconscientes.

e) comporta-se de maneira autônoma frente aos mecanismos publicitários de persuasão.

 

Resposta:D

A centralidade da mercadoria na nossa sociedade faz com que os processos de construção da subjetividade individual sejam enviesados. O valor da mercadoria, sendo a marca e não a utilidade do produto, implica o esfacelamento material da relação entre o indivíduo e a coisa e torna a formação da subjetividade algo dependente da fantasia representada pelo objeto de consumo. Assim, “o consumidor vive rodeado… por fantasias… que [parecem] existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos”.

 

32. (Unesp 2013) Texto 1

O ser humano é a flor do céu que desabrochou na Terra. Sua semente foi plantada por Deus, sua bela imagem foi projetada por Deus e seu perfume agradável foi também presenteado por Deus. Não devemos perder essa bela imagem nem o agradável perfume. Nosso belo desabrochar é a manifestação da glória de Deus.

(Seicho-no-ie do Brasil. Palavras de luz, 2013.)

Texto 2

Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza, congelou-se o astro e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido.

(Friedrich Nietzsche. Sobre verdade e mentira no sentido extramoral. Adaptado.)

Os textos citados apresentam concepções filosóficas distintas sobre o lugar do ser humano no universo. Discorra brevemente sobre essas diferenças, considerando o teor antropocêntrico dos textos.

Resposta:

 A principal distinção entre as concepções (uma religiosa e a outra filosófica) é a antropologia que cada uma propõe. A primeira oferece uma noção de homem gloriosa: “nosso belo desabrochar é a manifestação da glória de Deus”; a segunda oferece uma noção de homem niilista: “houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido”. A primeira é totalmente antropocêntrica, já a segunda nega tal centralidade. A primeira é problemática, pois exalta o homem com uma euforia viciante e possibilita em contrapartida um egoísmo nocivo capaz de ofuscar questões importantes. A segunda é problemática, pois nega totalmente um sentido para a existência e priva o sujeito de motivação. Todavia, ambas abrem possibilidades; a primeira oferece a construção de uma vida em harmonia com a glória de Deus, e a segunda oferece a possibilidade de fortalecimento do homem enquanto quem constrói conscientemente o mundo a partir da sua liberdade inexplicável natural.

 

33. (Unesp 2013) Ninguém pode deixar de reconhecer a influência da teoria do bom selvagem na consciência contemporânea. Ela é vista no presente respeito por tudo o que é natural (alimentos naturais, remédios naturais, parto natural) e na desconfiança diante do que é feito pelo homem, no desuso dos estilos autoritários de criação de filhos e na concepção dos problemas sociais como defeitos reparáveis em nossas instituições, e não como tragédias inerentes à condição humana.

(Steven Pinker. Tábula rasa – a negação contemporânea da natureza humana, 2004. Adaptado.)

Explique a origem e o conteúdo da “teoria do bom selvagem” na história da Filosofia e comente sua implicação na análise dos problemas sociais.

Resposta:

 Filosoficamente, a “teoria do bom selvagem” não existe. O que existe é a teoria do estado natural que Locke, Rousseau e outros filósofos engendraram. Nessas teorias o homem é considerado ser, diferentemente de Hobbes, simplesmente animal, ou melhor, é considerado estar definido apenas por seu instinto animal. Desse modo, definido apenas pelo seu instinto animal, o homem não é nem bom, nem mau, ou seja, ele não possui nenhum conjunto de valores que serviriam de referência para um julgamento moral do seu caráter. É posteriormente quando o homem deixa de ser selvagem e passa a ser sociável que os valores transformam o juízo, permitindo a afirmação da bondade e da maldade. Então, de certa maneira a ideia mesma de “bom selvagem” pode ser vista como contraditória. Porém, o romantismo se apropriou dessa imagem do selvagem para falar de um homem livre das características deploráveis do homem civilizado, como a ganância, a inveja, a desonestidade, etc.

 

34. (Unesp 2013)

 Desde o início da semana, alunos da rede municipal de Vitória da Conquista, na Bahia, não vão mais poder cabular aulas. Um “uniforme inteligente” vai contar aos pais se os alunos chegaram à escola – ou “dedurar” se eles não passaram do portão. O sistema, baseado em rádio-frequência, funciona por meio de um minichip instalado na camiseta do novo uniforme, que começou a ser distribuído para 20 mil estudantes na segunda-feira. Funciona assim: no momento em que os alunos entram na escola, um sensor instalado na portaria detecta o chip e envia um SMS aos pais avisando sobre a entrada na instituição.

(Natália Cancian. Uniforme inteligente entrega aluno que cabula aula na Bahia. Folha de S.Paulo, 22.03.2012.)

A leitura do fato relatado na reportagem permite repercussões filosóficas relacionadas à esfera da ética, pois o “uniforme inteligente”

a) está inserido em um processo de resistência ao poder disciplinar na escola.

b) é fruto de uma ação do Estado para incrementar o grau de liberdade nas escolas.

c) indica a consolidação de mecanismos de consulta democrática na escola pública.

d) introduz novas formas institucionais de controle sobre a liberdade individual.

e) proporciona uma indiscutível contribuição científica para a autonomia individual.

 

Resposta:D

Especificamente, a questão se refere mais a uma questão Política, pois a Ética tem a ver com uma reflexão teórica sobre a maneira segundo a qual um homem estabelece os seus hábitos. Sendo a liberdade um dado constitucional presente no texto fundador da sociedade democrática, o problema de restringir a ação de um cidadão livre através de um controle do Estado, isto é, através do uso de poder, passa a ser um problema especialmente político. Isso quer dizer que a questão deve primordialmente se referir aos princípios e modos de organização da cidade e não a uma especulação sobre o dever ser. Resumindo, a questão é: o Estado pode controlar desta maneira a ação de um cidadão livre? O Estado possui esse poder, se o cidadão não comete nenhuma ação criminosa?

 

35. (Unesp 2013)

A modernidade não pertence a cultura nenhuma, mas surge sempre CONTRA uma cultura particular, como uma fenda, uma fissura no tecido desta. Assim, na Europa, a modernidade não surge como um desenvolvimento da cultura cristã, mas como uma crítica a esta, feita por indivíduos como Copérnico, Montaigne, Bruno, Descartes, indivíduos que, na medida em que a criticavam, já dela se separavam, já dela se desenraizavam. A crítica faz parte da razão que, não pertencendo a cultura particular nenhuma, está em princípio disponível a todos os seres humanos e culturas. Entendida desse modo, a modernidade não consiste numa etapa da história da Europa ou do mundo, mas numa postura crítica ante a cultura, postura que é capaz de surgir em diferentes momentos e regiões do mundo, como na Atenas de Péricles, na Índia do imperador Ashoka ou no Brasil de hoje.

(Antonio Cícero. Resenha sobre o livro “O Roubo da História”. Folha de S.Paulo, 01.11.2008. Adaptado.)

Com a leitura do texto, a modernidade pode ser entendida como

a) uma tendência filosófica especificamente europeia e ocidental de crítica cultural e religiosa.

b) uma tendência oposta a diversas formas de desenvolvimento da autonomia individual.

c) um conjunto de princípios morais absolutos, dotados de fundamentação teológica e cristã.

d) um movimento amplo de propagação da crítica racional a diversas formas de preconceito.

e) um movimento filosófico desconectado dos princípios racionais do iluminismo europeu.

 

Resposta:D

De acordo com o texto, a modernidade pode ser entendida como um movimento crítico de oposição a certa cultura. Não é exatamente um movimento amplo de propagação de crítica racional a diversas formas de preconceito, pois o autor não determina que tipo de crítica a modernidade defende e nem contra o quê a modernidade se põe. A modernidade é caracterizada simplesmente como uma posição contrária ao estado de coisas que permite uma abertura através da qual se supera uma tradição. Afinal, o autor está dizendo que a modernidade não é limitada à história da Europa, então é um tanto complicado tentar entender a modernidade a partir de uma definição baseada no movimento Iluminista (séc. XVIII). A modernidade é entendida através de uma análise histórica pela qual se observa os movimentos de crítica às realidades reificadas e o desmanche daquelas coisas supostamente consolidadas.

 

36. (Unesp 2013)

Encontrar explicações convincentes para a origem e a evolução da vida sempre foi uma obsessão para os cientistas. A competição constante, embora muitas vezes silenciosa, entre os indivíduos, teria preservado as melhores linhagens, afirmava Charles Darwin. Assim, um ser vivo com uma mutação favorável para a sobrevivência da espécie teria mais chances de sobreviver e espalhar essa característica para as futuras gerações. Ao fim, sobreviveriam os mais fortes, como interpretou o filósofo Herbert Spencer. Um século e meio depois, um biólogo americano agita a comunidade científica internacional ao ousar complementar a teoria da seleção darwinista. Segundo Edward Wilson, da Universidade de Harvard, o processo evolutivo é mais bem-sucedido em sociedades nas quais os indivíduos colaboram uns com os outros para um objetivo comum. Assim, grupos de pessoas, empresas e até países que agem pensando em benefício dos outros e de forma coletiva alcançam mais sucesso, segundo o americano.

(Rachel Costa. O poder da generosidade. IstoÉ, 11.05.2012. Adaptado.)

Embora divergentes no que se refere aos fatores que explicam a evolução da espécie humana, ambas as teorias, de Darwin e de Wilson, apresentam como ponto comum a concepção de que

a) influências religiosas e metafísicas são o principal veículo no processo evolutivo humano ao longo do tempo.

b) são os condicionamentos psicológicos que influenciam de maneira decisiva o progresso na história.

c) a sobrevivência da espécie humana ao longo da história é explicada pela primazia de fatores de natureza evolutiva.

d) os fatores econômicos e materiais são os principais responsáveis pelas transformações históricas.

e) os fatores intelectuais são os principais responsáveis pelo sucesso dos homens em dominar a natureza.

Resposta:C

Como diz o texto, a diferença entre a teoria evolutiva de Darwin e de Wilson está no caráter competitivo ou cooperativo dos indivíduos da espécie. Para um, em um ambiente de competição silenciosa, para assegurar a manutenção das suas características em detrimento das outras de outros indivíduos, evoluirá mais rapidamente aquele individualmente melhor adaptado às regras do jogo. Para outro, em um ambiente de cooperação, para garantir que todos os indivíduos atinjam um objetivo que lhes é comum, evoluirá mais rapidamente aquele que colabore para favorecer o coletivo, isto é, o alcance da meta que é comum.

 

37. (Unesp 2013)

O marketing religioso objetiva identificar as necessidades de espírito e de conhecimento dos adeptos de uma determinada religião, oferecendo uma linha de produtos e serviços específicos para determinado segmento religioso e linguagem inerente ao tipo de pregação veiculada. A pessoa que se sente vazia num mundo capitalista e individualista busca refúgio através de uma religião. Identificar o público que mais frequenta o templo e o bairro onde o mesmo está situado, o nível de escolaridade, renda, hábitos, demais dados dos perfis demográficos e psicográficos são considerados num planejamento de marketing de uma linha de produtos religiosos.

(Fernando Rebouças. Marketing religioso. http://www.infoescola.com, 04.01.2010. Adaptado.)

O fenômeno descrito pode ser explicado por tendências de

a) instrumentalização e mercantilização da fé religiosa.

b) crítica religiosa à massificação de produtos de consumo.

c) recuperação das práticas religiosas tradicionais.

d) indiferença das igrejas e religiões frente às demandas de mercado.

e) rejeição de ferramentas administrativas no âmbito religioso.

Resposta:A

O fenômeno descrito como a diminuição da importância da religião em si mesma. No caso, a religião é um recurso utilizável de acordo com as necessidades do sujeito vazio e perdido num mundo capitalista e individualista. Paradoxalmente, a religião é tanto parte do mundo capitalista quanto não é para essas pessoas que fazem uso da religião, quer dizer, a religião é um refúgio do capitalismo cujo funcionamento é exatamente igual ao do próprio capitalismo. O que faz nós entendermos a falta de importância da religião em si mesma, e a relevância da produção de certos relacionamentos e crenças para a constituição do sujeito. Não interessa o fato de a religião ser organizada de maneira capitalista, o que interessa para os consumidores de religião é o relacionamento estabelecido dentro da comunidade religiosa e as crenças que são assumidas em comum – mesmo que isso tudo seja alienante, mesmo que isso tudo seja falso.

 

38. (Unesp 2012) A ciência moderna tem maior poder explicativo, permite previsões mais seguras e assegura tecnologias e aplicações mais eficazes. Não há dúvida de que a explicação científica sobre a natureza da chuva comporta usos que a explicação indígena não comporta, como facilitar prognósticos meteorológicos ou a instalação de sistemas de irrigação. Para a ciência moderna, a Lua é um satélite que descreve uma órbita elíptica em torno da Terra, cuja distância mínima do nosso planeta é cerca de 360 mil quilômetros, e que tem raio de 1 736 quilômetros. Para os gregos, era Selene, filha de Hyprion, irmã de Hélios, amante de Endymion e Pan, e percorria o céu numa carruagem de prata. Tenho mais simpatia pela explicação dos gregos, mas devo reconhecer que a teoria moderna permite prever os eclipses da Lua e até desembarcar na Lua, façanha dificilmente concebível para uma cultura que continuasse aceitando a explicação mitológica. Os astronautas da NASA encontraram na superfície do nosso satélite as montanhas observadas por Galileu, mas não encontraram nem Selene nem sua carruagem de prata. Para o bem ou para o mal as teorias científicas modernas são válidas, o que não ocorre com as teorias alternativas.

(Sérgio Paulo Rouanet, filósofo brasileiro, 1993. Adaptado.)

Cite o nome dos dois diferentes tipos de conhecimento comentados no texto e explique duas diferenças entre eles.

Resposta:

 Os dois tipos de conhecimento contrastados no texto são o conhecimento científico e o conhecimento mitológico. O primeiro é caracterizado pelo rigor metodológico e pela sua racionalidade. Ou seja, é produzido mediante um método de experimentação racional que permite ao cientista criar leis gerais que podem servir de base para o desenvolvimento científico. O segundo conhecimento é fantasioso e pouco rigoroso: sua força está na narrativa que produz, na forma como é capaz de explicar todos os fenômenos e na sua relação com a simbologia religiosa.

 

39. (Unesp 2012) Aedo e adivinho têm em comum um mesmo dom de “vidência”, privilégio que tiveram de pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles veem o invisível. O deus que os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as realidades que escapam ao olhar humano. Sua visão particular age sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas mortais: o que aconteceu outrora, o que ainda não é.

 (Jean-Pierre Vernant. Mito e pensamento entre os gregos, 1990. Adaptado.)

O texto refere-se à cultura grega antiga e menciona, entre outros aspectos,

a) o papel exercido pelos poetas, responsáveis pela transmissão oral das tradições, dos mitos e da memória.

b) a prática da feitiçaria, estimulada especialmente nos períodos de seca ou de infertilidade da terra.

c) o caráter monoteísta da sociedade, que impedia a difusão dos cultos aos deuses da tradição clássica.

d) a forma como a história era escrita e lida entre os povos da península balcânica.

e) o esforço de diferenciar as cidades-estados e reforçar o isolamento e a autonomia em que viviam.

Resposta:A

A questão diz respeito ao papel dos poetas na cultura grega clássica. Sendo eles inspirados pelos deuses, são responsáveis pela transmissão dos mitos e da memória aos homens. Todas as alternativas, com exceção da [A], fazem referência a características que não são próprias da atividade dos poetas gregos.

 

40. (Unesp 2012) Leia os textos.

Texto 1

Segundo Descartes, a realidade é dividida em duas vertentes claramente distintas e irredutíveis uma à outra: a res cogitans (substância pensante) no que se refere ao mundo espiritual e a res extensa (substância material) no que concerne ao mundo material. Não existem realidades intermediárias. A força dessa proposição é devastadora, sobretudo em relação às concepções de matriz animista, segundo as quais tudo era permeado de espírito e vida e com as quais eram explicadas as conexões entre os fenômenos e sua natureza mais recôndita. Não há graus intermediários entre a res cogitans e a res extensa. A exemplo do mundo físico em geral, tanto o corpo humano como o reino animal devem encontrar explicação suficiente no mundo da mecânica, fora e contra qualquer doutrina mágico-ocultista.

(Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia, 1990. Adaptado.)

Texto 2

 Se você, do nada, começar a sentir enjoo, mal-estar, queda de pressão, sensação de desmaio ou dores pelo corpo, pode ter se conectado a energias ruins. Caso decida procurar um médico, ele possivelmente terá dificuldade para achar a origem do mal e pode até fazer um diagnóstico errado. Nessa hora, você pode rezar e pedir ajuda espiritual. Se não conseguir, procure um centro espírita e faça a sua renovação energética. Pode ser que encontre dificuldades para chegar lá, pois, no primeiro momento, seu mal-estar poderá até se intensificar. No entanto, se ficar firme e persistir, tudo desaparecerá como em um passe de mágica e você voltará ao normal.

(Zibia Gasparetto. http://mdemulher.abril.com.br. Adaptado.)

A recomendação apresentada por Zibia Gasparetto sobre a cura espiritual é compatível com as concepções cartesianas descritas no primeiro texto? Explique a compatibilidade ou a incompatibilidade entre ambas as concepções, tendo em vista o mecanicismo cartesiano e a diferença entre substância espiritual e substância material.

Resposta:

 A recomendação de Zibia Gasparetto é incompatível com as concepções cartesianas. Gasparetto considera que existem espíritos que interferem na vida material humana. Já a concepção cartesiana não admite nem a existência de espíritos como forma explicativa dos fenômenos e da natureza, nem a existência de graus intermediários entre a res cogitans e a res exetensa. Vale ressaltar que o espírito, para o filósofo, corresponde a uma “substância pensante” e somente nesse sentido é considerado como existente.

 

41. (Unesp 2012) “O homem é o lobo do homem” é uma das frases mais repetidas por aqueles que se referem a Hobbes. Essa máxima aparece coroada por uma outra, menos citada, mas igualmente importante: “guerra de todos contra todos”. Ambas são fundamentais como síntese do que Hobbes pensa a respeito do estado natural em que vivem os homens. O estado de natureza é o modo de ser que caracterizaria o homem antes de seu ingresso no estado social. O altruísmo não seria, portanto, natural. No estado de natureza o recurso à violência generaliza-se, cada qual elaborando novos meios de destruição do próximo, com o que a vida se torna “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta, na qual cada um é lobo para o outro, em guerra de todos contra todos”. Os homens não vivem em cooperação natural, como fazem as abelhas e as formigas. O acordo entre elas é natural; entre os homens, só pode ser artificial. Nesse sentido, os homens são levados a estabelecer contratos entre si. Para o autor do Leviatã, o contrato é estabelecido unicamente entre os membros do grupo, que, entre si, concordam em renunciar a seu direito a tudo para entregá-lo a um soberano capaz de promover a paz. Não submetido a nenhuma lei, o soberano absoluto é a própria fonte legisladora. A obediência a ele deve ser total.

(João Paulo Monteiro. Os Pensadores, 2000.)

Caracterize a diferença entre estado de natureza e vida social, segundo o texto, e explique por que a é atribuída a Hobbes a concepção política de um “absolutismo sem teologia”.

Resposta:

 O estado de natureza pode ser considerado como um estado de natural insegurança, na medida em que impera a “guerra de todos contra todos” na luta pela sobrevivência. Em oposição, o estado de vida social é caracterizado pela segurança. Na medida em que todos transferem ao soberano, mediante o contrato social, o direito do uso legítimo e exclusivo da força, o soberano se torna a fonte da segurança civil. Dado que os homens não podem quebrar o contrato social para não caírem em contradição, Hobbes afirma que ninguém pode questionar o poder do soberano. É nesse sentido que Hobbes é considerado como idealizador de um absolutismo sem teologia, por considerar que o poder do soberano é advindo do contrato social, sem fazer qualquer referência a uma fonte divina.

 

42. (Unesp 2012) O clima do “politicamente correto” em que nos mergulharam impede o raciocínio. Este novo senso comum diz que todos os preconceitos são errados. Ao que um amigo observou: “Então vocês têm preconceito contra os preconceitos”. Ele demonstrava que é impossível não ter preconceitos, que vivemos com eles, e que grande quantidade deles nos é útil. Mas, afinal, quais preconceitos são pré-julgamentos danosos? São aqueles que carregam um juízo de valor depreciativo e hostil. Lembre-se do seu tempo de colégio. Quem era alvo dos bullies? Os diferentes. As crianças parecem repetir a história da humanidade: nascem trogloditas, violentas, cruéis com quem não é da tribo, e vão se civilizando aos poucos. Alguns, nem tanto. Serão os que vão conservar esses rótulos pétreos, imutáveis, muitas vezes carregados de ódio contra os “diferentes”, e difíceis (se não impossíveis) de mudar.

 (Francisco Daudt. Folha de S.Paulo, 07.02.2012. Adaptado.)

O artigo citado aborda a relação entre as tendências culturais politicamente corretas e os preconceitos. Com base no texto, pode-se afirmar que a superação dos preconceitos que induzem comportamentos agressivos depende

a) da capacidade racional de discriminar entre pré-julgamentos socialmente úteis e preconceitos disseminadores de hostilidade.

b) de uma assimilação integral dos critérios “politicamente corretos” para representar e julgar objetivamente a realidade.

c) da construção de valores coletivos que permitam que cada pessoa diferencie os amigos e os inimigos de sua comunidade.

d) de medidas de natureza jurídica que criminalizem a expressão oral de juízos preconceituosos contra integrantes de minorias.

e) do fortalecimento de valores de natureza religiosa e espiritual, garantidores do amor ao próximo e da convivência pacífica.

Resposta:A

De acordo com o texto, somente a alternativa [A] pode ser considerada correta. Os preconceitos podem ser tanto socialmente úteis quanto danosos. É pela razão e pela “educação civilizadora” que as crianças aprendem a conviver com o diferente.

 

43. (Unesp 2012) Leia o trecho da entrevista com um médico epidemiologista.

Folha – Não é contraditório um epidemiologista questionar o conceito de risco?

Luis David Castiel – Tem também um lado opressivo que me incomoda. Uma dimensão moralista, que rotula as pessoas que se expõem ao risco como displicentes e que, portanto, merecem ser punidas [pela doença], se acontecer o evento ao qual estão se expondo. Estamos à mercê dessa prescrição constante que a gente tem que seguir. Na hora em que você traz para perto a ameaça, tem que fazer uma gestão cotidiana dela. Não há como, você teria que controlar todos os riscos possíveis e os impossíveis de se imaginar. É a riscofobia.

Folha – Há um meio do caminho entre a fobia e o autocuidado?

Luis David Castiel – A pessoa tem que puxar o freio de emergência quando achar necessário, decidir até que ponto vai conseguir acompanhar todos os ditames da saúde. (…) Na saúde, a vigilância constante, o excesso de exames criou uma nova categoria: a pessoa não está doente, mas não é saudável. Está sob risco.

(Folha de S.Paulo, 11.04.2011. Adaptado.)

Assinale a alternativa que contempla adequadamente a opinião do médico, sob o ponto de vista filosófico.

a) Para o médico Luis Castiel, os imperativos da ciência, se adotados como norma absoluta na avaliação dos comportamentos individuais, podem causar sofrimento emocional.

b) Para o médico, os comportamentos individuais devem ser submetidos a padrões científicos de controle.

c) A riscofobia abordada na entrevista decorre da displicência dos indivíduos em atenderem aos ditames da saúde e da boa forma.

d) Na entrevista, o médico defende a autonomia individual como padrão absoluto para a avaliação de comportamentos de risco.

e) Para o médico, a gestão cotidiana dos riscos depende diretamente da vigilância constante no campo da saúde.

Resposta: A

O médico aponta para a dificuldade do indivíduo em administrar todos os riscos da saúde ao qual é exposto. Essa exigência imposta ao sujeito foi chamada pelo médico de “riscofobia”, uma forma de sofrimento emocional e opressivo, resultado de uma concepção moralista a respeito da saúde.

 

44. (Unesp 2012) Vigora entre educadores e intelectuais brasileiros uma correta e justificável ojeriza às ditaduras de direita. Infelizmente, o mesmo vigor não é encontrado quando se trata de ditaduras de esquerda. As notícias de perseguições, prisões, greves de fome, fuzilamentos e fugas envolvendo opositores às duras ditaduras esquerdistas são ignoradas. Quando fica impossível deixar de falar a respeito, são comuns alegações de que há exagero da imprensa ou, pior, sugestões de que os dissidentes são egoístas que, em nome do individualismo, ameaçam um regime que deveria servir de exemplo. São as velhas táticas de questionar a liberdade de imprensa quando as notícias são desfavoráveis e de desmerecer o opositor, em vez de enfrentar as opiniões contrárias com argumentos.

(Janaína Conceição Paschoal. Cuba é uma grande Guantánamo. Folha de S.Paulo, 14.02.2012.)

O texto descreve um conflito de natureza ideológica. Apresente uma definição que seja adequada para o conceito de “ideologia”, tal como ele é empregado pela autora, e comente uma diferença básica entre uma “ideologia de direita” e uma “ideologia de esquerda”.

Resposta:

 Ideologia é uma espécie de planificação do discurso. É uma ignorância a respeito dos excessos e faltas da razão que imobiliza o posicionamento do sujeito de modo que ele se torna incapaz de reavaliar e criticar suas afirmações.

Ideologia, de acordo com o Houaiss:

  1. Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: sociologia.

sistema de ideias (crenças, tradições, princípios e mitos) interdependentes, sustentadas por um grupo social de qualquer natureza ou dimensão, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos.

Existem ideologias mais para direita e mais para esquerda, isto é, existem ideologias que são mais extremas e outras mais brandas. Entre liberais e socialistas existe um espaço muito menor que entre fascistas e comunistas, por exemplo. Se tomarmos duas ideologias que recaíram em ditaduras e regimes totalitários – o fascismo e o comunismo –, podemos perceber uma grande diferença na concepção de Estado. Para a primeira o Estado existe e o indivíduo o serve, para a segunda o Estado serve as necessidades individuais de acordo com as capacidades destes. Porém, para simplificar podemos generalizar uma seguinte diferenciação: ideologias de direita geralmente buscam ser ou conservadoras ou reacionárias, e ideologias de esquerda ou progressistas ou revolucionárias.

 

45. (Unesp 2012) De certo modo, a primeira fonte de ruptura com o antropocentrismo se encontra na teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico, a assim chamada revolução copernicana. A segunda grande ruptura é provocada pelo que se poderia chamar, em analogia com a primeira, de revolução darwiniana, resultado da obra de Charles Darwin, A origem das espécies pela seleção natural, onde este formula sua famosa teoria da evolução das espécies.

(Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001. Adaptado.)

A partir do texto, explique o significado do termo “antropocentrismo” e descreva por que as obras de Copérnico e de Darwin são apresentadas como momentos de ruptura com essa centralidade.

Resposta:

 Antropocentrismo é a concepção na qual o mundo existe em função do homem. É uma concepção que se vinculou muito ao cristianismo e a ideia de que a criação divina se fez para o homem e o próprio é especialmente divino por ter sido feito à imagem e semelhança do Criador. Evidentemente, quando Copérnico revoluciona a teoria sobre o movimento dos corpos celestes, fazendo o espectador se mover e o astro se manter em repouso, o antropocentrismo sofre um ataque contundente, afinal a Terra criada para o homem não seria o centro de tudo, mas apenas um planeta como qualquer outro. Do mesmo modo, Darwin ao teorizar sobre a evolução das espécies faz algo similar e retira a qualidade divina do homem ao afirmá-lo como uma derivação do macaco. Também, Darwin retira do mundo qualquer finalidade especial e diz que a origem das espécies não aponta para nada além da sua mera sobrevivência, isto é, podemos imaginar disto que Darwin afirma sobre as espécies que não há finalidade especial para o planeta Terra e seus seres vivos e eles vagam pelo universo sem qualquer finalidade específica.

 

46. (Unesp 2012) As freiras da Congregação das Pequenas Irmãs da Sagrada Família, de Cascavel (PR) e, em particular, a Irmã Kelly Favareto, poderão aparecer com os véus que cobrem cotidianamente suas cabeças na foto da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A decisão é da Justiça Federal, que aceitou recurso da Irmã contra a Resolução do Conselho Nacional de Trânsito que proíbe, por razões de segurança, que na foto da CNH o condutor apareça usando óculos, bonés, gorros, chapéus ou qualquer outro item que cubra parte do rosto ou cabeça, dificultando sua identificação. “Eu só ando de véu, que é um sinal de consagração a Deus, não é um acessório que posso tirar quando quiser”, alegou a Irmã.

 (Evandro Fadel. Freira ganha direito de usar hábito na foto da CNH. O Estado de S.Paulo, 10.02.2012. Adaptado.)

Comente o significado filosófico do fato noticiado, abordando a relação entre indivíduo e Estado, e explique a relação entre esse fato e o movimento filosófico iluminista do século XVIII.

Resposta:

 É um tanto estranho pedir simplesmente, sem qualquer definição anterior, que se comente o significado filosófico de um fato noticiado. A filosofia não é algo tão coeso para possuir um significado tão preciso, tão simples de se fazer referência e, sendo assim, são possíveis várias abordagens distintas. Porém, aparentemente, deseja-se ressaltar nesta pergunta de vestibular a questão referente à liberdade do cidadão, ou seja, sua relação com o Estado e com as Leis. No caso brasileiro, nossa Constituição permite o culto e sua manifestação livre, todavia devemos nos perguntar sempre sobre a laicidade dos poderes, isto é, sobre a indiferença do Estado e suas Leis a respeito da religião de cada indivíduo. Enfim, o Estado poderia beneficiar um cidadão ao tomar uma decisão que o favoreça simplesmente devido sua religião? Apesar de a argumentação da freira criar uma relação de necessidade entre o véu e seus hábitos, ou seja, que ela deveria habitualmente usá-lo e não pode, simplesmente, tirá-lo para uma fotografia, o poder poderia favorecê-la baseando-se neste argumento religioso? Essas ideias sobre a liberdade dos cidadãos e a laicidade do Estado se desenvolveram e foram propagandeadas na modernidade durante o período do movimento Iluminista. John Locke (1632-1704) e Montesquieu (1689-1755), por exemplo, pensaram sobre as relações entre o Estado, as Leis e o cidadão e consideram com frequência as questões referentes à laicidade do poder e à liberdade do sujeito.

47. (Unesp 2012) Texto 1

 2012 começa sob a vibração positiva de uma Lua crescente em Áries logo no dia 1.º. Áries é o signo que tem tudo a ver com o início de algo e traz muita garra, coragem e esperança. Ainda na primeira semana, Mercúrio, das comunicações, forma um aspecto harmonioso com Saturno e Netuno, evidenciando um momento de descobertas, diálogo e de primeiros passos coletivos na consolidação de um sonho ou projeto comum, de muitos povos e sociedades. Acordos internacionais e negociações de paz podem ser feitos em um momento feliz e que promete bom desenvolvimento.

(Barbara Abramo. Céu de janeiro de 2012. http://horoscopo.uol.com.br, 01.01.2012.)

 Texto 2

 O Irã lançou ontem mísseis de cruzeiro melhorados, que podem ameaçar navios americanos, durante um exercício naval que simula o fechamento do estreito de Hormuz – por onde passa cerca de um sexto da produção de petróleo mundial. O míssil Ghader (capaz, em farsi) foi desenvolvido com o objetivo de atacar navios de guerra e proteger o litoral do país. Duas unidades foram disparadas ontem da costa iraniana em um teste.

(Irã testa míssil que ameaça frota dos EUA. Folha de S.Paulo, 03.01.2012.)

Os dois textos, publicados no início de 2012, apresentam incompatibilidade lógica entre as formas pelas quais abordam a realidade. Responda quais são os pressupostos ou pontos de vista assumidos por cada um deles e explique os motivos dessa incompatibilidade.

Resposta:

 O Texto 1 apresenta uma abordagem esotérica da realidade e, ao contrário, o Texto 2 uma abordagem exotérica. O esoterismo é uma doutrina hermética, fechada, acessível para poucos, já o exoterismo não se restringe e é algo público, aberto, acessível para todos. O sobrenatural participa das previsões expostas no Texto 1 e através de uma leitura do posicionamento dos astros, sem qualquer fundamento científico, descreve-se acontecimentos futuros e qualifica irracionalmente que tipo de ação pode ser bem ou má sucedida. A documentação empírica participa da informação transmitida no Texto 2 e através de uma consideração factual de um evento ocorrido e observado garante-se um lastro responsável por tornar racionais decisões subsequentes. Evidentemente, existe uma incompatibilidade estabelecida pela irracionalidade presente no Texto 1 e a racionalidade presente no Texto 2, pela presença de um sobrenatural esotérico no Texto 1 e uma publicidade exotérica no Texto 2.

 

48. (Unesp 2011) Leia o texto, extraído do livro VII da obra magna de Platão (A República), que se refere ao célebre mito da caverna e seu significado no pensamento platônico.

 Agora, meu caro Glauco – continuei – cumpre aplicar ponto por ponto esta imagem ao que dissemos, comparar o mundo que a visão nos revela à morada da prisão e a luz do fogo que a ilumina ao poder do sol. No que se refere à subida à região superior e à contemplação de seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma ao lugar inteligível, não te enganarás sobre o meu pensamento, posto que também desejas conhecê-lo. Quanto a mim, tal é minha opinião: no mundo inteligível, a ideia do bem é percebida por último e a custo, mas não se pode percebê-la sem concluir que é a causa de tudo quanto há de direto e belo em todas as coisas; e que é preciso vê-la para conduzir-se com sabedoria na vida particular e na vida pública.

 (Platão. A República, texto escrito em V a.C. Adaptado.)

Explique o significado filosófico da oposição entre as sombras no ambiente da caverna e a luz do sol.

Resposta:

 Nós estamos diante de um trecho que compõe um dos mais famosos da história da filosofia e cujas tarefas, as do filósofo, estão delineadas em forma de alegoria. A primeira tarefa a ser entendida é que a caverna é o nosso mundo, o mundo onde esquecemos de tudo – supõe Platão – enquanto todos nós já tivéssemos vivido como puro espírito contemplando o mundo das ideias. Pela teoria da reminiscência, Platão explica como os sentidos correspondem a uma ocasião para despertar nas almas as lembranças adormecidas. Deste modo, a sombra significa o amor pela doxa (amor pela opinião), pelas opiniões que existem no mundo das sombras, de onde os acorrentados ainda não tiveram capacidade de se libertarem. Quanto à luz do sol, é exatamente o oposto, uma vez que já libertos das correntes, ao contemplar fora da caverna a verdadeira realidade passa da opinião à ciência, ou melhor, ao amor pela filosofia. Ao que vê a luz do Sol, cabe, segundo Platão, ensinar e governar. Trata-se da ação política, da transformação dos homens em sociedade, desde que as mesmas estejam voltadas para a contemplação do modelo do mundo das ideias.

 

49. (Unesp 2011) “Três maneiras há de preservar a posse de Estados acostumados a serem governados por leis próprias; primeiro, devastá-los; segundo, morar neles; terceiro, permitir que vivam com suas leis, arrancando um tributo e formando um governo de poucas pessoas, que permaneçam amigas. Sucede que, na verdade, a garantia mais segura da posse é a ruína. Os que se tornam senhores de cidades livres por tradição, e não as destroem, serão destruídos por elas. Essas cidades costumam ter por bandeira, em suas rebeliões, tanto a liberdade quanto suas antigas leis, jamais esquecidas, nem com o passar do tempo, nem por influência dos favores que receberam.

Por mais que se faça, e sejam quais forem os cuidados, sem promover desavença e desagregação entre os habitantes, continuarão eles a recordar aqueles princípios e a estes irão recorrer em quaisquer oportunidades e situações”.

(Nicolau Maquiavel. Publicado originalmente em 1513. Adaptado.)

Partindo de uma definição de moralidade como conjunto de regras de conduta humana que se pretendem válidas em termos absolutos, responda se o pensamento de Maquiavel é compatível com a moralidade cristã. Justifique sua resposta, comentando o teor prático ou pragmático do pensamento desse filósofo.

Resposta:

 O pensamento de Maquiavel é célebre por ter rompido com a moralidade cristã da época – é bom lembrar que estamos falando da época do Renascimento, quando as explicações religiosas começam a ceder espaço para o pensamento racional, baseado na capacidade humana de explicar o mundo. Deste modo, Maquiavel é racional e totalmente pragmático, elaborando um tratado político – “O príncipe”, do qual provavelmente foi retirado esse excerto – que funciona como uma espécie de manual, com conselhos extremamente práticos e realistas para se obter e manter o poder, sem menção a qualquer restrição de ordem moral.

 

50. (Unesp 2011) Texto I

Por isso também nós, desde o dia em que soubemos, não cessamos de rezar por vós e pedir a Deus que vos conceda pleno conhecimento de sua vontade, perfeita sabedoria e inteligência espiritual, a fim de vos comportardes de maneira digna do Senhor, procurando agradar-lhe em tudo, dando fruto de toda obra boa e crescendo no conhecimento de Deus, animados de grande energia pelo poder de sua glória para toda a paciência e longanimidade. Com alegria, agradecemos a Deus Pai, que vos tornou capazes de participar da herança dos santos no reino da Luz. Que nos livrou do poder das trevas e transportou ao reino do seu Filho amado, no qual temos a redenção: a remissão dos pecados.

(Bíblia Sagrada. Epístola aos Colossenses 1, 9-14, texto escrito no século I.)

Texto II

Olhe ao redor deste universo. Que imensa profusão de seres, animados e organizados, sensíveis e ativos! Examine, porém, um pouco mais de perto essas criaturas dotadas de vida, os únicos seres dignos de consideração. Que hostilidade e destrutividade entre eles! Quão incapazes, todos, de garantir a própria felicidade! Quão odiosos ou desprezíveis aos olhos de quem os contempla! O conjunto de tudo isso nada nos oferece a não ser a ideia de uma natureza cega, que despeja de seu colo, sem discernimento ou cuidado materno, sua prole desfigurada e abortiva.

(David Hume. Diálogos sobre a religião natural, texto escrito em 1779. Adaptado.)

Compare ambos os textos e comente uma diferença entre eles no que diz respeito à concepção de natureza humana e uma diferença referente à concepção de moralidade.

Resposta:

 O texto I integra a Epístola de Paulo do Novo Testamento, literatura cristã, e revela uma concepção divina do Universo, marcado por uma ordem moral e com sentido. A antropologia cristã entende o homem como criatura (criação de Deus), como ser em estado de guerra (pecado original), porém, agraciado pela mensagem de Cristo que ofereceu um sentido moral à existência humana.

O texto II, do filósofo David Hume, nascido em Edimburgo, representante do empirismo inglês, aparece a visão do homem natural (e não sobrenatural), cuja existência é marcada pelo caos e pela desordem que resultam de suas inclinações para o egoísmo, hostilidade destrutividade. Para o filósofo, adotamos regras de moral e de justiça, não com bases abstratas, mas com sentidos pragmáticos, em outras palavras, as decisões éticas e morais são sempre relativas a uma situação específica e a um determinado momento histórico, não se fundando em nenhum princípio eterno e universal.

 

51. (Unesp 2011) Enquanto os homens se contentaram com suas cabanas rústicas, enquanto se limitaram a costurar com espinhos ou com cerdas suas roupas de peles, a enfeitarem-se com plumas e conchas, a pintar o corpo com várias cores, a aperfeiçoar ou embelezar seus arcos e flechas, a cortar com pedras agudas algumas canoas de pescador ou alguns instrumentos grosseiros de música – em uma palavra: enquanto só se dedicavam a obras que um único homem podia criar e a artes que não solicitavam o concurso de várias mãos, viveram tão livres, sadios, bons e felizes quanto o poderiam ser por sua natureza.

O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendei-vos de acreditar nesse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém”.

(Jean-Jacques Rousseau. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Adaptado.)

Cite a principal diferença estabelecida por Rousseau entre a vida em estado de natureza e a vida na sociedade civil, e explique o significado dessa diferença no âmbito da filosofia política.

Resposta:

 Jean-Jacques Rousseau, filho de um relojoeiro de poucas posses, nasceu em Genebra (Suíça) e, vivendo em Paris em 1752, testemunhou arder as ideias que inspiraram a Revolução Francesa em 1789. Assim como seus antecessores, Hobbes e Locke, Rousseau procurou legitimar o poder político fundamentado na teoria do contrato social. Em seu livro, Origem sobre a Desigualdade entre os Homens, revela-se um filósofo contratualista. Para ele, os homens, no passado, teriam vivido o estado de natureza, movidos pelo instinto de forma sadia, benevolente e feliz, voltados unicamente para a própria sobrevivência. Em determinado momento, porém, como bem mostra o texto, teria sido criada a propriedade privada, estabelecendo-se relações entre senhores e escravos, uns trabalhando para outros, gerando as desigualdades sociais. Isso gerou a necessidade do artifício da vida em sociedade. A vida na sociedade civil começa quando o indivíduo de abdica de todos os seus direitos para viver em comunidade, desde que todos se abdiquem igualmente. É na sociedade civil que os interesses de todos e de cada um, enquanto componentes do corpo coletivo, transformam o estado de guerra de todos contra todos, numa existência humana marcada pelo desenvolvimento marcada pelo afeto.

 

52. (Unesp 2011) “O Iluminismo é a saída do homem de um estado de menoridade que deve ser imputado a ele próprio. Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio intelecto sem a guia de outro. Imputável a si próprios é esta menoridade se a causa dela não depende de um defeito da inteligência, mas da falta de decisão e da coragem de servir-se do próprio intelecto sem ser guiado por outro. Sapere aude! Tem a coragem de servires de tua própria inteligência!”

(Immanuel Kant, 1784.)

Esse texto do filósofo Kant é considerado uma das mais sintéticas e adequadas definições acerca do Iluminismo. Justifique essa importância comentando o significado do termo “menoridade”, bem como os fatores sociais que produzem essa condição, no campo da religião e da política.

Resposta:

 Ao definir a menoridade como “a incapacidade de servir-se do próprio intelecto sem a guia de outro”, Kant está fazendo uma crítica ao modo restritivo pelo qual o pensamento humano estava condicionado até aquele período, isto é, até o Iluminismo. Esta restrição ao livre pensamento era levado a cabo sobretudo pelas instituições religiosas, isto é – e de modo geral -, pela Igreja, que não deixava espaço para outras interpretações do mundo e de seus fenômenos. É, portanto, justamente contra esta tutela, esta “menoridade”, este “ser guiado por outro”, que Kant e o movimento Iluminista se rebelam, influenciando a mentalidade da época e criando condições para as revoluções burguesas – como a francesa, por exemplo -, determinando a queda dos regimes absolutistas – baseados na religião e apoiados pela Igreja – em prol do estabelecimento de um Estado laico, governado pelo próprio povo.

 

53. (Unesp 2011) “Em troca dos artigos que enriquecem sua vida, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. As pessoas residem em concentrações habitacionais e possuem automóveis particulares com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema, que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações”.

(Herbert Marcuse, filósofo alemão, 1955.)

Caracterize a noção de liberdade presente no texto de Marcuse, considerando a relação estabelecida pelo autor entre liberdade, progresso técnico e sociedade de consumo.

Resposta:

 Marcuse faz uma breve descrição da vida moderna (especialmente no contexto do pós-guerra, mas vale também para a nossa vida contemporânea) para caracterizar a sociedade que daí emerge como baseada no consumo. Neste sentido, o progresso técnico funciona como uma mola propulsora desta sociedade, retroalimentando-a, criando novos produtos para suprir novas necessidades. Este mundo, que se apresenta ao indivíduo como dado, não lhe proporciona outras escolhas que não aquelas que façam parte da engrenagem da sociedade. E aí reside a contradição deste modelo, pois ele se apresenta como produto da liberdade dos indivíduos, dando a falsa impressão de que vivemos num mundo no qual temos acesso a todo tipo de opinião e no qual também podemos expressar a nossa, quando na verdade apenas reproduzimos e vemos reproduzidos os ideais que sustentam o consumo e a sociedade que se baseia nele. Deste modo, a noção de liberdade presente no texto estaria na tomada de consciência pelo indivíduo de sua real situação dentro desta sociedade de consumo e, a partir daí sim, ele poderia fazer suas próprias escolhas baseadas nas “suas próprias necessidades e satisfações”. Somente assim o indivíduo seria capaz de desfrutar plenamente de sua liberdade.

 

54. (Unesp 2011) Num mundo onde cresce sem parar a compulsão para obrigar as pessoas a levar uma vida “correta” no maior número possível das atividades que formam o seu dia a dia, a mesa tornou-se uma das áreas que mais atraem a atenção dos gendarmes empenhados em arbitrar o que é realmente bom para você. É uma provação permanente. Médicos, nutricionistas, personal trainers, editores e editoras de revistas dedicadas à forma física, ambientalistas, militantes da produção orgânica, burocratas, chefs de cozinha, críticos de restaurantes e mais uma multidão de diletantes prontos a dar testemunho expedem decretos cada vez mais frequentes, e cada vez mais severos, sobre os deveres do cidadão na hora de comer. O fato é que toda essa gente, quase sempre com as melhores intenções, acabou construindo um crescente sistema de ansiedade em torno do pão nosso de cada dia – e o resultado é que o prazer de comer bem vai sendo substituído pela obrigação de comer certo. Modelos, atrizes e outras pessoas que precisam pesar pouco para fazer sucesso chegam aos 30 anos de idade, ou mais, praticamente sem ter feito uma única refeição decente na vida. Propõe-se, como virtude alimentar, um mundo sombrio de pastas, mingaus, poções, soros de proteína e sabe-se lá o que ainda vem pela frente. Não está claro o que se ganha em toda essa história. A perspectiva de morrer, um dia, no peso ideal?

(J. R. Guzzo. Veja, 09.06.2010. Adaptado.)

Sob o ponto de vista filosófico, podemos afirmar que, para o autor,

a) é positiva a adoção de procedimentos científicos no campo nutricional.

b) o tema da qualidade de vida deve ser enfocado sob critérios morais.

c) os padrões hegemônicos vigentes na sociedade atual no campo da nutrição são elogiáveis.

d) a felicidade depende do número de calorias ingeridas pelo ser humano.

e) a autonomia individual deveria ser o critério para definir os parâmetros de uma vida adequada.

Resposta:E

O autor critica, na verdade, aquela ditadura da magreza onde os indivíduos são conduzidos ao padrão de beleza atual e acabam com isso sofrendo sérios distúrbios alimentares como bulimia, anorexia, diabetes, pressão alta, entre outras. A autonomia individual é agir como se quer, sem qualquer determinação casual, quer seja exterior, como os médicos, nutricionistas, ambientalistas e outros mencionados no texto ou interior, no caso, os desejos e o caráter. No entanto, agir como se quer para garantir uma vida adequada não existe se não houver responsabilidade e total consciência dos atos que se quer praticar.

 

55. (Unesp 2011) Renata, 11, combinava com uma amiga viajar em julho para a Disney. Questionada pela mãe, que não sabia de excursão nenhuma, a menina pegou uma pasta com preços do pacote turístico e uma foto com os dizeres: “Se eu não for para a Disney vou ser um pateta”. A agência de turismo e a escola afirmam que não pretendiam constranger ninguém e que a placa do Pateta era apenas uma brincadeira. Para um promotor da área do consumidor, o caso ilustra bem os abusos na publicidade infantil.

“Já temos problemas sérios de bullying nas escolas. Essa empresa está criando uma situação propícia para isso”.

 (Folha de S.Paulo, 20.04.2010. Adaptado.)

Acerca dessa notícia, podemos afirmar que:

a) Em nossa sociedade, os campos da publicidade e da pedagogia são esferas separadas, não suscitando questões de natureza ética.

b) Para o promotor citado na reportagem, o caso em questão provoca problemas de natureza exclusivamente jurídica.

c) Uma das questões éticas envolvidas diz respeito à exposição precoce das crianças à manipulação do desejo, exercida pela publicidade.

d) O público-alvo dessa campanha publicitária constitui-se de indivíduos dotados de consciência autônoma.

e) Para o promotor citado na reportagem, o caso em questão não apresenta repercussões de natureza psicológica.

Resposta:C

O caso Renata, 11 anos, representa o quanto uma propaganda preocupa-se com a imagem em torno do produto, ao invés de nos dizer para que o produto serve. Deste modo, o papel ético do promotor é alertar que uma criança que não usufruir desta viagem, será, certamente, vítima de coação e constrangimento por parte dos colegas que forem à Disney.

 

56. (Unesp 2011) Analise o trecho da entrevista dada pelo chefe de imprensa do governo do Irã a um jornal brasileiro.

Folha – Há preocupação quanto a uma mudança de posição do governo brasileiro, sobretudo na área de direitos humanos, depois que a presidente Dilma se manifestou contrariamente ao apedrejamento de Sakineh?

Ali Akbar Javanfekr – Encontrei poucas informações sobre a realidade iraniana aqui no Brasil. Há notícias distorcidas e falsas. Isso é preocupante. Minha presença aqui é para tentar divulgar as informações corretas. No caso de Sakineh, informações que chegaram à presidente Dilma Rousseff não foram corretas.

Folha – A presidente Dilma está mal informada?

Ali Akbar Javanfekr – Sim. Foi mal informada sobre esse caso.

Folha – É verdade, como diz o presidente Ahmadinejad, que não há gays no Irã?

Ali Akbar Javanfekr – Não temos.

Folha – É o único país do mundo que não tem gay?

Ali Akbar Javanfekr – Na República Islâmica do Irã, não há.

Folha – Se houver, há punições?

Ali Akbar Javanfekr – Nossa visão sobre esse tema é diferente da de vocês. É um ato feio, que nenhuma das religiões divinas aceita. Temos a responsabilidade humana, até divina, de não

aceitar esse tipo de comportamento. Existe uma ameaça sobre a saúde da humanidade. A Aids, por exemplo. Uma das raízes é esse tipo de relacionamento.

(Folha de S.Paulo, 14.03.2011. Adaptado.)

Sob o ponto de vista ético, as opiniões expressas no trecho da entrevista podem ser caracterizadas como

a) uma visão de mundo fortemente influenciada pelas matrizes liberais do pensamento filosófico.

b) uma posição convencionalmente associada ao pensamento politicamente correto.

c) uma visão de mundo fortemente influenciada pelo fundamentalismo religioso.

d) opiniões que expressam afinidade com o imperativo categórico kantiano.

e) posições condizentes com a valorização da consciência individual autônoma.

Resposta:C

O fundamentalismo religioso é considerado por muita gente um mal e por se caracterizar como um pensamento dogmático que não aceita mudança e refundação de seus argumentos eles acabam fazendo o que fazem, como afirmar nesta entrevista categoricamente a não existência de homossexuais em seu país, e fundamentando seus atos – que consideram éticos – nos dogmas e leis rígidas de sua própria religião.

 

57. (Unesp 2011) Analise o texto político, que apresenta uma visão muito próxima de importantes reflexões do filósofo italiano Maquiavel, um dos primeiros a apontar que os domínios da ética e da política são práticas distintas.

“A política arruína o caráter”, disse Otto von Bismarck (1815-1898), o “chanceler de ferro” da Alemanha, para quem mentir era dever do estadista. Os ditadores que agora enojam o mundo ao reprimir ferozmente seus próprios povos nas praças árabes foram colocados e mantidos no poder por nações que se enxergam como faróis da democracia e dos direitos humanos: Estados Unidos, Inglaterra e França. Isso é condenável?

Os ditadores eram a única esperança do Ocidente de continuar tendo acesso ao petróleo árabe e de manter um mínimo de informação sobre as organizações terroristas islâmicas. Antes de condenar, reflita sobre a frase do mais extraordinário diplomata americano do século passado, George Kennan, morto aos 101 anos em 2005: “As sociedades não vivem para conduzir sua política externa: seria mais exato dizer que elas conduzem sua política externa para viver”.

(Veja, 02.03.2011. Adaptado.)

A associação entre o texto e as ideias de Maquiavel pode ser feita, pois o filósofo

a) considerava a ditadura o modelo mais apropriado de governo, sendo simpático à repressão militar sobre populações civis.

b) foi um dos teóricos da democracia liberal, demonstrando-se avesso a qualquer tipo de manifestação de autoritarismo por parte dos governantes.

c) foi um dos teóricos do socialismo científico, respaldando as ideias de Marx e Engels.

d) foi um pensador escolástico que preconizou a moralidade cristã como base da vida política.

e) refletiu sobre a política através de aspectos prioritariamente pragmáticos.

Resposta:E

Nicolau Maquiavel (1469-1527), para descrever a ação do príncipe (governante) usa de duas expressões italianas virtú e fortuna. A virtú significa virtude, no sentido grego de força, valor, uma qualidade de guerreiro e lutador forte e viril. Em Maquiavel, não se trata disto, mas sim da capacidade do príncipe de perceber o jogo das forças que caracteriza o momento político para agir, seja de qual maneira for, para alcançar seus objetivos. O pensamento de Maquiavel se aproxima com o texto da questão quando ela se aplica a fortuna, ou seja, a ocasião (pragmático) que não deve deixar escapar pelo príncipe e nela utilizar-se dos meios necessários para seus fins.

 

58. (Unesp 2011) “E a verdade, o que será? A filosofia busca a verdade, mas não possui o significado e substância da verdade única. Para nós, a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito. No mundo, a verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva esse conflito ao extremo, porém o despe de violência. Em suas relações com tudo quanto existe, o filósofo vê a verdade revelar-se a seus olhos, graças ao intercâmbio com outros pensadores e ao processo que o torna transparente a si mesmo. Eis porque a filosofia não se transforma em credo. Está em contínuo combate consigo mesma”.

(Karl Jaspers, 1971.)

Com base no texto, responda se a verdade filosófica pretende ser absoluta, justificando sua resposta com uma passagem do texto citado. Ainda de acordo com o fragmento, explique como podemos compreender os conflitos entre filosofia e religião e cite o principal movimento filosófico ocidental do período moderno que se caracterizou pelos conflitos com a religião.

Resposta:

 Jaspers, logo no início do seu texto, deixa evidente que a verdade filosófica não pretende ser absoluta: “A filosofia busca a verdade, mas não possui o significado e substância da verdade única”. Ainda, logo em seguida afirma que: “Para nós [filósofos], a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito”. E é justamente por ir neste sentido, isto é, por rejeitar verdades absolutas, que a filosofia invariavelmente se confronta com a religião. Caso notório no pensamento ocidental é o surgimento do Iluminismo, no século XVIII, que, embora ressaltasse a importância da tolerância, criticava o irracionalismo e defendia a difusão do conhecimento científico – baseado na experiência e na observação -, questionando a autoridade da Igreja, que até então era quem ditava as bases do conhecimento humano.

 

59. (Unesp 2011) Parece notícia velha, mas a ciência e o ensino da ciência continuam sob ataque. No portal ‘brasilescola.com’ há um texto de Rainer Sousa, da Equipe Brasil Escola, que discute a origem do homem. No final, o texto diz: “sendo um tema polêmico e inacabado, a origem do homem ainda será uma questão capaz de se desdobrar em outros debates. Cabe a cada um adotar, por critérios pessoais, a corrente explicativa que lhe parece plausível”. “Critérios pessoais” para decidir sobre a origem do homem? A religião como “corrente explicativa” sobre um tema científico, amplamente discutido e comprovado, dos fósseis à análise genética? Como é possível essa afirmação de um educador, em pleno século 21, num portal que leva o nome do nosso país e se dedica ao ensino?

(Marcelo Gleiser. Folha de S.Paulo, 13.02.2011. Adaptado.)

O pensamento de Marcelo Gleiser é expresso por meio de uma

a) perspectiva conciliatória entre religião e ciência acerca da origem do homem.

b) abordagem do conflito entre criacionismo e evolucionismo sob um ponto de vista liberal, defendendo a liberdade individual para escolher qual adotar.

c) pressuposição de que a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin é anacrônica e, portanto, inapropriada para explicar a origem do homem.

d) crítica da posição adotada pela Equipe Brasil Escola, por seu teor de irracionalismo.

e) pressuposição segundo a qual, no que tange à origem do homem, os critérios subjetivos devem prevalecer sobre os critérios empíricos.

Resposta:B

Marcelo Gleiser é um físico, um cientista e como tal é preciso e objetivo preocupando-se sempre na descoberta das regularidades existentes em determinados fatos e não fundamentando a busca de uma resposta uma, duas ou três teorias a cerca da explicação sobre a origem do ser humano como faz o educador que ele critica.

 

60. (Unesp 2011) Em 40 anos, nunca vi alguém se curar com a força do pensamento. Para mim, se Maomé não for à montanha, a montanha vir a Maomé é tão improvável quanto o Everest aparecer na janela da minha casa. A fé nas propriedades curativas da assim chamada energia mental tem raízes seculares. Quantos católicos foram canonizados porque lhes foi atribuído o poder espiritual de curar cegueiras, paraplegias, hanseníase e até esterilidade feminina? Quantos pastores evangélicos convencem milhões de fiéis a pagar-lhes os dízimos ao realizar façanhas semelhantes diante das câmeras de TV? Por que a energia emanada do pensamento positivo serve apenas para curar doenças, jamais para fazer um carro andar dez metros ou um avião levantar voo sem combustível? No passado, a hanseníase foi considerada apanágio dos ímpios; a tuberculose, consequência da vida desregrada; a AIDS, maldição divina para castigar os promíscuos. Coube à ciência demonstrar que duas bactérias e um vírus indiferentes às virtudes dos hospedeiros eram os agentes etiológicos dessas enfermidades. Acreditar na força milagrosa do pensamento pode servir ao sonho humano de dominar a morte. Mas, atribuir a ela tal poder é um desrespeito aos doentes graves e à memória dos que já se foram.

(Drauzio Varella. Folha de S.Paulo, 09.06.2007. Adaptado.)

O pensamento do autor, sob o ponto de vista filosófico, pode ser corretamente caracterizado como

a) compatível com os pressupostos mecanicistas e cartesianos da ciência.

b) uma visão para a qual a fé na força milagrosa do pensamento apresenta a propriedade de curar doenças.

c) uma visão holística, de acordo com a qual a mobilização das energias mentais pode influenciar positivamente organismos enfermos e possibilitar a restituição da saúde.

d) uma visão cética no que se refere ao progresso da ciência.

e) compatível com concepções teológicas emitidas por líderes religiosos católicos e evangélicos.

Resposta:A

Para René Descartes (1596-1650) os fenômenos mentais não têm extensão no espaço nem localização. As principais atividades da mente são recordar, raciocinar, conhecer e querer e não emanar energias positivas, curar doenças, fazer aparecer e desaparecer coisas como menciona o médico Drauzio Varella. Descartes crê que o pensamento não se submete às leis físicas, mas por outro lado, são o lugar da liberdade.

 

61. (Unesp 2011) “A inclinação para o ocultismo é um sintoma da regressão da consciência. A tendência velada da sociedade para o desastre faz de tolas suas vítimas com falsas revelações e fenômenos alucinatórios. O ocultismo é a metafísica dos parvos.

Procurando no além o que perderam, as pessoas dão de encontro apenas com sua própria nulidade”.

(Theodor Adorno, filósofo alemão, 1947. Adaptado.)

“Ilumine seus caminhos e encontre a paz espiritual com Dona Márcia, espírita conceituada com fortes poderes. Corta mau-olhado, inveja, demandas, feitiçaria. Desfaz amarrações, faz simpatia para o amor, saúde, negócios, empregos, impotência e filhos problemáticos. Seja qual for o seu problema, em uma consulta, ela lhe dará orientação espiritual para resolver o seu problema”.

(Panfleto distribuído nas ruas do centro de uma cidade brasileira.)

Assinale a alternativa correta.

a) Os dois textos evidenciam que, em nossa sociedade, prevalece o apelo racional na resolução de problemas pessoais.

b) O texto do filósofo Adorno aborda o ocultismo sob uma perspectiva crítica.

c) De acordo com o filósofo Adorno, a espiritualidade permite a elevação da consciência.

d) Nos dois textos predomina a irracionalidade na abordagem da relação entre mundo material e mundo espiritual.

e) Os dois textos enfatizam a importância da espiritualidade na vida das pessoas.

Resposta:B

Somente a alternativa B está correta porque o texto de Adorno tem sentido oposto ao do panfleto, contradizendo, assim, as alternativas A, D e E. A alternativa C enxerga equivocadamente uma defesa da espiritualidade no texto de Adorno, quando na verdade o filósofo critica este tipo de pensamento.

 

62. (Unesp 2011) Crianças que passam o dia sob controle de pais, babás e professores, com a agenda lotada de atividades, agora têm também suas brincadeiras da hora de recreio dirigidas por adultos.

Cada vez mais colégios particulares adotam o chamado “recreio dirigido”, na tentativa de resgatar formas saudáveis de brincar em grupos. Alguns educadores, porém, temem que a prática se torne mais uma maneira de controlar uma geração que já desfruta de pouca autonomia. Em uma das escolas, “o objetivo é melhorar a integração, desenvolver a autonomia”, diz a orientadora do colégio. Para uma antropologa, esse tipo de proposta acaba podando a iniciativa das crianças. “Elas estão sempre sendo direcionadas, ficam esperando que alguém diga o que é melhor fazer, perdem autonomia”.

(Luciana Alvarez. O Estado de S.Paulo, 13.02.2011. Adaptado.)

Sobre o texto, é correto afirmar:

a) Os profissionais da área pedagógica possuem critérios consensuais para definir os meios mais adequados para desenvolver a autonomia das crianças.

b) Os críticos do recreio dirigido apontam riscos de heteronímia, implícitos nessa prática pedagógica.

c) A prática adotada pelos colégios particulares pressupõe uma rígida demarcação entre atividades de aprendizagem e atividades lúdicas.

d) As escolas abordadas na reportagem evidenciam uma dedicação especializada nas dimensões intelectuais do processo de aprendizagem, em detrimento dos aspectos emocionais.

e) O recreio dirigido é criticado por alguns profissionais por seu teor de enfraquecimento da escola como instituição de controle.

Resposta:B

Etimologicamente falando, heteronomia (do grego héteros = outro + nomos = lei), ou seja, a lei imposta ou estabelecida pelo outro o que acaba dificultando, segundo a autora do artigo as crianças estabelecerem sozinhas suas formas de convivência no momento do recreio que é sob o peso da heteronomia, um “recreio dirigido”. A autonomia (do grego autós = próprio + nomos = lei), ou seja, lei própria promove a interiorização de regras e normas das quais a criança já interiorizou e passa a se comportar de acordo com elas sem que ninguém lhes diga o que tenham de fazer.

 

63. (Unesp 2011) A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram. Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria?

Considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre “sabem” qual é a felicidade “certa” para seus sujeitos.

Juram que querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social – claro, é a mesma felicidade para todos.

É isso que você quer?

(Contardo Calligaris. Folha de S.Paulo, 10/06/2010. Adaptado.)

Sobre esse texto, é correto afirmar que:

a) Ao discorrer sobre a felicidade, o autor elege como foco a autonomia do indivíduo.

b) A felicidade é assunto público e por isso pode e deve ser orientada por critérios objetivos definidos pelo Estado.

c) O critério moral e religioso é o mais adequado para reger o comportamento dos indivíduos.

d) O bem-estar e a felicidade pessoal não devem ser assuntos restritos ao livre arbítrio individual.

e) Para o autor, a busca da felicidade não deve se subordinar ao relativismo das escolhas.

Resposta:A

A alternativa A é a única correta. Deste modo, ela nega a afirmação da alternativa B, uma vez que a intervenção do Estado na busca pela felicidade é uma interferência sobre a autonomia dos indivíduos. Da mesma maneira, as alternativas C, D e E estão incorretas, pois todas apreendem justamente o sentido inverso daquele proposto pelo autor, qual seja, a necessidade de liberdade aos indivíduos no que se refere à busca pela felicidade, pois numa sociedade na qual convivem pessoas das mais variadas orientações religiosas ou filosóficas e com as mais diferentes visões de mundo, a imposição, pelo Estado, de um único modelo de felicidade e de um único critério, uma única orientação para a sua busca, atenta contra as liberdades individuais.

 

64. (Unesp 2010) Em 399 a.C., o filósofo Sócrates é acusado de graves crimes por alguns cidadãos atenienses. (…) Em seu julgamento, segundo as práticas da época, diante de um júri de 501 cidadãos, o filósofo apresenta um longo discurso, sua apologia ou defesa, em que, no entanto, longe de se defender objetivamente das acusações, ironiza seus acusadores, assume as acusações, dizendo-se coerente com o que ensinava, e recusa a declarar-se inocente ou pedir uma pena. Com isso, ao júri, tendo que optar pela acusação ou pela defesa, só restou como alternativa a condenação do filósofo à morte.

(Danilo Marcondes. Iniciação à História da Filosofia, 1998. Adaptado.)

Com base no texto apresentado, explique quais foram os motivos da condenação de Sócrates à morte.

Resposta:

 É importante, antes de mencionar os motivos pelos quais condenaram Sócrates à morte, dizer que quando falava, era dono de um estranho fascínio. Requisitado por muitos jovens, passava horas discutindo na praça pública, assim, interpelava a todos assumindo ser ignorante e fazia perguntas aos que julgavam entender sobre um determinado assunto colocando qualquer um em tal situação que não havia um outro jeito a não ser reconhecer sua própria ignorância. Com isso Sócrates além de discípulos, conseguiu inúmeros inimigos. Sócrates foi acusado de corromper a mocidade e desconhecer os deuses da cidade, por isto, foi condenado à morte. A história de sua condenação, defesa e morte é contada num dos mais belos diálogos de Platão, Apologia de Sócrates.

 

65. (Unesp 2010) Em 19 de fevereiro de 1616, o Santo Ofício passou aos seus teólogos as duas proposições que resumiam o núcleo da questão para que fossem examinadas. As duas proposições eram as seguintes: a) ‘Que o Sol é o centro do mundo, sendo consequentemente imóvel de movimento local’. b) ‘Que a Terra não está no centro do mundo nem é imóvel, mas move-se por si mesma’. Cinco dias depois, todos os teólogos de acordo, sentenciaram que a primeira proposição era tola e absurda em filosofia e formalmente herética, enquanto contrastava com as sentenças da Sagrada Escritura em seu significado literal e segundo a exposição comum dos Santos Padres e dos doutores em teologia.

(Reale e Antiseri. História da Filosofia, 2000. Adaptado.)

O texto descreve os motivos que levaram à condenação do filósofo Galileu Galilei por uma instituição religiosa. Responda qual foi a instituição que o condenou e explique os motivos dessa condenação.

Resposta:

 Galileu Galilei (1564-1642), italiano, físico, matemático e filósofo, lecionou nas universidades de Pisa e Pádua. Escreveu O ensaidor, Diálogos sobre os dois máximos sistemas do mundo e Discurso sobre duas novas ciências. Foi responsável pela superação do aristotelismo quanto a questão do movimento estabelecendo uma diferença entre movimento qualitativo e quantitativo. Enquanto Aristóteles via qualidades (corpos pesados e leves), Galileu descobre relações e funções. Sua vida foi marcada pela perseguição política e religiosa por defender a substituição do modelo ptolomaico do mundo (geocentrismo) pelo modelo copernicano (heliocentrismo), deste modo, tais pensamentos iram contra a interpretação literal da Bíblia pela Igreja Católica, onde a Terra era, até então, o centro do Universo. Por defender o heliocentrismo foi condenado pela Inquisição – dedicada, sobretudo a supressão da heresia no seio da Igreja Católica – , seus livros foram proibidos a não ser nos países convertidos pelo protestantismo e foi pela mesma obrigado a abjurar publicamente suas ideias, sendo confinado em prisão domiciliar a partir de 1633.

 

66. (Unesp 2010) Segundo John Locke, filósofo britânico do século XVII, a mente humana é como uma tábula rasa, uma folha em branco na qual a experiência deixa suas marcas. Responda a qual escola filosófica ele pertenceu e explique duas de suas características.

Resposta:

 John Locke está junto Thomas Hobbes, George Berkeley e David Hume entre as figuras mais famosas e conhecidas da filosofia inglesa dos séculos XVI e XVIII, por isso eram chamados de empiristas ingleses. Na verdade, o empirismo é uma característica muito marcante da filosofia inglesa. Na Idade Média, por exemplo, temos Roger Bacon e Guilherme de Ockham e mais próximos de nós Bertrand Russel. Os empiristas afirmam que a razão, com seus princípios, seus procedimentos e suas ideias, é adquirida por nós pela experiência. Em grego, experiência se diz empeiria, donde, empirismo, conhecimento empírico, isto é, conhecimento adquirido por meio da experiência.

Duas características do empirismo:

1-Nossos conhecimentos começam com a experiência dos sentidos, isto é, com as sensações. Os objetos exteriores excitam nossos sentidos e vemos cores, sentimos sabores e odores, ouvimos sons, sentimos a diferença entre o áspero e o liso, o quente e o frio, etc.

2- As ideias trazidas pela experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelo hábito, são levadas à memória e, de lá, a razão as apanha para formar os pensamentos.

 

 

67. (Unesp 2010) “Em algum remoto rincão do sistema solar cintilante em que se derrama um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais inteligentes inventaram o conhecimento.

Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela boia no ar […] e sente em si o centro voante deste mundo”.

(NIETZSCHE. O Livro das Citações, 2008.)

Sobre o texto, é correto afirmar que:

a) Seu teor acerca do lugar da humanidade na história do universo é antropocêntrico.

b) O autor revela uma visão de mundo cristã.

c) O autor apresenta uma visão cética acerca da importância da humanidade na história do universo.

d) Ao comparar a vida humana com a vida de uma mosca, Nietzsche corrobora os fundamentos de diversas teologias, não se limitando ao ponto de vista cristão.

e) Para o filósofo, a vida humana é eterna.

Resposta:C

A alternativa C é a única correta, pois a citação demonstra que Nietzsche critica justamente o antropocentrismo, isto é, a visão na qual o Homem ocupa o centro das atenções em relação não só à Natureza, mas também em relação ao Universo (alternativa A). Do mesmo modo, o autor não poderia revelar aí uma visão de mundo cristã (alternativa B), pois esta também é antropocêntrica. A comparação da vida humana com a vida de uma mosca (alternativa D) serve não para contemplar outras teologias, mas sim para demonstrar a relatividade da importância da vida humana. Por fim, a alternativa E é desmentida na seguinte passagem: “Houve eternidades em que ele (o intelecto humano) não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido”.

 

68. (Unesp 2010) Nas Grandes Antilhas, alguns anos após a Descoberta da América, enquanto os espanhóis enviavam comissões de investigação para indagar se os indígenas possuíam ou não alma, estes últimos dedicavam-se a afogar os brancos feitos prisioneiros para verificarem através de uma investigação prolongada se o cadáver daqueles estava ou não sujeito à putrefação. Esta anedota simultaneamente barroca e trágica ilustra bem o paradoxo do relativismo cultural: é na própria medida em que pretendemos estabelecer uma discriminação entre as culturas e os costumes, que nos identificamos mais completamente com aqueles que pretendemos negar.

Recusando a humanidade àqueles que surgem como os mais ‘selvagens’ ou ‘bárbaros’ dos seus representantes, mais não fazemos que copiar-lhes suas atitudes típicas. O bárbaro é em primeiro lugar o homem que crê na barbárie.

(Claude Lévi-Strauss. Raça e História, 1987.)

Considerando o texto do antropologo Lévi-Strauss, responda se os critérios que definem o grau de progresso de determinada civilização ou cultura são absolutos ou relativos.

Explique o conceito de “bárbaro” para o autor e indique as implicações de seu pensamento para a análise da justificação ideológica da dominação da civilização ocidental sobre outras civilizações na história.

Resposta:

 Os critérios são relativos porque respondem a uma visão unilateral quanto aos valores culturais ocidentais. Para o autor a verdadeira “barbárie” consiste em não aceitar uma determinada cultura em prol de uma visão ocidental e supostamente civilizatória. O conceito de “bárbaro”, relaciona-se, na concepção de Lévi-Strauss na não aceitação da contradição. A noção de civilização implica a superação das diferenças em prol de um entendimento e interpretação de diversas culturas, propiciando, desta maneira, a supremacia da ideologia ocidental.

 

69. (Unesp 2010) O cônsul do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, afirmou que a tragédia em seu país “está sendo boa” para que os haitianos fiquem mais conhecidos no Brasil. O diplomata não sabia que estava sendo filmado. As imagens apareceram em reportagem do telejornal SBT Brasil, na noite de quinta-feira (14). “A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido”, disse o cônsul. Antoine atribuiu o desastre em seu país a maldições: “Acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo… O africano em si tem maldição”. Depois de criticar as religiões africanas, Antoine aparece, durante a entrevista, segurando um terço. “Esse terço nós usamos porque dá energia positiva, acalma as pessoas. Como estou muito tenso, deprimido com o negócio do Haiti, a gente fica mexendo com vários para se acalmar”, afirmou o cônsul. Na mesa, há outro terço além do que ele está segurando.

(Revista Época, 15.01.2010. Adaptado.)

Assinale a alternativa correta.

a) As declarações do cônsul do Haiti transmitem uma visão positiva sobre valores e práticas culturais de origem africana.

b) A crítica de Antoine às religiões africanas expressa uma visão de mundo marcada pela tolerância religiosa.

c) O ponto de vista do cônsul pode ser caracterizado como uma visão de mundo racionalista.

d) Para o cônsul, a explicação dos motivos que provocaram o terremoto no Haiti relaciona-se exclusivamente com causas físicas, excluindo possíveis intervenções de entidades religiosas.

e) As declarações do cônsul haitiano revelam uma concepção mística sobre a realidade.

Resposta:E

Junto com a Filosofia a concepção mística da realidade é uma das formas que a humanidade se utiliza para explicar o mundo. As declarações do cônsul do Haiti primeiramente revelam a crença profunda de que a prática da religiosidade do povo haitiano através religiões africanas tivesse provocado uma maldição ao Haiti em forma de terremoto o que exclui a questão D como verdadeira e depois, segundo ele mesmo, na importância desta tragédia em manipular a mídia brasileira a fim de que seu país ficasse mais conhecido.

 

 

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:

Texto 1

“Agora que as paixões acalmaram, volto à proibição do fumo em ambientes fechados, aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Incrível como esse tema ainda gera discussões acaloradas. Como é possível considerar a proibição de fumar nos lugares em que outras pessoas respiram uma afronta à liberdade individual? As evidências científicas de que o fumante passivo também fuma são tantas e tão contundentes que os defensores do direito de encher de fumaça restaurantes e demais espaços públicos só podem fazê-lo por duas razões: ignorância ou interesse financeiro. Sinceramente, não consigo imaginar terceira alternativa’.

(VARELLA, Drauzio. “O fumo em lugares fechados”. Folha de S.Paulo, 25/04/2009.)

Texto 2

 

“Típico do espírito fascista é seu amor puritano pela ‘humanidade correta’ ao mesmo tempo em que detesta a diversidade promíscua dos seres humanos. Por isso sua vocação para ideia de ‘higiene científica e política da vida’: supressão de hábitos ‘irracionais’, criação de comportamentos ‘que agregam valor político, científico e social’. O imperativo “seja saudável” pode adoecer uma pessoa. Na democracia o fascismo pode ser invisível como um vírus. Quer um exemplo da contaminação? Votemos uma lei: mesmo em casa não se pode fumar. Afinal, como ficam os pulmões dos vizinhos? Que tal uma campanha nas escolas para as crianças denunciarem seus pais fumantes?”

(PONDÉ, Luis Felipe. “O vírus fascista”. Folha de S.Paulo, 22/09/2008.)

 

70. (Unesp 2010) Confrontando o conteúdo dos dois textos, assinale a alternativa correta.

a) Para os dois autores, é correta a existência de uma lei que proíbe o fumo em lugares fechados, pois ambos baseiam-se em argumentos de natureza política e filosófica.

b) O primeiro texto ampara-se em argumentos científicos, e o segundo, em argumentos de natureza política e filosófica.

c) Para o autor do segundo texto, o fascismo é um fenômeno superado da história, e por isso incompatível com sociedades democráticas.

d) Para o autor do segundo texto, argumentos de base científica prevalecem sobre argumentos de base política e filosófica.

e) Os dois textos apresentam visões contrastantes sobre a proibição do fumo, sendo que ambos baseiam seus argumentos sob um ponto de vista científico.

Resposta:B

A resposta correta é a alternativa B, porque os dois autores lançam mão de argumentos de naturezas distintas, defendendo pontos de vistas contrários. Ambas as visões são fundamentadas em valores bastante caros ao pensamento ocidental. Não obstante, se contrapõem. O primeiro texto, escrito por um médico, mobiliza conhecimentos científicos sobre os malefícios do cigarro para a saúde para questionar aqueles que se opõem à proibição do fumo em lugares públicos e fechados. O segundo, escrito por um filósofo, tenta acionar valores como a liberdade individual para questionar tal lei e infere, ademais, um questionamento político, ao sugerir um suposto caráter ditatorial escondido em medidas obtidas por vias democráticas.

 

71. (Unesp 2010) De acordo com os dois textos, pode-se concluir que:

a) a filosofia é uma área do conhecimento que compartilha dos mesmos critérios que a ciência.

b) no texto 2, o “amor puritano pela humanidade correta” é compatível com a “diversidade promíscua dos seres humanos”.

c) segundo os dois autores, fumar ou não fumar é problema ético, não relacionado com políticas estatais de saúde pública.

d) para o autor do texto 2, inexistem critérios universais e absolutos que possam regular o comportamento ético dos indivíduos.

e) para os dois autores, a vida saudável é um imperativo a ser priorizado sob quaisquer circunstâncias.

Resposta:D

A leitura dos textos do Doutor Drauzio Varella sobre o fumo em lugares fechados e do filósofo Luis Felipe Pondé, sobre o vírus fascista, permite-nos uma reflexão sobre a moral. O conjunto de normas que orientam o comportamento humano tende sempre como base os valores próprios a uma dada comunidade ou cultura o que nos permite concluir ser correta a questão “D”, uma vez que no espaço e no tempo, as comunidades humanas podem ser distintas umas das outras, o que origina códigos morais diferentes. Enquanto Doutor Drauzio não vê mais que duas alternativas possíveis – ainda que defendendo a proibição do fumo em lugares públicos – o filósofo Luis Felipe Pondé não crê num comportamento moral universal exatamente porque a ação moral somente tem sentido quando exercida na liberdade, ou seja, quando não há coação na pratica de uma ação propiciando a capacidade humana de decidir com consciência entre o bem e o mal.

 

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:

Texto 1

 Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para um outro. Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte seria um maravilhoso presente. […] Se, ao contrário, a morte é como uma passagem deste para outro lugar, e, se é verdade o que se diz que lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir, ó juízes, maior do que este? Porque, se chegarmos ao Hades, libertando-nos destes que se vangloriam serem juízes, havemos de encontrar os verdadeiros juízes, os quais nos diria que fazem justiça acolá: Monos e Radamante, Éaco e Triptolemo, e tantos outros deuses e semideuses que foram justos na vida; seria então essa viagem uma viagem de se fazer pouco caso? Que preço não seríeis capazes de pagar, para conversar com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero?

(Platão. Apologia de Sócrates, 2000.)

Texto 2

 Ninguém sabe quando será seu último passeio, mas agora é possível se despedir em grande estilo. Uma 300C Touring, a versão perua do sedã de luxo da Chrysler, foi transformada no primeiro carro funerário customizado da América Latina. A mudança levou sete meses, custou R$ 160 mil e deixou o carro com oito metros de comprimento e 2 340 kg, três metros e 540 kg além da original.

O Funeral Car 300C tem luzes piscantes na já imponente dianteira e enormes rodas, de aro 22, com direito a pequenos caixões estilizados nos raios. Bandeiras nas pontas do capô, como nos carros de diplomatas, dão um toque refinado. Com o chassi mais longo, o banco traseiro foi mantido para familiares acompanharem o cortejo dentro do carro. No encosto dos dianteiros, telas exibem mensagens de conforto. O carro faz parte de um pacote de cerimonial fúnebre que inclui, além do cortejo no Funeral Car 300C, serviços como violinistas e revoada de pombas brancas no enterro.

(Funeral tunado. Folha de S.Paulo, 28.02.2010.)

 

72. (Unesp 2010) Após análise dos dois textos, pode-se afirmar que:

a) o texto 1 é de natureza fictícia, e portanto não baseado em fatos históricos.

b) Platão não apela a entidades míticas para justificar sua concepção positiva sobre a morte.

c) Platão faz alusão a um fato histórico fundamental para a filosofia ocidental: as circunstâncias da morte de Sócrates.

d) o texto 2 trata do caráter sagrado e religioso dos funerais em nossa sociedade.

e) o texto 1 evidencia que a morte não é um tema filosófico.

Resposta:C

O esclarecimento das circunstâncias da morte de Sócrates foi de fundamental importância para a história da Filosofia Ocidental. Por ser considerado subversivo, representou uma ameaça social, pois desrespeitava a ordem estabelecida e mesmo interessado na prática da virtude e na busca da verdade dirigiu sua atenção para as pessoas sem fazer distinção da condição social. Segundo o texto em questão, é o mundo invisível, ou seja, no mundo das Ideias que contam mais do que a vida.

 

73. (Unesp 2010) Confrontando o conteúdo dos dois textos, pode-se afirmar que:

a) embora os dois textos transmitam concepções divergentes acerca da morte, eles tratam de visões concernentes à mesma época, a saber, a sociedade atual.

b) sob o ponto de vista filosófico, não há diferenças qualitativas entre uma e outra concepção sobre a morte.

c) os comentários do texto grego sobre a morte são coerentes com uma filosofia de forte valorização do corpo em detrimento da alma, e do mundo sensível sobre o mundo inteligível.

d) o texto de Platão evidencia uma cultura monoteísta, enquanto que o segundo é politeísta.

e) enquanto no primeiro texto transparece a dignidade metafísica da morte, no segundo sugere-se a conversão do funeral em espetáculo da sociedade de consumo.

Resposta:E

Platão, autor deste primeiro texto, é, se pudermos dizer em uma palavra, representante do pensamento dualista que admite a existência de dois mundos: o mundo das ideias imutáveis, eternas e o mundo das aparências sensíveis, mutáveis o que anula imediatamente a questão C. Ao pensarmos o mundo das ideias de Platão, necessariamente notamos o único mundo verdadeiro uma vez que o mesmo admite uma certa realidade do mundo sensível exatamente porque participa do mundo das ideias do qual é uma cópia ou, mais precisamente, uma sombra. Um belo animal, por exemplo, só é belo porque participa da Beleza em si. Deste modo a visão metafísica da morte apresentado por Platão como um “sono que conduz a alma para outro lugar” está ligada à doutrina das Ideias, quer dizer, a esperança da imortalidade da alma que é feita para as Ideias – visto que sua união com o corpo é acidental e assustadora – viaja para conversar com os deuses.

O segundo texto, de natureza jornalística, descreve, diferentemente de Platão a morte como um evento lucrativo, requintado e pomposo. A sociedade neoliberal permite que a indústria da propaganda explore não só a erotização do amor, bem como a morte que é colocada como um objeto a ser usado no meio lucrativo da venda. O respeito pela morte é negligenciado neste tipo de sociedade convertendo-se em um espetáculo de consumo.